Prevenção de problemas por uso de álcool e drogas deve começar na infância

Álcool e Drogas
Fonte: Dra. Carolina Hanna de Aquino Chaim, psiquiatra do Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio-Libanês; e Cristiana Renner, psicóloga do Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio-Libanês
Publicado em 04/08/2017

A adolescência é a faixa etária de maior vulnerabilidade para a experimentação e o uso abusivo de álcool e drogas, e os motivos que levam ao aumento do uso dessas substâncias são diversos. Alguns fatores podem estar relacionados a essa fase da vida, na qual são comuns a sensação de onipotência — ou seja, sentir que tem poder para fazer o que quiser — e a necessidade de desafiar a família e a sociedade e de buscar novas experiências.

Em 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou os dados de uma pesquisa realizada com alunos do 9o ano do ensino fundamental que apontaram que os jovens estão tendo acesso cada vez mais precoce às bebidas alcoólicas e às drogas ilícitas. Mais da metade dos entrevistados (55%, ou 1,44 milhão de alunos) relataram já ter tomado ao menos uma dose de bebida alcoólica, proporção superior aos 50,3% registrados em 2012. O dado mais preocupante foi o que mostrou que, tanto em 2012 quanto em 2015, um em cada cinco jovens (21,8% e 21,4% respectivamente) teve pelo menos um episódio de embriaguez. Revelaram ter experimentado alguma droga ilícita 9% dos alunos, ou 236,7 mil estudantes.

Os especialistas ressaltam que quanto menor a idade de início da ingestão de bebida alcoólica e outras drogas, maiores as possibilidades de o jovem se tornar um usuário dependente ao longo da vida. O consumo antes dos 16 anos aumenta significativamente o risco de beber em excesso na idade adulta. “O adolescente está em uma idade em que parte do cérebro ainda está se formando e que o comportamento impulsivo é muito grande”, explica a dra. Carolina Hanna de Aquino Chaim, psiquiatra do Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio-Libanês.

Também estão mais propensos ao uso precoce os jovens que pertencem a famílias que utilizam álcool e outras drogas com frequência, por estarem mais expostos a essas substâncias, e devido à hereditariedade, visto que diversos fatores genéticos já estão comprovados como parte da etiologia dos transtornos por uso de álcool e outras drogas.

Segundo a médica, a adolescência é uma etapa na qual o jovem está em processo de formação de sua personalidade e de sua capacidade de lidar com fatores como estresse, relacionamento com a família e autoestima. “O álcool e outras substâncias, em um primeiro momento, parecem oferecer uma resposta rápida a esses conflitos comuns à idade, fazendo com que o jovem perca a capacidade de desenvolver habilidades para lidar com essas questões no dia a dia”, explica a especialista.

Riscos do consumo precoce de álcool e outras drogas

O consumo precoce pode levar a uma série de consequências nocivas. Segundo a dra. Carolina, os adolescentes que se expõem ao uso excessivo dessas substâncias podem desenvolver problemas como ansiedade, depressão, transtorno de personalidade, déficit de memória, perda de rendimento escolar, retardo no aprendizado e no desenvolvimento de habilidades. Isso ocorre porque o sistema nervoso central ainda não está completamente desenvolvido.

“O custo social do uso abusivo de álcool também é elevado. Os adolescentes tendem a apresentar comportamentos de risco, como praticar atividade sexual sem proteção, o que pode levar à gravidez precoce e à exposição a doenças sexualmente transmissíveis”, alerta a médica.

O papel da família na prevenção

A dra. Carolina explica que a adolescência é uma fase em que o jovem é muito influenciado pelo grupo no qual está inserido. “Se o grupo acha normal beber em excesso ou utilizar outras drogas, o jovem também achará. E o que é mais preocupante é que o uso dessas substâncias tem sido cada vez mais aceito socialmente”, pontua.

Nesse contexto, o papel da família na prevenção ganha cada vez mais destaque. “É preciso monitorar o jovem, saber com quem ele se relaciona, quais locais frequenta. Não é o monitoramento no sentido de vigilância, mas de preocupação com a saúde e a segurança desse indivíduo”, diz a especialista.

Segundo a psicóloga do NAD Cristiana Renner, a prevenção do abuso de bebidas alcóolicas deve começar cedo, por volta dos sete ou oito anos de idade. “Nessa faixa etária, as crianças ainda ouvem os pais. Já na fase da pré-adolescência, é aos amigos que o jovem dará mais atenção, muitas vezes ignorando os conselhos dos pais”, afirma.

A abordagem, diz ela, deve ser feita de maneira natural, introduzindo o assunto quando a criança, por exemplo, tiver algum tipo de contato com alguém que bebeu demais. Caso os pais percebam que o jovem está apresentando um comportamento incomum — agressividade, notas baixas na escola, entre outras mudanças —, a recomendação é de procurar ajuda de um especialista. “Cabe ao profissional fazer uma avaliação mais profunda dos motivos que podem estar levando os jovens ao uso de álcool e drogas”, ressalta. Algumas doenças, como o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), podem aumentar as chances de uso dessas substâncias entre os jovens.

“Por meio do diálogo e do estabelecimento de limites e regras claras, a família assume papel relevante na prevenção e no apoio ao jovem que está fazendo uso ou abusando do álcool ou outras substâncias. Muitas vezes, o tratamento começa pela família”, finaliza a psicóloga.

O Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio-Libanês oferece uma equipe de profissionais multidisciplinares de excelência que atua na avaliação, no diagnóstico e no tratamento de pessoas que apresentam problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas.

Toda a equipe do NAD trabalha em conjunto para obter os melhores resultados por meio de tratamentos específicos para a necessidade de cada indivíduo. O paciente pode ser encaminhado ao núcleo pelo médico que o acompanha, por outros médicos do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês ou, se preferir, pode entrar em contato diretamente com a Central de Atendimento. O tratamento é voluntário, individualizado e realizado em ambulatório, podendo contar com uso de medicamentos, terapia e internações hospitalares para desintoxicação.