Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

VEJA.COM/SÃO PAULO
Data Veiculação: 31/01/2020 às 07h00

O que é a nova cepa do coronavírus identificada na China? O 2019-nCoV, eis sua identificação científica, faz parte do grupo coronavírus, que pode infectar tanto animais quanto seres humanos. Recebe esse nome porque tem em sua membrana — vista por meio de microscópios — uma silhueta que se assemelha à coroa (corona) do sol.

Quais são os sintomas?

Os mais prevalentes são febre, tosse e falta de ar. Alguns pacientes apresentam coriza e diarreia. Casos graves podem evoluir para pneumonia, síndrome respiratória aguda grave e insuficiência renal. Ressalte-se, contudo, que são ocorrências comuns a diversas enfermidades — daí a importância de sempre procurar orientação médica.

Como ele é transmitido?

Pelo contato com gotículas de secreção liberadas quando o paciente espirra ou tosse. Dados iniciais mostram que cada indivíduo infectado transmite o vírus para, em média, 2,6 pessoas. A taxa é semelhante à do H1N1, da família da gripe influenza, e bem mais baixa que a do sarampo. Só em raros casos pode haver transmissão do coronavírus de animais para humanos — é o que se supõe ter ocorrido na China, agora.

Qual é o período de incubação?

Estima-se que o tempo entre a exposição ao vírus e o início dos sintomas varie de dois a catorze dias.

Quais são as semelhanças e as diferenças em relação a outros vírus?

O 2019-nCoV é da mesma família do vírus da síndrome respiratória aguda grave (Sars) e da síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers), e tem semelhanças, como sintomas e formas de transmissão, também com o H1N1. A letalidade do novo vírus parece ser bem menor que a de seus familiares. Mas há um porém: enquanto os vírus da Sars e Mers são transmitidos apenas quando os sintomas estão ativos, há indícios de que o 2019-nCoV possa ser passado por pessoas assintomáticas.

Quais são os riscos de o vírus se alastrar no Brasil?

Segundo especialistas, o risco existe, embora reduzido, já que a China é um relevante parceiro comercial do Brasil e há um alto fluxo de pessoas entre os dois países. A identificação precoce, em eventuais casos positivos, é meio caminho andado para o tratamento.

É grave?

Cerca de 25% dos casos confirmados foram classificados como severos. A taxa de mortalidade é de 2,1%, considerada média. É semelhante à da gripe espanhola (2%), mas inferior à da Sars (10%) e da Mers (40%) e superior à do H1N1 (0,1%). Grupos de risco, como idosos, crianças e pessoas com problemas de saúde, têm maior probabilidade de apresentar complicações. Como é o tratamento? Não há, ainda, um medicamento específico. O tratamento consiste na administração de remédios para alívio dos sintomas e no suporte de terapia intensiva em casos mais graves.

Há vacina?

Ainda não, mas a expectativa entre os pesquisadores é que ela seja desenvolvida em até três meses — e estará disponível antes mesmo de um remédio específico para combater os sintomas do coronavírus. Diversos antivirais, como o remdesivir e remédios contra o HIV, estão sendo testados no combate ao novo vírus, mas é cedo para dizer se algum deles será eficaz.

Como deve proceder, do ponto de vista de precaução, quem estiver em regiões onde já foram confirmados casos de contaminação?

A pessoa deve evitar contato próximo com quem apresentar sintomas de infecção respiratória; lavar frequentemente as mãos com água e sabão; praticar a chamada “etiqueta da tosse” (manter distância ao tossir ou espirrar, usar um tecido para proteger a boca e o nariz e lavar as mãos em seguida). Na China, recomenda-se não ir a mercados que tenham animais vivos nem visitar porções rurais do país.

O que fazer em caso de retorno recente — trinta dias ou menos — de viagem à China?

A recomendação é procurar imediatamente um serviço de saúde se houver sintomas como febre e problemas respiratórios. Pessoas que retornaram há mais de quinze dias e não apresentaram sintomas não precisam se preocupar.

Devo me preocupar se visitei outros países com casos já confirmados?

Não há motivo para preocupação. Até o momento, só há circulação do vírus na China.

Se importei um produto chinês, corro risco?

Não. O vírus é transmitido pelo contato com secreções e não sobrevive muito tempo fora do corpo humano.

Tenho viagem marcada para a China. Posso ir?

O Ministério da Saúde sugere adiar as viagens à China. Mas não há proibição. Fontes: Ministério da Saúde; Carlos Starling, infectologista, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia; Mirian Dal Ben, infectologista do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo

Fonte: https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-14-respostas-sobre-a-ameaca-chinesa/

MSN Brasil
Data Veiculação: 31/01/2020 às 00h00

Há um século, um vírus se alastrou pelo planeta, infectando cerca de 500 milhões de pessoas, o equivalente a um terço da população mundial. Estima-se que, entre 1918 e 1920, 50 milhões tenham morrido por causa da gripe espanhola, mais do que os 17 milhões de vítimas, entre civis e militares, da 1ª Guerra Mundial. Esse episódio histórico devastador volta à mente ainda hoje quando surgem novos surtos, como o atual causado por um coronavírus — e houve muitos desde o início do século passado. Entre os mais recentes, estão os de ebola, que infectou 30 mil pessoas e matou 11 mil na África, entre 2014 e 2016; de gripe suína, que atingiu mais de 200 países desde 2009 e fez 200 mil vítimas; e também os de gripe aviária registradas desde o fim dos anos 1990.

Com a eclosão de uma nova epidemia causada por um micro-organismo até então desconhecido, como o 2019-nCov, como é oficialmente chamado o coronavírus identificado em dezembro na China, muitas pessoas olham para o passado na tentativa de encontrar respostas sobre o que o futuro nos reserva. No entanto, infectologistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem ser difícil comparar a atual epidemia com outras anteriores — e até mesmo com as duas causadas por outros coronavírus na última década.

"A gripe espanhola ocorreu em uma época em que não tínhamos as medidas de proteção e antibióticos para tratar complicações pulmonares que temos hoje. É complicado comparar até mesmo com a gripe suína, que foi a grande pandemia [epidemia em escala global] dos últimos 30 anos, porque o vírus é outro", diz Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 'Coronavírus nunca causou pandemia' Gripes são doenças respiratórias causadas por vírus do tipo influenza e geram sintomas mais fortes do que os de um resfriado, que também é uma doença respiratória, mas provocada por outros vírus, como rinovírus e também coronavírus. "O vírus influenza causou várias pandemias históricas, mas ele tem como característica uma capacidade muito grande de sofrer mutações e de gerar epidemias, algo que não acontece com o coronavírus", diz João Renato Rebello Pinho, médico patologista e chefe do laboratório de técnicas especiais do Hospital Albert Einstein. Os coronavírus são uma família de vírus conhecida desde os anos 1960 e que circula entre animais. Destes vírus, sabe-se que sete são capazes de saltar a barreira entre espécies e contaminar pessoas. Eles podem causar desde um resfriado comum até problemas respiratórios graves que podem levar à morte. Pinho diz que o novo coronavírus vem sendo descrito como resultado de uma recombinação genética entre um coronavírus presente em morcegos e outro presente em répteis que gerou uma nova variante capaz de infectar humanos. "Mas isso é bem raro de acontecer", afirma.

E um coronavírus nunca causou uma pandemia, diz Kleber Luz, professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "Quem provoca isso são os vírus influenza, porque geram muitos sintomas, como secreções, e são muito infectantes, têm uma grande capacidade de disseminação. Se ele se espalha por uma população que não estiver vacinada, 90% das pessoas vão pegar", diz Luz. OMS decretou situação de emergência Até o momento, há 8,1 mil casos do novo coronavírus em 20 países, com apenas 82 fora da China. Houve mais de 210 mortes, todas na China. Isso levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a decretar uma situação de emergência de saúde pública de interesse internacional ao anunciar que se trata de um "surto sem precedentes". Na última década, este tipo de situação foi declarada apenas cinco vezes, segundo a agência Reuters: em 2009, por ocasião do vírus H1N1 que causou epidemia de gripe; em 2014, nas epidemias de ebola no oeste da África e de pólio; em 2016, com a epidemia de zika no Brasil; e em 2019, com a epidemia (ainda em curso) de ebola na República Democrática do Congo. "Não sabemos o tipo de dano que esse vírus pode causar se ele se espalhar em um país com um sistema de saúde mais frágil", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Os coronavírus já estiveram por trás dois surtos de doenças desde o início deste século. A Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês) matou 774 das 8.098 pessoas infectadas em 2002. A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês) levou à morte 858 dos 2.494 pacientes identificados desde 2012, principalmente nesta região do mundo. Assim, o número de casos confirmados do novo coronavírus já é três vezes maior do que os do vírus da Mers e superou o total de infecções registradas pelo vírus da Sars. Transmissibilidade e letalidade ainda são incertos Isso pode ser atribuído em parte ao grau de transmissibilidade dos vírus, ou seja, para quantas pessoas um paciente infectado pode transmiti-lo. Dados da OMS apontam que o vírus da Mers tem uma transmissibilidade menor do que 1, enquanto o da Sars varia entre 2 e 4.

Até o momento, essa taxa é estimada em 2 a 5 para o novo coronavírus. No entanto, especialistas apontam que a epidemia de Mers ocorreu sobretudo na Península Arábica, uma região com uma densidade populacional bem menor do que a da Ásia. "Isso contribuiu para que houvesse menos casos do que agora e com a Sars, que ocorreram onde há a maior densidade populacional do mundo. Por isso acho precoce atribuir o número de casos à capacidade de transmissão do novo coronavírus", diz Pinho. Há diferenças inclusive em relação à epidemia de Sars, que também começou na China. "Este surto é distinto porque eclodiu em Wuhan, uma metrópole de 11 milhões de habitantes, enquanto o de Sars começou em cidades menores", afirma Venâncio, da Fiocruz. Além disso, passaram-se quase oito anos desde a epidemia de Mers e 17 anos desde a epidemia de Sars, e, neste tempo, novas tecnologias foram desenvolvidas para diagnosticar a infecção por um vírus com mais eficiência e rapidez. "Hoje, com a biotecnologia, rapidamente temos as ferramentas para confirmar casos. Com os surtos anteriores de coronavírus, os laboratórios não tinham como fazer isso tão rápido.

Muitos casos permaneciam como suspeitas. E, claro, neste tempo, também aumentou a população mundial e a circulação de pessoas", afirma Luz, da UFRN. Por fim, infectologistas são unânimes em apontar outro motivo pelo qual é difícil comparar o atual surto com outros do passado: ainda é cedo. Faz apenas um mês que o novo coronavírus foi identificado, e suas características identificadas são provisórias. "Há dois aspectos fundamentais que ainda faltam ser confirmados: sua transmissibilidade e qual é sua real taxa de letalidade", diz David Uip, infectologista do Hospital Sírio Libanês e ex-secretário estadual de saúde de São Paulo.

Por enquanto, a taxa de vítimas fatais do novo coronavírus é estimada em 2%, bem abaixo dos índices registrados nas epidemias de Mers (35%) e Sars (10%). Uip diz que esta taxa vem sendo calculada com base nos casos de pacientes que apresentaram sintomas, e ainda não se sabe ao certo quanto seriam os casos assintomáticos. "Os dados ainda são muito incipientes para definir as características deste vírus e comparar com o que já aconteceu no passado", afirma o infectologista. "Não podemos nos precipitar. É preciso ter cuidado e trabalhar com muita transparência e exatidão. Já passei por muitas epidemias para saber que cometer exageros gera pânico e uma corrida para os serviços de saúde que os desestabiliza." Benedito Antonio Lopes da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, afirma que, por enquanto, o novo coronavírus parece ser mais "mais transmissível e menos letal" do que os anteriores. "Mesmo em respeito a isso, o que foi divulgado até agora aponta que a maioria dos casos graves e mortes são de pessoas que tem algum problema de imunidade, mas não existe um estudo de caso que defina todos os fatores de risco associados", diz o infectologista. Fonseca avalia que, diante de uma população como a da China, de 1,4 bilhões de habitantes, o número de casos confirmados ainda pode ser considerado pequeno e recomenda cautela. "Não podemos passar a imagem que se trata de uma doença avassaladora para a humanidade. Com base no que vimos até agora, isso não é verdade."

Fonte: https://www.msn.com/pt-br/news/mundo/por-que-c3-a9-dif-c3-adcil-comparar-o-surto-de-coronav-c3-adrus-com-outras-epidemias-do-passado/ar-BBZvAAX