Técnica reduz de 40 para 5 sessões de radioterapia contra câncer de próstata

Publicado em 19/07/2018

No ultra hipofracionamento são utilizadas altas doses de radiação sobre o tumor, o que permite menos aplicações; a abordagem, indicada para casos diagnosticados como de risco baixo ou intermediário, se tornou tendência em vários países

Uma nova técnica tem permitido reduzir o número de sessões de radioterapia contra o câncer de próstata. Para a doença, geralmente são previstas 40 sessões. Com o tratamento chamado de hipofracionamento moderado, chegou-se a 20. Agora, surgem no País as primeiras iniciativas de radioterapia ultra hipofracionada contra esse tipo de tumor, que reduz o número de sessões para cinco.

Nesse formato, são aplicadas altas doses de radiação sobre o tumor, o que permite menos aplicações. A abordagem, também conhecida como hipofracionamento extremo ou SBRT, já é adotada contra alguns tipos de câncer, como o de pulmão. Mas é nova quando se trata do de próstata segundo mais prevalente entre os homens. Estima-se que, neste ano, serão 68.220 novos casos da doença.

A opção começou a ser oferecida nos últimos meses no Hospital Sírio-Libanês e no Mãe de Deus, em Porto Alegre. Já no A. C. Camargo Câncer Center, os dois primeiros casos de SBRT foram feitos este mês. "Os benefícios são menor tempo de tratamento, menos transtorno com deslocamento e, muito provavelmente, melhora do índice de controle bioquímico da doença", afirma Antônio Cássio Pelizzon, líder da equipe de radioterapia do A. C. Camargo.

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, também se prepara para aderir ao hipofracionamento extremo para o câncer de próstata, após a instalação de um equipamento inédito no País, o acelerador linear Halcyon. Além de permitir menos sessões, toma cada sessão mais rápida cai de 25 minutos para oito. "Em vez de tratar quatro pacientes por hora, posso tratar seis. Isso amplia o acesso, agrega valor e reduz o custo da inovação", diz Rodrigo Hanriot, coordenador de radioterapia do hospital.

Por enquanto, o hipofracionamento extremo é indicado para tumores restritos à próstata, de risco baixo ou intermediário. Pacientes com problemas crônicos no trato urinário não são bons candidatos estudos mostram que, especialmente nesse grupo, pode haver efeitos colaterais (como ardor e aumento da frequência urinária), diz Andréa Barleze da Costa, gestora de Radioterapia do Mãe de Deus.

O hipofracionamento moderado ganhou força após dez estudos clínicos de fase 3 (alto nível de evidência), conduzidos em grandes centros de pesquisa, demonstrarem que a técnica é tão eficaz quanto a convencional. Para Arthur Accioly Rosa, da Sociedade Brasileira de Radioterapia, o modelo é uma mudança de paradigma.

Eficiente, a técnica se tornou tendência em vários países. Mas, como diz Elton Leite, do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), a popularização no País envolve questões ligadas a equipamentos e modelos de remuneração. Para aplicar altas doses de radiação com segurança, é preciso tecnologia que permita monitorar a localização precisa do tumor.

Uma opção é o IGRT (radioterapia guiada por imagem), pouco disponível no Brasil e sem ressarcimento pelo SUS e pelas operadoras. Outra é o Calypso, recém-instalado pelo Sírio, que trabalha com emissão de sinais dispositivos implantados na próstata avisam (25 vezes por segundo) se está no alvo e, diante de um desvio, a radiação é interrompida.

De modo geral, a radioterapia no País é paga conforme o total de sessões se há menos, o valor cai. "É um verdadeiro paradoxo", diz João Luís Fernandes da Silva, do Departamento de Radioterapia do Sírio. Por isso, hospitais têm negociado pacotes com operadoras para todo o tratamento.

Jornada. Quando José Nei Garcez, de 80 anos, descobriu que tinha câncer de próstata, em março de 2017, iniciou uma jornada em busca de tratamento. Morador de Dom Pedrito (RS), na fronteira com o Uruguai, passou por médicos de outras duas cidades antes de ser indicado para o hipofracionamento extremo no Hospital Mãe de Deus. Após uma semana, voltou para casa. "Se fossem muitos dias, era capaz de adoecer mais. Estava com saudade de casa, dos filhos", diz.

"O tratamento em menos tempo foi grande vantagem para o aspecto emocional", conta a filha Clarisse, de 41 anos. Ele, que faz tratamento hormonal a cada três meses, diz não sentir efeito colateral. "Hoje me sinto ótimo. Foi um sucesso.".

GPS PARA O CORPO

Graças a recursos que tornam procedimento mais preciso, é possível elevar a dose e reduzir o número de sessões de 40 para cinco; abordagem será tema de congresso em agosto

Para monitorar a posição da próstata com precisão:

  1. Dispositivos chamados "Transponders" são colocados na próstata, junto às células tu morais, que enviam, cada um, 25 sinais por segundo
  2. Esses sinais são identificados por uma placa com nove receptores, e uma imagem é gerada para checara localização do alvo
  3. O sistema permite monitorar a localização do tumor em tempo real. Se houver algum movimento, a radiação é interrompida

Tratamento convencional

Conta com cerca de 40 sessões realizadas diariamente (em dias úteis)

A radiação é planejada com base em um exame de tomografia, feito na etapa de planejamento do tratamento

Hipofracionamento

Moderado: 20 sessões

Extremo: 5 sessões

Isso é possível graças à aplicação de doses mais altas de radiação. Para garantir a segurança, é fundamental dispor, na hora da sessão, de informações sobre a localização exata do alvo

FONTE: SOCIEDADE BRASILEIRA DE RADIOTERAPIA. INCA. HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS, ANDRÉA BARLEZE DA COSTA. GESTORA DA UNIDADE DE RADIOTERAPIA DO HOSPITAL DO CÂNCER MÂE DE DEUS INFOGRÁFICO/ESTADÃO

Summit será em 17 de agosto em São Paulo

Com 35 palestrantes, brasileiros e estrangeiros, o Summit Saúde Brasil será realizado pelo terceiro ano consecutivo pelo Estado, no dia 17 de agosto, em São Paulo, no Sheraton WTC (Avenida das Nações 12.551, Brooklin N ovo). Serão apresentados e debatidos os principais avanços no setor, seja em gestão, seja em tecnologia.

Pela manhã, Clay Johnston, da Universidade do Texas (EUA), mostrará como a inovação torna possível cortar custos no sistema de saúde sem comprometer a qualidade do serviço. Reitor da Dell Medicai School, Johnston busca promover novo modelo acadêmico para a Medicina. Especialistas como Vivien Navarro Rosso, CEO do A. C. Camargo Câncer Center, e Sidney Klajner, eleito o executivo mais influente da saúde em 2018, também vão abordar essa questão em um painel sobre a sustentabilidade do sistema, com exemplos de medidas voltadas à otimização de processos e recursos.

À tarde, uma série de painéis vai contemplar, entre outros temas, os desafios na saúde suplementar, novos surtos de doenças antigas e oferta de medicamentos inovadores de alto custo. Aprogramaçãopode ser conferida em estadaosummitsaude.com.br . Os ingressos já estão à venda no site, com descontos para compras antecipadas e assinantes do Estado. O evento conta com patrocínio de Amil, Associação Nacional das Administradoras de Benefícios (Anab) e Hospital Leforte.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Assunto(s): Boletim Médico; Saúde; Notícias; Pesquisa; Tecnologia
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