Transtornos alimentares: o que são e como identificá-los ?

Publicado em 07/10/2016

Vivemos em uma época visual, em um mundo repleto de imagens, com informações diversas que são enviadas ao nosso cérebro a todos os instantes. O que se ganha em agilidade no entendimento de questões nem sempre fáceis ou na identificação de signos e mensagens, também interfere em como lidamos com o nosso corpo.

Os padrões apresentados constantemente na televisão, revistas, tendem a serem reproduzidos na vida real, gerando em muitos uma busca para ter os mesmos padrões estéticos.

Isso pode causar distorções em relação à própria imagem, levando a transtornos alimentares, como anorexia, bulimia, transtorno obsessivo compulsivo por alimentos, entre outros.

"Transtorno alimentar é um padrão de comportamentos alimentares disfuncionais prejudiciais ao sujeito", explica Maristela Temer, coordenadora do Serviço de Psicologia da UTI Cardiológica do Hospital Sírio-Libanês.

Diversos órgãos referências em saúde e padrão comportamental designam uma lista de transtornos alimentares, sendo os mais conhecidos a anorexia e a bulimia. "É importante marcar que a obesidade não é considerada um transtorno alimentar", destaca a especialista.

Muitas vezes considerados tabus na sociedade, falar e, sobretudo, entender o que são essas doenças, origens, consequências e como tratá-las é importante para ajudar quem está nessa situação. Como qualquer enfermidade, quanto antes identificada e cuidada, menores os riscos e maiores as chances de tratamento.

Maristela explica um pouco mais sobre os transtornos alimentares, suas origens, consequências e tratamentos:

Coração & Vida: Hoje há mais casos de transtornos alimentares ou antes eles não eram relatados ou não chegavam ao consultório?

Maristela Temer – A definição do normal e do patológico é dada a partir do contexto sócio cultural. Os transtornos alimentares existem desde sempre. Entre os séculos V e XVI, temos as primeiras descrições das chamadas jovens jejuadoras consideradas santas ou milagrosas por conseguirem sobreviver ao estado de inanição prolongado. Na Itália do século XIV tivemos a anorexia santa como reação às imposições da época, os casamentos arranjados. Depois disto, o jejum foi visto como ato demoníaco, heresia ou insanidade. Atualmente, são as anoréxicas. O que muda, não é a patologia, e sim nosso olhar sobre ela.

C&V – Uma maior exposição nas redes sociais e um novo padrão estético podem favorecer que jovens desenvolvam disfunções alimentares?

MT – Sempre digo que não adianta jogar a âncora, é necessário que ela enganche. Esta é uma boa metáfora para esta questão. A exigência social e de um padrão estético está para todos da mesma forma. Alguns morrerão em nome disto, mas a maioria não.

A exposição, as redes sociais e modelos muito magras são ancoras, que precisam encontrar no indivíduo um terreno psíquico propício para ancorar. Uma adolescente muito exigente com ela mesma, por exemplo, é um terreno propício, assim como adolescentes excessivamente dependentes das figuras parentais.

C&V – Há um perfil, ou faixa etária, mais suscetível?

MT – A adolescência é sempre um momento de angústia. Hormônios e corpos em ebulição. Além disso, é uma passagem que pressupõe romper, em alguma medida, com a família. É encontrar a própria identidade. E o transtorno alimentar fala, sobretudo, da questão da identidade. Quem eu era, quem sou, quem me tornarei. Onde termina eu e começa o outro, e isso é concreto. É o contorno corporal.

As mudanças físicas da adolescência facilitam as distorções de imagem corporal. Como o adolescente não se identifica com o seu novo corpo, pode facilmente ficar com uma percepção confusa sobre ele. O que encontramos sempre nestes casos é a junção de três fatores para que o quadro psicopatológico ocorra: predisponentes, precipitantes e perpetuantes.

C&V – Como a doença é detectada?

MT – Minha sugestão é: fique atenta aos hábitos alimentares dos seus filhos, qualquer alteração significativa, vale uma conversa.

Restrição alimentar excessiva, rápida perda de peso, dietas radicais seguidas de períodos compulsivos, infecção recorrente de garganta, correr para o banheiro após as refeições, são vários os sinais de que algo não vai bem.

Muitas vezes, quem chama a atenção dos cuidadores é o dentista ou o médico da família.

C&V – Quais os tratamentos para esses transtornos?

MT – O ideal é que este paciente seja tratado por uma equipe multidisciplinar, composta por médicos de diferentes especialidades: psiquiatra, pois na maioria das vezes é indicado o uso de medicação, psicólogo e nutricionista.

Alguns pacientes podem receber cuidados ambulatoriais, mas casos mais graves pedem internação e alimentação parenteral. Em ambos os casos, os objetivos são restabelecer o peso, normalizar os padrões alimentares, adquirir uma percepção normal de fome e de saciedade e corrigir sequelas biológicas e psicológicas da desnutrição.

C&V – Ignorar os sintomas do transtorno e não buscar ajuda pode ser fatal para o paciente?

MT – Sim, pode levar à morte, e não apenas a anorexia, como muitas pessoas pensam. A bulimia tem um índice alto de mortalidade. Além das mortes bulímicas por parada cardíaca – o coração para, por causa do choque constante entre sódio e potássio no organismo, os bulímicos possuem tendências impulsivas que podem levar a vários comportamentos suicidas.

C&V – Uma pessoa pode viver com um distúrbio alimentar sem que ninguém perceba?

MT – Sou uma psicóloga otimista, acredito que um transtorno alimentar é sempre um pedido de socorro. Uma tentativa de salvar-se. Uma comunicação do tipo: "está insuportável para mim, por favor, me ajude".

Por esta razão, e por minha experiência clínica, vejo que o paciente quer ser descoberto. Ele envia sinais, em alguns casos mais claramente e em outros de forma sutil, mas sempre deixa uma "dica". A questão é o tempo que os familiares levarão para "ler a dica".

C&V – Será necessário sempre um controle ou há cura definitiva?

MT – Se cura significa conviver e for produtivo socialmente, sim. Cada ser no mundo tem suas marcas, e temos que estar sempre atentos, pois, psiquicamente, nossa tendência é a repetição. Ainda que transformado o sintoma, aquele é um lugar psíquico para sempre mais sensível. Como uma pele ferida que fechou, mas que se mantem diferente.

Por esta razão, é importante que este perfil de pacientes encontre, seja na meditação, no exercício físico ou em um acompanhamento psicoterápico, uma forma de permanecer em contato com ele mesmo.


Fonte: coracaoevida.com.br

Assunto(s): Bem-estar; Notícias; Saúde
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