Síndrome Pós–Covid-19: o que é e o que fazer a respeito

 
Fonte: Dra. Amanda Gonzalez Rodrigues, Dr. André Luís Pereira de Albuquerque e Profa. Dra. Christina May Moran de Brito
Publicado em 02/06/2021
Síndrome Pós–Covid-19: o que é e o que fazer a respeito

A Doença do Coronavírus 2019 (COVID-19) é uma doença viral sistêmica, ou seja, que afeta o organismo como um todo, e que pode se apresentar em sua forma leve, moderada, grave ou crítica. Segundo esta classificação do National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos da América, consideram-se cinco possíveis apresentações da infecção pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2), conforme segue:1

  • Assintomática ou Infecção Pré-Sintomática (Pré-Clínica): indivíduos com teste positivo para SARS-CoV-2 com uso de testagem viral (ex. teste de amplificação do ácido nucleico ou de detecção de antígeno), mas que não tenham sintomas condizentes com a COVID-19.
  • Doença Leve: indivíduos com teste positivo e que tenham qualquer sinal ou sintoma da COVID-19 (ex. febre, tosse, dor de garganta, mal estar, cefaleia, dor muscular, náusea, vômitos, diarreia, perda de olfato e paladar), mas que não tenham falta de ar, dispneia ou alteração em exame de imagem pulmonar.
  • Doença Moderada: indivíduos com teste positivo que apresentam envolvimento das vias aéreas inferiores no exame clínico (cansaço ou dispneia) ou nos exames de imagem e que tenham saturação de oxigênio (Sat O2) ≥ 94% em ar ambiente.
  • Doença Grave: indivíduos com teste positivo e com Sat O2 < 94% em ar ambiente ou uma relação entre a pressão parcial de oxigênio arterial e a fração inspirada de oxigênio (PaO2/FiO2) < 300 mm Hg ou frequência respiratória > 30 respirações/minuto ou acometimento pulmonar > 50%.
  • Doença Crítica: indivíduos com teste positivo e com insuficiência respiratória, choque séptico e/ou disfunção de múltiplos órgãos.

Ainda que as sequelas e as necessidades de reabilitação sejam mais evidentes nas pessoas que desenvolvem as formas grave e crítica da doença, aqueles com as apresentações leves e moderadas podem apresentar sintomas persistentes e se beneficiar dos cuidados de reabilitação. Segundo diferentes estudos realizados, seguem abaixo os sintomas mais prevalentes em pessoas com histórico de COVID-19 e hospitalização, com internação em enfermaria e/ou unidade de terapia intensiva (UTI), condizentes com o que temos observado no Serviço de Reabilitação:2-5

  • • Fadiga ou fraqueza muscular (63%).4
  • • Fadiga (29,9% e 38,1% dos pacientes hospitalizados, sem e com necessidade de ventilação mecânica, respectivamente).5
  • • Fraqueza Muscular - em pacientes internados em UTI a perda de força muscular foi de até 3,7% ao dia (sendo que a perda muscular usualmente observada em pacientes críticos se situa entre 0,7 a 1,5% ao dia).2
  • • Dispneia (34,5% e 45,1% dos pacientes hospitalizados, em enfermaria e UTI, respectivamente);3 (13,1% e 34,2%, dos pacientes hospitalizados, sem e com necessidade de ventilação mecânica, respectivamente).5
  • • Necessidade de meio auxiliar de locomoção (28,8% e 39,8% dos pacientes hospitalizados, em enfermaria e UTI, respectivamente).3/li>
  • • Algum grau de dependência para Atividades de Vida Diária (27,3% e 38,9%, dos pacientes hospitalizados, em enfermaria e UTI, respectivamente).3
  • • Algum grau de dependência para Atividades Instrumentais de Vida Diária (74,5% e 84,6% dos pacientes hospitalizados, em enfermaria e UTI, respectivamente).3
  • • Dor (27,1% e 33,9% dos pacientes hospitalizados, em enfermaria e UTI, respectivamente).3
  • • Distúrbios do sono (26%)4 e (53,6%).5
  • • Disfunção Cognitiva (38,4%).5
  • • Ansiedade (31,4%).5
  • • Depressão (20,6%).5
  • • Estresse pós-traumático (14,2%).5

A ocorrência destes sintomas persistentes vem sendo denominada de Síndrome Pós-COVID-19, “COVID longa” e, também, de Síndrome Pós-Cuidados de Terapia Intensiva (Post-intensive Care Syndrome – PICS), nos casos mais graves. Felizmente, as pessoas acometidas por estes quadros apresentam uma boa resposta às intervenções de reabilitação, mas estas devem ser precoces e oportunas, na medida da necessidade de cada indivíduo, para melhores resultados.6-9

Além da avaliação clínica de reabilitação, com testes funcionais, exames complementares podem se fazer necessários, para aprofundar a avaliação e auxiliar no direcionamento do programa de reabilitação, para maior efetividade e segurança. Mais além, exames complementares são também necessários para estratificação de risco e liberação para a prática de exercício físico após a ocorrência da COVID-19.10-13 Desta forma, é possível determinar a capacidade funcional do indivíduo, realizar a estratificação de risco e verificar os limiares de treinamento a serem observados para uma adequada prescrição do programa de reabilitação.

Como os pacientes moderados têm acometimento de pequenas vias aéreas, é importante avaliar clinicamente e com exames funcionais e de imagem a intensidade deste acometimento e introduzir terapêutica e cuidados adequados voltados à recuperação.9 A COVID-19 também está associada a complicações cardiovasculares, como miocardite, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, arritmias e tromboembolismo venoso. Um estudo mostrou que a cardiomiopatia pode estar presente em 33% dos pacientes com COVID-19,16 além disso, a severa inflamação sistêmica e o estado de hipercoagulabilidade estão associados ao maior risco de rompimento de placa aterosclerótica e infarto do miocárdio.17 A própria doença cardiovascular preexistente constitui fator de risco para maior gravidade da COVID-19. Pacientes com insuficiência cardíaca hospitalizados por COVID-19 apresentam um alto risco de complicações e mortalidade mais elevada.18

Considerando esta realidade e as evidências disponíveis, oferecemos programas de reabilitação voltados a estas necessidades, para a promoção da recuperação de pacientes acometidos pela COVID-19. A avaliação médica será realizada por médicos especialistas em reabilitação, que atuam no Centro de Reabilitação (fisiatras), na Cardiologia do Exercício (cardiologistas) e/ou no Laboratório de Função Pulmonar (pneumologista), dependendo do contexto clínico do paciente. Para os pacientes com indicação de Programa de Reabilitação, este será oferecido, conforme avaliação médica e complementar.

Os casos leves, com exames normais e boa recuperação, sem necessidade de reabilitação, precisam de orientação para o aumento do nível de atividade física e realização de exercícios de acordo com as recomendações para as diferentes faixas etárias e necessidades individuais. Como ressaltado em uma publicação do British Journal of Sports Medicine, estamos vivenciando duas pandemias: a COVID-19 e o aumento da inatividade física.19

O cuidado a pacientes com sarcopenia (perda muscular), fragilidade (perda da reserva funcional) e/ou síndrome metabólica (sobrepeso e distúrbios metabólicos) demandam avaliação e seguimento nutricional. Aqueles com quadros de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático e/ou evidência de disfunção cognitiva demandam avaliação e seguimento psicológicos. Pacientes com quadros neurológicos adicionais demandarão programa de reabilitação e exames complementares distintos.

Nosso Atendimento

Conheça o nosso Programa de Reabilitação Pós–COVID-19 - Para agendar uma avaliação e mais informações, entre em contato com o Centro de Reabilitação (11) 3394-4742 ou 4628 ou com a Cardiologia do Exercício e Laboratório de Função Pulmonar (11) 3394-4523.


Referências:

  1. National Institute of Health (NIH). COVID-19 treatment guidelines. https://www.covid19treatmentguidelines.nih.gov/overview/clinical-spectrum/
  2. Andrade-Junior MC, Salles ICD, de Brito CMM, Pastore-Junior L, Righetti RF, Yamaguti WP. Skeletal Muscle Wasting and Function Impairment in Intensive Care Patients with Severe COVID-19. Front. Physiol. 2021; 12: 640973. doi: 10.3389/fphys.2021.640973
  3. Leite VF, Rampim DB, Jorge VC, de Lima MCC, Cezarino LG, da Rocha CN, Esper RB, on behalf of Prevent Senior COVID- 19 Rehabilitation Study. Persistent symptoms and disability after COVID-19 hospitalization: data from a comprehensive telerehabilitation program, Archives of Physical Medicine and Rehabilitation (2021), doi: https://doi.org/10.1016/j.apmr.2021.03.001
  4. Huang C, Huang L, Wang Y, et al. 6-month consequences of COVID-19 in patients discharged from hospital: a cohort study. Lancet. 2021;397(10270):220-232. doi:10.1016/S0140-6736(20)32656-8
  5. Writing Committee for the COMEBAC Study Group, Morin L, Savale L, et al. Four-Month Clinical Status of a Cohort of Patients After Hospitalization for COVID-19. Jama. Published online 2021:1-10. doi:10.1001/jama.2021.3331
  6. Barker-Davies RM, O’Sullivan O, Senaratne KPP, et al. The Stanford Hall consensus statement for post-COVID-19 rehabilitation. Br J Sports Med. 2020;54(16):949-959. doi:10.1136/bjsports-2020-102596
  7. Righetti RF, Onoue MA, Politi FVA, et al. Physiotherapy care of patients with coronavirus disease 2019 (Covid-19)-a brazilian experience. Clinics. 2020;75:1-18. doi:10.6061/clinics/2020/e2017
  8. Wade DT. Rehabilitation after COVID-19: An evidence-based approach. Clin Med J R Coll Physicians London. 2020;20(4). doi:10.7861/CLINMED.2020-0353
  9. Siddiq MAB, Rathore FA, Clegg D, Rasker JJ. Pulmonary rehabilitation in COVID-19 patients: A scoping review of current practice and its application during the pandemic. Turkish J Phys Med Rehabil. 2021;66(4):480-494. doi:10.5606/TFTRD.2020.6889
  10. Kim JH, Levine BD, Phelan D, et al. Coronavirus Disease 2019 and the Athletic Heart: Emerging Perspectives on Pathology, Risks, and Return to Play. JAMA Cardiol. Published online 2020:1-9. doi:10.1001/jamacardio.2020.5890
  11. Driggin E, Madhavan M V., Bikdeli B, et al. Cardiovascular Considerations for Patients, Health Care Workers, and Health Systems During the COVID-19 Pandemic. J Am Coll Cardiol. 2020;75(18):2352-2371. doi:10.1016/j.jacc.2020.03.031
  12. Baggish A, Drezner JA, Kim J, Martinez M, Prutkin JM. Resurgence of sport in the wake of COVID-19: Cardiac considerations in competitive athletes. Br J Sports Med. 2020;54(19):1130-1131. doi:10.1136/bjsports-2020-102516
  13. Yeo TJ. Sport and exercise during and beyond the COVID-19 pandemic. Eur J Prev Cardiol. 2020;27(12):1239-1241. doi:10.1177/2047487320933260
  14. Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. Posicionamento sobre avaliação pré-participação cardiológica após a covid-19: orientações para retorno à prática de exercícios físicos e esportes – 2020. https://www.portal.cardiol.br/post/posicionamento-sobre-avaliacao-pre-participacao-cardiologica-apos-a-covid-19
  15. Phelan D, Kim JH, Chung EH. A game plan for the resumption of sport and exercise after coronavirus disease 2019 (COVID-19) infection. JAMA Cardiol. Published online May 13, 2020.
  16. Fei Zhou , Ting Yu , Ronghui Du. Clinical course and risk factors for mortality of adult inpatients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective cohort study. Lancet 2020 Mar 28;395(10229):1054-1062.
  17. Frederick G P Welt , Pinak B Shah , Herbert D Aronow. Catheterization Laboratory Considerations During the Coronavirus (COVID-19) Pandemic: From the ACC's Interventional Council and SCAI. J Am Coll Cardiol. 2020 May 12;75(18):2372-2375.
  18. Bhatt AS, et al. Clinical Outcomes in Patients With Heart Failure Hospitalized With COVID-19. JACC Heart Fail. 2021.
  19. Wedig IJ, Duelge TA, Elmer SJ. Infographic. Stay physically active during COVID-19 with exercise as medicine. Br J Sports Med 2021; 55:346-47.