Incorporação de medicamentos na prevenção traz novas possibilidades para o enfrentamento da AIDS

Infectologia; Pediatria; Urologia
Fonte: Dra. Esper Kallás, infectologista integrante do corpo clínico do Sírio-Libanês
Publicado em 11/08/2014
Enfrentamento da AIDS

​Pesquisadores anunciaram recentemente que uma menina de 4 anos supostamente livre do HIV, depois de receber um tratamento intenso e precoce contra o vírus, ainda está infectada (Veja ao lado em Bebê de Mississípi). A notícia caiu como um balde de água fria para milhões de pessoas que aguardam a tão esperada cura da aids. O assunto foi um dos destaques da 20ª Conferência Internacional de Aids, realizada em julho na Austrália.

Bebê de Mississípi

Nascida em 2010, em Mississípi (EUA), a menina filha de uma mãe com HIV não tinha recebido cuidado pré-natal. Depois do nascimento, ela foi levada às pressas para um centro médico, onde recebeu um coquetel de três antirretrovirais.

Dezoito meses depois, o vírus parecia ter sido eliminado com essa terapia intensa e precoce. A menina continuou sendo testada nos anos seguintes, sem que os médicos encontrassem sinais do vírus ativo em seu organismo. Assim, o coquetel foi interrompido e a garota considerada livre do HIV.

Entretanto, recentemente, observou-se que o vírus possivelmente estava escondido em algum lugar imperceptível e que ele continuou a se replicar após a interrupção da terapia. A menina teve que voltar ao tratamento, que deverá ser mantido por toda a vida.

Mesmo com essa frustração, a mensagem final da Conferência foi de otimismo rumo ao fim da pandemia. O infectologista Esper Kallás, integrante do corpo clínico do Sírio-Libanês e um dos principais cientistas brasileiros na área, também compartilha desse sentimento. “Tenho uma forte esperança de que a gente vai estar vivo quando descobrirem a cura”, afirma o médico de 48 anos.

Também professor da Faculdade de Medicina da USP, Esper acredita que a cura da aids virá do progresso de estudos que já estão em desenvolvimento. Ele lembra o caso do paciente de Berlim, que passou por um transplante de medula e se tornou a primeira pessoa comprovadamente curada (veja ao lado); e os avanços científicos para atingir as cópias de HIV que ficam escondidas no organismo. Diversos estudos, inclusive no Brasil, têm apresentado boas perspectivas para a criação de medicamentos que tirem o vírus dos seus reservatórios de latência, também conhecido como “santuários virais”, que são os locais onde o HIV fica incubado no organismo, fora de alcance dos medicamentos. Com esses novos medicamentos, o vírus sairia do seu esconderijo e seria eliminado por completo pelos antirretrovirais.

“O que precisamos é evoluir nesses estudos e transformá-los em realidade para as pessoas”, avalia o médico.

Melhor estratégia ainda é a prevenção

Embora ressalte os conhecimentos científicos que visam à cura, o pesquisador Esper Kallás destaca como principais avanços para o enfrentamento da aids nos últimos anos o uso de medicamentos para evitar a infecção.

Além dos métodos mais antigos, como o preservativo, o aconselhamento, a identificação de portadores do vírus e o tratamento de outras doenças sexualmente transmissíveis, que podem ser a porta de entrada para o HIV, o uso de medicamentos contra o vírus por tempo limitado vem sendo adotado como forma de prevenção. Tais ações recebem o nome de profilaxias pós-exposição (PEP) e pré-exposição (PrEP).

A PEP, também conhecida por “coquetel do dia seguinte”, consiste no uso de antirretrovirais pela pessoa exposta ao HIV em até 72 horas após o possível contato com o vírus. Já usada há vários anos em casos de violência sexual e por profissionais de saúde que tenham se acidentado com sangue contaminado, essa forma de prevenção passou a ser indicada desde 2013 pelo Ministério da Saúde para a população em geral, ficando, no entanto, a cargo do médico avaliar caso a caso.

Paciente de Berlim

O norte-americano residente na Alemanha Timothy Ray Brown, também conhecido como paciente de Berlim, foi submetido a um transplante de medula em 2007.

O doador foi escolhido não apenas pela compatibilidade genética, mas também por ser incapaz de produzir a proteína CCR5, fundamental para que o HIV se replique. Então, veio a surpresa dos médicos: três anos depois do transplante, além de ter se curado do câncer, Timothy livrou-se do vírus da aids.

Desde então, ele está sem antirretrovirais e nunca mais foi detectado com o vírus. Timothy é considerado o primeiro caso de cura da aids. No entanto, esse tipo de transplante é muito complicado e apresenta altas taxas de mortalidade. Essa medida ainda não pode usada em larga escala, mas impulsionou vários estudos na área.

Já a PrEP prevê o uso de antirretrovirais por pessoas não infectadas, mas que estão em situação de grande vulnerabilidade, como é o caso de alguns homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e parceiros sexuais de pessoas infectadas. Esses medicamentos criam uma proteção à infecção pelo vírus enquanto estão sendo usados.

Nos últimos anos foi comprovado ainda que as pessoas em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável têm menos chance de transmitir o HIV numa eventual relação sexual desprotegida.

Para todos esses métodos que incluem medicamentos, no entanto, a eficácia depende do uso regular e bem indicado, explica Esper. Mesmo assim, o médico acredita que eles podem ser considerados inovadores porque diversificam as possibilidades de proteção e ajudam a criar uma boa relação entre pacientes e serviços de saúde. “Ao ir pegar o remédio, eles também fazem o teste, checam se possuem outras doenças sexualmente transmissíveis, recebem orientações e camisinhas. Com isso, percebemos que muitos tendem a desenvolver comportamentos mais seguros”, conta.

Independentemente dos avanços científicos, Esper ressalta que não “devemos baixar a guarda da prevenção” e lembra que o preservativo continua sendo o melhor produto em relação à eficácia, preço e efeitos colaterais.

Os antirretrovirais contribuíram para que melhorasse muito a qualidade de vida das pessoas infectadas, mas vários deles ainda provocam efeitos adversos relevantes, como a lipodistrofia. Esse problema decorrente dos remédios e do próprio vírus causa alteração na distribuição de gordura do organismo com concentrações na barriga, costas, pescoço e nuca e perda de gordura nos braços, pernas, nádegas e face.

No Brasil, os medicamentos antirretrovirais e os atendimentos médicos completos contra a aids são oferecidos gratuitamente pelo governo desde 1996, o que fez o país se tornar referência mundial na área. Pacientes que utilizam a rede privada de saúde, no entanto, podem retirar o coquetel antiaids no Sistema Único de Saúde (SUS) e fazer o acompanhamento no centro de saúde de sua preferência, como o Sírio-Libanês.

De acordo o Ministério da Saúde, 353 mil pessoas estavam em tratamento antirretroviral no país em 2013. A estimativa é de que 0,4% da população brasileira viva com HIV, o que corresponde a cerca de 800 mil pessoas, sendo que aproximadamente 123 mil desconhecem sua situação. Em busca dessas pessoas, o governo tem estimulado a testagem para o HIV, que também é gratuita e oferecida em vários postos do SUS.