Dieta cetogênica deve ser realizada apenas com indicação médica para evitar riscos à saúde

Oncologia; Obesidade e Transtornos Alimentares
Fonte: Danile Leal Barreto Sampaio, nutricionista clínica no Hospital Sírio-Libanês
Publicado em 16/08/2017

A dieta cetogênica, que simula no organismo um estado de jejum, funciona colocando o corpo para gerar energia por meio da gordura, em vez de usar carboidratos. De modo genérico, consiste em eliminar todos os alimentos ricos em carboidratos, como pães e arroz, e aumentar o consumo de proteínas e gorduras.

Essa dieta existe desde a década de 1920, quando foi desenvolvida nos Estados Unidos para ser empregada no tratamento da epilepsia refratária em crianças, ou seja, nos casos de difícil tratamento da doença, a fim de diminuir a ocorrência de convulsões. Entretanto, caiu em desuso com a descoberta de novos fármacos anticonvulsivantes nos anos 1940.

Segundo a nutricionista clínica Danile Leal Barreto Sampaio, do Hospital Sírio-Libanês, é consenso entre diversas equipes de especialistas o uso da dieta cetogênica como alternativa para o tratamento da epilepsia. “Para estes pacientes, ela pode contribuir para o controle parcial ou total das crises”, afirma.

Na dieta cetogênica, os lipídios são metabolizados pelo fígado e sua oxidação gera os corpos cetônicos, que devido à falta de carboidratos são utilizados pelo organismo como fonte de energia. Como há excesso de lipídios, ocorre um aumento na produção dos corpos cetônicos e, consequentemente, cetose. Esses corpos cetônicos passam a ser o principal “alimento” do cérebro, em vez da glicose, contribuindo para o tratamento das crises de epilepsia.

Muito se tem comentado sobre o uso dessa dieta por pacientes com câncer, mas ainda não existe nenhuma comprovação de que ela possa trazer benefícios a eles. Segundo Danile, no caso da epilepsia, relatos na literatura médica indicam que de 40% a 50% das crianças com a doença podem ter mais de 50% de redução das crises, o que favorece a melhora do estado cognitivo (processo de aquisição do conhecimento) e do desenvolvimento neuropsicomotor. “Quanto ao seu uso em pacientes oncológicos, existem poucos estudos publicados a respeito, e todos são inconclusivos. Não há evidência científica que fundamente a aplicação da dieta cetogênica nesse grupo de pacientes”, explica.

Segundo ela, o carboidrato é um nutriente fundamental para o funcionamento do organismo, principalmente para pacientes oncológicos, que apresentam maior risco de desnutrição, associada à própria doença e ao tratamento. “Dessa forma, é recomendada uma dieta saudável, equilibrada, com quantidade adequada de carboidratos, proteínas, lipídios, vitaminas e minerais, para evitar a desnutrição, favorecendo assim uma melhor tolerância ao tratamento do câncer”, alerta.

Importância do acompanhamento nutricional para pacientes oncológicos

Todo paciente com câncer, em tratamento quimioterápico, radioterápico ou que foi submetido a cirurgias de grande porte, deve ser acompanhado por um nutricionista para uma orientação correta quanto à dieta mais adequada a seu caso. “Essa dieta deve ser equilibrada, respeitando-se as limitações, os hábitos e as preferências do paciente. Existe uma série de tratamentos contra o câncer e cada um deles pode provocar efeitos colaterais diferentes, como diarreia, náuseas, vômitos, mucosite (inflamação das mucosas da boca — bochecha, lábios, gengiva), entre outros”, explica Danile.

O atendimento nutricional deve ser individualizado e focado no controle desses sintomas, favorecendo a alimentação e a nutrição. Em alguns casos, é necessário o uso de suplementos nutricionais e de receitas diferenciadas para estimular o consumo dos alimentos. “Em todos os casos, a dieta deve ser composta por uma alimentação saudável, com quantidade adequada de macro e micronutrientes”, afirma a nutricionista.

Riscos da dieta cetogênica

A dieta cetogênica clássica é composta por 90% de lipídios, ou seja, alimentos importantes para os seres vivos e que funcionam como reserva energética, como óleos e gorduras; e 10% de carboidratos e proteínas. Por ser uma dieta desequilibrada do ponto de vista nutricional, não é recomendado que o paciente faça uso dela por mais de três anos, sendo imprescindível também o acompanhamento especializado com equipe multidisciplinar para monitoramento clínico e laboratorial.

Para Danile, o uso da dieta cetogênica sem indicação médica, de maneira indiscriminada e sem acompanhamento por equipe multidisciplinar especializada, pode trazer sérios riscos à saúde. A curto prazo, ela pode levar à desidratação, à hipoglicemia (diminuição da quantidade normal de açúcar no sangue), a vômitos e à diarreia. “A médio e longo prazos, podem ocorrer dislipidemia (excesso de gordura no sangue), esteatose hepática (acúmulo de gordura nas células do fígado, o que pode levar à cirrose), cálculo renal e alterações metabólicas, como elevação de ácido úrico e hipocalcemia (falta de cálcio no sangue)”, alerta.