O que é imunoterapia e como usá-la no tratamento do câncer de pele?

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Dr Rodrigo Ramella Munhoz

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O tratamento do melanoma sofreu uma absoluta revolução a partir de 2011 com a incorporação da imunoterapia e da terapia-alvo. Mais recentemente, a imunoterapia também se transformou em uma das opções de escolha para o tratamento de outros tumores de pele, como o carcinoma epidermóide, o carcinoma de células de Merkel e o carcinoma basocelular. Mas o que é exatamente a imunoterapia?

A imunoterapia não é uma forma única de tratamento, mas um conjunto de tratamentos que buscam estimular o sistema imunológico do próprio paciente para que ele consiga identificar e combater melhor o tumor. A história da imunoterapia no câncer começou há mais de um século, e grandes avanços foram obtidos nos últimos vinte anos.

Nos anos 80 e 90, alguns medicamentos (hoje em desuso) foram utilizados como imunoterapias; dentre eles, merecem destaque os interferons e a interleucina, substâncias que tinham por objetivo estimular uma espécie de inflamação no organismo e sensibilizar algumas células imunes específicas. Infelizmente, os benefícios com essas estratégias são restritos a uma pequena parcela dos pacientes, mas as respostas podem ser duradouras e há pacientes que foram curados mesmo tendo um melanoma metastático. Os efeitos colaterais também podem ser complexos, e incluem: queda da imunidade, inflamação do fígado, alterações do humor, fadiga etc. Devido ao avanço das outras formas de imunoterapia, os interferons e a interleucina 2 são usados cada vez menos, em casos muito selecionados.

Nos dias de hoje, a forma mais comum e mais eficaz de imunoterapia para tumores de pele consiste em medicamentos que removem os freios do sistema imunológico, permitindo o ataque às células tumorais – são os chamados bloqueadores de correceptores imunes, que têm por alvo os “freios” PD-1, PD-L1 e CTLA-4. São drogas usualmente administradas por via venosa. Há diferentes medicamentos que compartilham os mesmos princípios e mecanismos de ação, inclusive com efeitos colaterais bem parecidos entre eles. Esses medicamentos hoje correspondem ao tratamento padrão em diferentes tumores de pele avançados que não podem ser curados com cirurgia ou que foram capazes de produzir metástases. Mais recentemente, novos estudos também demonstraram o papel da imunoterapia com bloqueadores de correceptores imunes na prevenção contra a recorrência do tumor em pacientes submetidos à cirurgia. Como esses medicamentos atuam através do estímulo ao sistema imunológico, os efeitos colaterais são resultado de inflamações: inflamação da pele (dermatite), das glândulas endócrinas (tireoidite, hipofisite etc.), do fígado (hepatite, que não é a hepatite viral), do intestino (colite), do tecido pulmonar (pneumonite), etc. Algumas das indicações e nomes das imunoterapias atuais estão resumidos na tabela abaixo.

Medicamento Câncer de pele em que é utilizado Finalidade do uso
Nivolumabe (anti-PD-1) Melanoma Preventivo (adjuvante) e doença avançada
Pembrolizumabe (anti-PD-1) Melanoma Preventivo (adjuvante) e doença avançada
Nivolumabe (anti-PD-1) e Ipilimumabe (anti-CTLA-4) Melanoma Para doença avançada
Cemiplimabe (anti-PD-1) Carcinoma epidermóide e carcinoma basocelular Para doença avançada
Avelumabe (anti-PD-L1) Carcinoma de células de Merkel Para doença avançada

Um outro modelo de imunoterapia, chamado de terapia celular, consiste na reprogramação das próprias células do paciente. Há diferentes formas. Em uma delas, faz-se uma nova biópsia e isolam-se as células de defesa (linfócitos) que estão infiltrando o tumor. Essas células são multiplicadas fora do corpo, estimuladas, e depois devolvidas ao paciente (“TIL therapy”). Como são células de defesa que estavam reconhecendo algo de estranho no tumor e por isso estavam infiltrando e tentando combatê-lo, ao serem estimuladas, multiplicadas e devolvidas ao paciente na forma de um soro, passam a reconhecer e atacar as células tumorais presentes no paciente. Apesar de bastante promissora, essa ainda é uma técnica experimental, e teve sua indicação em parte substituída pelas novas formas de imunoterapia.

Certamente estamos vivendo uma nova era no tratamento dos tumores de pele, com resultados cada vez mais promissores, mesmo nos casos de doença avançada. Em função do grande benefício já demonstrado em estudos científicos, a imunoterapia já foi incorporada à prática diária do oncologista que atua em centros de referência especializados no tratamento do câncer de pele, também no Brasil, onde o acesso às novas drogas, felizmente, tornou-se realidade.