Reumatologia

​​​​​​Lupus Eritematoso Sistêmico

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES ou apenas lúpus) é uma doença inflamatória crônica, autoimune (desequilíbrio dos mecanismos de defesa do organismo), cujos sintomas podem surgir em diversos órgãos de forma lenta e progressiva (em meses) ou mais rapidamente (em semanas) e que variam com fases de atividade e de remissão. São reconhecidos dois tipos principais de lúpus: o cutâneo, que se manifesta apenas com manchas na pele (geralmente avermelhadas ou eritematosas e daí o nome lúpus eritematoso), principalmente nas áreas que ficam expostas à luz solar (rosto, orelhas, pescoço e nos braços) e o sistêmico, no qual um ou mais órgãos internos são acometidos. Por ser uma doença do sistema imunológico (responsável pela defesa do organismo através da produção de anticorpos), há um desequilíbrio dessa defesa com produção de anticorpos que, ao invés de defender, passam a atacar (autoanticorpos) vários órgãos e tecidos, levando àinflamação de um ou vários locais do organismo. Logo, no LES, podem ocorrer diferentes sintomas de acordo com essa localização.

A doença, embora acometa principalmente mulheres na idade reprodutiva (10 mulheres : 1 homem), pode ocorrer também em crianças e nos idosos em proporções menores (3 mulheres : 1 homem) . O prognóstico melhorou muito nas últimas décadas decorrente de um diagnóstico mais precoce e de tratamento mais adequado tanto para a doença como para as condições associadas à mesma. A sobrevida em 20 anos chega a 90%. As principais causas de óbito são infecções, doença cardiocirculatória e atividade da doença, nessa ordem.

O diagnóstico da doença é baseado no quadro clínico das manifestações típicas aliadas ao aumento de ácido úrico no sangue, embora alguns pacientes possam ter valor normal na crise aguda. Nestes casos, a punção do liquido sinovial para afastar infecções e comprovar a presença de cristais de ácido úrico se faz necessária.

Os sintomas do LES são diversos e, tipicamente, variam em intensidade de acordo com a fase de atividade ou remissão da doença. É muito comum que, no início, a pessoa apresente manifestações gerais como cansaço, fadiga, febre baixa (embora raramente possa ser alta), emagrecimento e perda de apetite. Os sintomas são decorrentes da inflamação na pele, articulações (juntas), rins, nervos, cérebro e membranas que recobrem o pulmão (pleura) e o coração (pericárdio). Outras manifestações podem ocorrer com a diminuição das células do sangue (glóbulos vermelhos e brancos), devido a anticorpos contra essas células. Esses sintomas podem surgir isoladamente, ou em conjunto; ao mesmo tempo ou de forma sequencial. Crianças, adolescentes ou mesmo adultos podem apresentar inchaço dos gânglios (ínguas), que geralmente são acompanhados por febre e podem ser confundidos com os sintomas de infecções como a rubéola ou mononucleose.

Quanto mais cedo for diagnosticado o LES, melhor é a sua evolução. Dependendo dos órgãos envolvidos, o tratamento pode ser mais ou menos agressivo. O acompanhamento com o reumatologista é fundamental para um controle adequado da doença.

Embora não tenha cura, o LES bem tratado leva o paciente a ter uma vida normal, com poucos ou mesmo nenhum medicamento, fazendo algumas restrições e mantendo acompanhamento médico regular. O tratamento do paciente com LES depende do tipo de manifestação apresentada e deve, portanto, ser individualizado. Os sintomas mais leves podem ser tratados com analgésicos, anti-inflamatórios e/ou doses baixas dos corticóides (prednisona - 5 a 20 mg/dia). Na vigência de manifestações mais graves do LES, as doses dos corticóides podem ser bem mais elevadas (prednisona - 60 a 80 mg/ dia). Geralmente, quando há envolvimento dos rins, do sistema nervoso, pulmões ou vasculite é necessário o emprego drogas imunossupressoras, em doses variáveis, de acordo com a gravidade do acometimento. Um aspecto importante no uso desses medicamentos é a atenção necessária quanto ao risco aumentado de infecções, já que eles diminuem a capacidade do indivíduo de se defender contra infecções, incluindo a tuberculose. Em pacientes com LES grave, com rápida evolução, utilizam-se altas doses de glicocorticóide por via endovenosa. A medicação hidroxicloroquina está indicada tanto para as formas mais leves quanto nas mais graves e deve ser mantida mesmo que a doença esteja fora de atividade (remissão), pois auxilia na manutenção do controle do LES. Nos últimos anos, novos medicamentos estão sendo estudados para um melhor controle da doença. Embora, ainda, poucos sejam aprovados no LES, alguns já são utilizados na prática médica. Há excelentes perspectivas de avanços no tratamento em futuro próximo.

Muito importante é a orientação e/ou tratamento de condições que podem estar associadas à doença, como hipertensão arterial, diabetes, hiperlipidemia, fumo, sedentarismo e exposição solar. Todas essas condições, não raro, acompanham a doença e devem ser controladas e/ou prevenidas. Reforçando, o reumatologista é o especialista que trata o lúpus e pode alterar, de modo positivo, a evolução da doença, mantendo o paciente em remissão, com melhora da sobrevida e, muito importante, da sua qualidade de vida.

Dr Luiz Carlos Latorre - CREMESP: 33.607

Membro do Núcleo Avançado de Reumatologia( NARe) do Hospital Sírio Libanês

 


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