Prevenção de problemas cardíacos é o mais novo desafio no tratamento da aids

Infectologia; Cardiologia
Fonte: Dr. Otelo Rigato Junior, infectologista no Sírio-Libanês
Publicado em 03/08/2015
Prevenção de problemas cardíacos é o mais novo desafio no tratamento da aids

Prevenir-se dos problemas cardíacos é hoje um dos grandes desafios para as pessoas que vivem com HIV. O vírus causador da aids e os medicamentos que compõem o coquetel antirretroviral provocam reações no organismo que elevam as chances do aparecimento de doenças cardiovasculares.

O próprio vírus HIV pode agredir as células miocárdicas, levando vários soropositivos à insuficiência cardíaca. Além disso, a infecção está diretamente relacionada ao aumento dos níveis de triglicérides e alterações do perfil lipídico (colesterol) no sangue. Os medicamentos antirretrovirais, por sua vez, contribuem para o desenvolvimento do quadro de dislipidemia (aumento dos níveis de triglicérides e LDL (colesterol "ruim") e do diabetes, caracterizando a síndrome metabólica.

Um estudo realizado nos Estados Unidos com 2.800 pessoas e publicado no Journal of the American College of Cardiology, em 2012, indicou que os portadores do HIV são 4,5 vezes mais propensos a morrer por ataque cardíaco do que as pessoas que não têm este vírus.

Em 2010, uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em seu hospital, o Clementino Fraga Filho, mostrou que os pacientes com HIV estavam morrendo mais de problemas cardiometabólicos, como infarto e diabetes, do que em decorrência do enfraquecimento do sistema imunológico, que caracteriza a síndrome (aids). No caso específico das doenças do coração, houve um aumento da mortalidade de quase 8% entre os soropositivos atendidos no hospital, ante 0,8% na população em geral.

Infectologista no Sírio-Libanês, o dr. Otelo Rigato Junior ressalta que embora os medicamentos antirretrovirais sejam responsáveis por parte das comorbidades cardíacas, eles são imprescindíveis para a saúde das pessoas com HIV. "O não tratamento da aids ou o abandono da terapia também aumentam o risco para doenças cardíacas", comenta.

A preocupação com esses distúrbios tem crescido tanto nos últimos anos que seguir uma dieta equilibrada, praticar atividade física e mudar hábitos, como parar de fumar, já fazem parte das recomendações médicas para o tratamento da aids. Em alguns casos, medicamentos redutores de colesterol, como as estatinas e os fibratos, são adicionados ao coquetel antiaids.

"Além dos efeitos do vírus e dos medicamentos sobre o metabolismo, não podemos esquecer que o tratamento antirretroviral aumentou muito a expectativa de vida das pessoas com HIV, expondo-os naturalmente às doenças naturais do envelhecimento, como as cardiovasculares", avalia o dr. Rigato Junior.

O Ministério da Saúde estima que existam hoje 734 mil pessoas vivendo com HIV e aids no Brasil, o que corresponde 0,4% da população. Deste total, 355 mil (80%) já estão em tratamento, mas aproximadamente 145 mil pessoas não sabem que estão infectadas.

A estratégia do governo é diagnosticar pelo menos 90% dos casos de HIV no País até 2020, oferecendo a todos eles tratamento antirretroviral. O Ministério da Saúde pretende com isso melhorar a qualidade de vida das pessoas infectadas, o que inclui menos riscos de doenças cardiovasculares, e frear a transmissibilidade do HIV. O tratamento antirretroviral reduz a quantidade de HIV no organismo (carga viral), diminuindo assim as chances de transmissão em eventuais situações de risco.

O tratamento completo contra a aids é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com medicamentos antirretrovirais distribuídos pelo governo.

Além disso, o Hospital Sírio-Libanês coloca à disposição dos pacientes particulares e dos convênios de saúde atendidos uma equipe de infectologistas especializados na doença. No Centro de Cardiologia, os pacientes com HIV podem tanto realizar os mais simples diagnósticos e tratamentos cardiológicos como receber atendimento a situações de maior risco e complexidade.