Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

EM.COM.BR/BELO HORIZONTE
Data Veiculação: 21/03/2020 às 20h42

Cientistas ressaltaram que equipes de todo o mundo estão trabalhando duro para desenvolver substâncias ativas contra o Sars-Cov-2 Pesquisadores alemães conseguiram decifrar uma parte essencial do Sars-Cov-2, que causa a Covid-19. Por meio de uma técnica de análise avançada, eles mapearam a estrutura da molécula que está presente no vírus e é responsável pela replicação dele em organismos. Com base nessas descobertas, a equipe desenvolveu um medicamento para frear o patógeno. O remédio mostrou resultados positivos em testes feitos com ratos e poderá contribuir para o tratamento da pandemia. Os resultados foram publicados ontem, na edição da revista especializada Science. Continua depois da publicidade. No estudo, os cientistas ressaltaram que equipes de todo o mundo estão trabalhando duro para desenvolver substâncias ativas contra o Sars-Cov-2. “A análise estrutural das proteínas funcionais do vírus é muito útil para esse objetivo. A função de uma proteína está intimamente relacionada à sua arquitetura 3D. Se essa arquitetura 3D for conhecida, é possível identificar pontos de ataque específicos”, explicaram os autores do artigo, liderados por Linlin Zhang, pesquisadora da Universidade de Lubeck. Os pesquisadores usaram a cristalografia de raios-X, uma tecnologia refinada que analisa minuciosamente moléculas por meio de radiação eletromagnética. Com esse recurso, eles conseguiram definir a estrutura da principal protease (enzima que decompõe proteínas) do Sars-Cov-2, chamada Mpro ou 3CL. Ela é um dos principais alvos de drogas contra coronavírus por se responsável pela reprodução desses micro-organismos. Com base no estudo da estrutura da protease, os pesquisadores otimizaram inibidores de coronavírus para desenvolver o composto 13b. A intenção era de que ele funcionasse como um bloqueador da protease principal do Sars-Cov-2. Segundo os cientistas, o 13b é capaz de melhorar a ação de inibidores, prolongando, por exemplo, o tempo útil deles no plasma sanguíneo de pessoas infectadas. Os investigadores testaram o 13b em camundongos e descobriram que a inalação foi bem tolerada pelas cobaias, que não apresentaram efeitos adversos. “O tempo médio de permanência do 13b foi de 2,7 horas e a meia-vida, de 1,8 hora nos testes com camundongos. Isso é muito benéfico, principalmente pela forma como foi aplicado, pela nebulização, que atinge diretamente os pulmões. A inalação foi bem tolerada e os camundongos não apresentaram efeitos adversos, sugerindo que seria possível a administração direta do composto nos pulmões”, detalharam. Thiago Fuscaldi, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, também acredita que o trabalho poderá contribuir para esse objetivo, mas ressalta que mais pesquisas são necessárias. “Esse é mais um dos trabalhos que temos visto com foco no desenvolvimento de novas drogas, e essa é uma candidata em potencial, mas os testes ainda são muito iniciais, precisamos saber se os efeitos se repetem em humanos e sem efeitos colaterais”, explicou. O médico brasileiro também ressaltou que os cientistas deram foco a uma estrutura extremamente importante para a sobrevivência do vírus. “Ele se mantém por causa da replicação de seu RNA, feita por essa protease. Por isso, é importante conhecê-la. Esses dados são essenciais para combater a doença, e acredito que podemos esperar mais pesquisas feitas com esse mesmo objetivo nos próximos dias”, opinou. Palavra de especialista Grande avanço “Esse tipo de ciência básica busca descobrir com profundidade quais estruturas do vírus dão a ele uma estabilidade. Esse é um grande avanço, porque, através dessas informações, conseguimos desenhar moléculas que se encaixem nessa estrutura e apostar que elas consigam bloquear essa replicação. Temos ainda que investigar melhor esse mecanismo, entender totalmente como ele se comporta e quais as consequências de bloquear essa proteína. Para chegar aos medicamentos, temos muitas etapas, mas essa descoberta já é algo muito alentador, o entendimento dessa estrutura viral é uma ótima notícia”, David Urbaez, infectologista do Laboratório Exame em Brasília.

ESTADÃO/SÃO PAULO
Data Veiculação: 21/03/2020 às 15h00

Na linha de frente no combate ao novo coronavírus, médicos e enfermeiros confessam medo, insegurança e apreensão com o avanço da doença. Eles não temem não apenas o próprio contágio, mas também a transmissão para a família - o que faz mudar até a rotina dentro de caso. Além disso, os profissionais da saúde se queixam de falta de materiais, como luvas, máscaras e álcool gel, em algumas unidades hospitalares. Os índices de contaminação entre os profissionais de saúde são alto. A Federação das Ordens dos Médicos Cirurgiões e Dentistas da Itália, país com maior número de casos na Europa, criou um site em homenagem aos “mortos em combate”. Já são 17 os médicos mortos pela covid-19 no país europeu. No Brasil, não foram registrados óbitos de profissionais de saúde. O cirurgião da coluna Luiz Cláudio Rodrigues, do Hospital Santa Marcelina, também usa a metáfora da guerra. “Estamos em uma guerra e fomos convocados. Não temos opção de dizer 'não'. A informação que a população recebe é a mesma que temos”, conta. O Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira orientaram os profissionais que atuam com questões não urgentes, como cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais, a fecharem seus consultórios. Foi o que aconteceu com Marcus Yu Bin Pai, especialista em Dor e Acupuntura. “Existe desinformação e incerteza. Existe grande temor de contaminação entre os médicos que atuam nos prontos socorros e hospitais." Quando é possível, os próprios médicos adotam para si uma espécie de quarentena. Aos 71 anos, o oncologista Artur Malzyner, consultor científico da Clínica de Oncologia Médica (Clinonco) e médico do Hospital Albert Einstein, afirma passar 90% do tempo em casa. “Temo a contaminação sim. Os médicos que acabaram falecendo não são poucos. Mudei radicalmente minha rotina. Só vou ao consultório quando é essencial. Parei de praticar esportes e estou comendo em casa”, diz o especialista. A preocupação também se estende a enfermeiros. “Nosso ambiente de trabalho está tenso, pois estamos tendo conflitos. Os médicos estão assustados e cobram mais de nós”, diz uma enfermeira que atua em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na zona leste de São Paulo. “O que mudou na nossa rotina foi trabalhar com medo. O medo de se contaminar ou contaminar nossos famíliares." Uma funcionária do Hospital Nove de Julho, na região central, repete a palavra “medo”. Reclama da demora para a distribuição de máscaras entre profissionais. Segundo ela, só na semana passada os colaboradores da enfermagem, recepção, manobristas começaram a usar o equipamento de proteção individual. “Ouvimos que não era para usar a máscara para não 'espantar' os clientes. Agora, liberaram o uso”, afirma. A instituição rebate. “O hospital tem seguido todos os protocolos recomendados pela Organização Mundial de Saúde e Ministério da Saúde no combate ao coronavírus. As medidas tomadas incluem implantação de fluxos e procedimentos que garantam a segurança de pacientes, visitantes e equipes multiprofissionais, como o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual – EPIs”, diz o Nove de Julho, em nota. Reclamação semelhante sobre falta de EPIs foi identificada no Hospital Santa Marcelina, na zona leste. “Equipes de enfermagem usam a mesma máscara o dia todo. A direção reclama do uso de muito álcool em gel”, conta uma profissional. “Recebi bronca ao usar uma máscara e disseram que era para causar alvoroço." O hospital não respondeu ao pedido de esclarecimento da reportagem. Rogério Medeiros, coordenador nacional da Rede Saúde Filantrópica, entidade que reúne as Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas do Brasil, afirma que a falta de materiais é parcial. “Ninguém trabalhava com estoque para esse tipo de demanda. Já existem programações de compra. A primeira semana é de desespero. O uso foi indiscriminado. Se a gente entrar nas unidades SUS, não tem máscara e álcool gel. Mas já não havia antes. As prefeituras já estavam com problemas financeiras. Outra questão atual é o superfaturamento dos produtos." Ao menos seis denúncias de falta proteção adequada para profissionais de saúde durante a pandemia do coronavírus foram registradas nesta semana no Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). Os casos envolvem principalmente a falta de EPIs, como máscara facial, óculos, gorro, avental e luvas, em instituições tanto da rede pública quanto da privada, mas são negadas pelas instituições. No caso da rede privada, as denúncias envolvem os Hospital Sírio Libanês e São Camilo, ambos na capital, que não estariam disponibilizam EPI suficientes. Além disso, no caso do primeiro, um profissional ainda se queixou que médicos estão sendo “jogados na linha de frente sem o necessário suporte”. As duas instituições negam o conteúdo das denúncias e dizem ter insumos e equipamentos suficientes. A Prefeitura de São Paulo não respondeu às queixas. O sindicato cogita procurar o Ministério Público e até entrar com ações na Justiça. “A gente vê que a rede de saúde já tinha uma série de problemas antes. Com o coronavírus, era de se esperar que esses problemas da rede, de falta de insumos e medicamentos, ficariam mais graves.”, diz Eder Gatti, presidente do Simesp. Na terça-feira, 17, o Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo divulgou comunicado em que diz estar "temeroso" sobre o fornecimento de EPIs adequados e pede o afastamento de profissionais em grupos de risco. No hospital, desaparece o café em grupo e surge o silêncio alguns hospitais estão adotando regras rígidas com a prevenção dos funcionários. No Albert Einstein, que tem 20 casos de pacientes hospitalizados com coronavírus, os cuidados com profissionais foram intensificados. É preciso usar a máscara no momento em que o funcionário entra no hospital. Ela deve ser substituída a cada duas horas; a lavagem das mãos é constante. Casos com sintomas respiratórios evidentes são isolados imediatamente para avaliação. Em caso positivo para coronavírus ou influenza, quarentena de 14 dias. Não há dados sobre o número de funcionários afastados. A chegada do coronavírus mudou os hábitos de socialização no hospital. São raros os momentos de pausa para o café em grupo. Uma das funcionárias conta que não há choro em público nem grandes momentos de desespero, mas as pessoas trabalham em silêncio. “A notícia do aumento de casos ou da contaminação de algum colega de trabalho deixa todo mundo ainda mais abatido. O silêncio fica mais pesado”. A relação com os chefes também mudou. “Estão preocupados em informar, explicar quais são as fakes News, mas fazem questão de manter a distância na hora da conversa”, diz uma enfermeira. Os setores que estão tendo atividades reduzidas estão remanejando seus colaboradores. A escala de folgas, por enquanto, não foi alterada. Na volta pra casa, de olho na proteção Além do receio de contaminação, os profissionais de saúde também se preocupam em não levar o vírus para casa. Quando volta para casa, Luiz Cláudio Lacerda Rodrigues tirar os sapatos e passa direto para a lavandeira. O médico de 42 anos coloca para lavar toda a roupa que usou durante o dia. Tudo separado das outras peças. Em seguida, vai tomar banho. Só depois, ele abraça e beija a mulher Glayce e os filhos, Luiz Felipe, de 18 anos, e Julia, de 9 anos. Antes não era assim. O abraço na família era obrigatório logo na chegada. Praticamente todos os profissionais ouvidos pelo Estado relatam hábitos semelhantes após o coronavírus. Uma enfermeira do Hospital Nove de Julho tomou uma atitude radical: decidiu usar as economias para alugar um apartamento e ficar longe dos pais por dois meses. Ela está indo para o Jabaquara enquanto o pai, de 62 anos, e a mãe, 56, vão continuar na zona norte. O aluguel de R$ 1100 não vai pesar no orçamento. No último ano, ela vinha guardando toda renda extra mais 30% do salário religiosamente. Seu projeto era comprar um apartamento novo. “Eu, enfermeira profissional, não posso cuidar deles de perto, mas elimino uma possível culpa caso algo acontecesse a eles”, explica a enfermeira. Aplauso coletivo Na noite desta quinta-feira, 19, brasileiros foram às suas janelas para aplaudir os profissionais da área de saúde pelo seu trabalho na linha de frente da luta contra o covid-19. O movimento foi convocado por internautas nas redes sociais e também por meio de mensagens no aplicativo Whatsapp usando a hashtag #aplausosnajanela. Algumas cidades já realizaram o ato e uma nova convocação havia sido feita para esta sexta-feira. O texto de convocação diz que “enquanto estamos protegidos em casa, os profissionais da saúde estão enfrentando essa crise onde muitos estão se contaminando”. As características do ato são as mesmas: abrir as janelas de casa, varandas e portas, para um longo aplauso aos médicos, enfermeiras e outros profissionais de saúde que combatem a doença. “O povo brasileiro bate palmas para os trabalhadores e trabalhadoras da saúde que estão na linha de frente da luta contra o coronavírus. Que demonstração de reconhecimento social. O Brasil tem jeito!”, escreveu Juliano Medeiros nas redes sociais. O movimento ganhou o apoio de artistas, como a cantora Preta Gil. “Aplausos para os profissionais de saúde que estão bravamente cuidando de nós. Salva de palmas #profissionais da saúde”, escreveu a cantora nas redes sociais. O movimento começou na Itália, país com maior número de vítimas na Europa. Na tarde de sábado, 14, eclodiu uma salva de palmas em todo o país para os médicos que estão na linha de frente da batalha contra a epidemia. Os italianos continuam numa espécie de prisão domiciliar com as restrições extraordinárias decretadas para evitar o contágio. A ação também se repetiu nas janelas da Espanha e de Portugal, também motivada pelas redes sociais.

CORREIO WEB/CORREIO BRAZILIENSE/BRASÍLIA
Data Veiculação: 21/03/2020 às 07h00

Pesquisadores alemães conseguiram decifrar uma parte essencial do Sars-Cov-2, que causa a Covid-19. Por meio de uma técnica de análise avançada, eles mapearam a estrutura da molécula que está presente no vírus e é responsável pela replicação dele em organismos. Com base nessas descobertas, a equipe desenvolveu um medicamento para frear o patógeno. O remédio mostrou resultados positivos em testes feitos com ratos e poderá contribuir para o tratamento da pandemia. Os resultados foram publicados ontem, na edição da revista especializada Science. No estudo, os cientistas ressaltaram que equipes de todo o mundo estão trabalhando duro para desenvolver substâncias ativas contra o Sars-Cov-2. “A análise estrutural das proteínas funcionais do vírus é muito útil para esse objetivo. A função de uma proteína está intimamente relacionada à sua arquitetura 3D. Se essa arquitetura 3D for conhecida, é possível identificar pontos de ataque específicos”, explicaram os autores do artigo, liderados por Linlin Zhang, pesquisadora da Universidade de Lubeck. Os pesquisadores usaram a cristalografia de raios-X, uma tecnologia refinada que analisa minuciosamente moléculas por meio de radiação eletromagnética. Com esse recurso, eles conseguiram definir a estrutura da principal protease (enzima que decompõe proteínas) do Sars-Cov-2, chamada Mpro ou 3CL. Ela é um dos principais alvos de drogas contra coronavírus por se responsável pela reprodução desses micro-organismos. Com base no estudo da estrutura da protease, os pesquisadores otimizaram inibidores de coronavírus para desenvolver o composto 13b. A intenção era de que ele funcionasse como um bloqueador da protease principal do Sars-Cov-2. Segundo os cientistas, o 13b é capaz de melhorar a ação de inibidores, prolongando, por exemplo, o tempo útil deles no plasma sanguíneo de pessoas infectadas. Os investigadores testaram o 13b em camundongos e descobriram que a inalação foi bem tolerada pelas cobaias, que não apresentaram efeitos adversos. “O tempo médio de permanência do 13b foi de 2,7 horas e a meia-vida, de 1,8 hora nos testes com camundongos. Isso é muito benéfico, principalmente pela forma como foi aplicado, pela nebulização, que atinge diretamente os pulmões. A inalação foi bem tolerada e os camundongos não apresentaram efeitos adversos, sugerindo que seria possível a administração direta do composto nos pulmões”, detalharam. Thiago Fuscaldi, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, também acredita que o trabalho poderá contribuir para esse objetivo, mas ressalta que mais pesquisas são necessárias. “Esse é mais um dos trabalhos que temos visto com foco no desenvolvimento de novas drogas, e essa é uma candidata em potencial, mas os testes ainda são muito iniciais, precisamos saber se os efeitos se repetem em humanos e sem efeitos colaterais”, explicou. O médico brasileiro também ressaltou que os cientistas deram foco a uma estrutura extremamente importante para a sobrevivência do vírus. “Ele se mantém por causa da replicação de seu RNA, feita por essa protease. Por isso, é importante conhecê-la. Esses dados são essenciais para combater a doença, e acredito que podemos esperar mais pesquisas feitas com esse mesmo objetivo nos próximos dias”, opinou. Palavra de especialista Grande avanço “Esse tipo de ciência básica busca descobrir com profundidade quais estruturas do vírus dão a ele uma estabilidade. Esse é um grande avanço, porque, através dessas informações, conseguimos desenhar moléculas que se encaixem nessa estrutura e apostar que elas consigam bloquear essa replicação. Temos ainda que investigar melhor esse mecanismo, entender totalmente como ele se comporta e quais as consequências de bloquear essa proteína. Para chegar aos medicamentos, temos muitas etapas, mas essa descoberta já é algo muito alentador, o entendimento dessa estrutura viral é uma ótima notícia”, David Urbaez, infectologista do Laboratório Exame em Brasília.

CORREIO BRAZILIENSE/BRASÍLIA | GERAL
Data Veiculação: 21/03/2020 às 03h00

Composto 13b Com base nessa análise, os pesquisadores desenvolveram o composto 13b, um potente bloqueador da protease principal do Sars-Cov-2 Os resultados sugerem que a administração direta do composto nos pulmões é promissora e fornecem uma estrutura para o desenvolvimento de drogas para combater a Covid-19 Conseguiram definira estrutura da principal protease (enzima que decompõe proteínas) do Sars-Cov-2. Essa estrutura é um dos alvos de drogas contra o patógeno Pulmões 14 • Correio Braziliense • Brasília, sábado, 21 de março de 2020 novo coronavirus ÁREA DE ATAQUE 013b foi testado em camundongos. Os cientistas detectaram que a inalação foi bem tolerada e que as cobaias não apresentaram efeitos adversos Editora: Ana Pauta Macedo anapauta.dftddabr.com.br 3214-1195 • 3214-1172 Eles relatam que o 13b tem características que melhoram os inibidores do coronavírus, incluindo o prolongamento da meia-vida dessas substâncias no plasma sanguíneo da pessoa infectada. Cientistas conseguiram mapear uma parte importante do vírus Sars-Cov-2, o que pode ajudar no desenvolvimento de drogas para a Covid-19. D Os pesquisadores usaram a cristalográfica de raios X, técnica que utiliza radiação eletromagnética para analisar minuciosamente moléculas, para estudar o novo coronavírus /r9°/ca vd.a Cientistas alemães mapeiam a parte do Sars-Cov-2 responsável pela sua replicação e desenvolvem um composto para bloqueá-la. Em testes com ratos, a abordagem teve resultado promissor. A expectativa é de que ela possa ajudar no combate à Covid-19 Identificado um ponto fraco t* Isso é muito benéfico, principalmente pela forma como foi aplicado, pela nebulização, que atinge diretamente os pulmões" Trecho do artigo divulgado na revista Science yy Palavra de especialista Grande avanço » VILHENA SOARES Pesquisadores alemães conseguiram decifrar uma parte essencial do Sars-Cov-2, que causa a Covid-19. Por meio de uma técnica de análise avançada, eles mapearam a estrutura da molécula que está presente no vírus e é responsável pela replicação dele em organismos. Com base nessas descobertas, a equipe desenvolveu um medicamento para frear o patógeno. O remédio mostrou resultados positivos em testes feitos com ratos e poderá contribuir para o tratamento da pandemia. Os resultados foram publicados ontem, na edição da revista especializada Science. No estudo, os cientistas ressaltaram que equipes de todo o mundo estão trabalhando duro para desenvolver substâncias ativas contra o Sars-Cov-2. “A análise estrutural das proteínas funcionais do vírus é muito útil para esse objetivo. A função de uma proteína está intimamente relacionada à sua arquitetura 3D. Se essa arquitetura 3D for conhecida, é possível identificar pontos de ataque específicos”, explicaram os autores do artigo, liderados por Linlin Zhang, pesquisadora da Universidade de Lubeck. Os pesquisadores usaram a cristalografia de raios-X, uma tecnologia refinada que analisa minuciosamente moléculas por meio de radiação eletromagnética. Com esse recurso, eles conseguiram definir a estrutura da principal protease (enzima que decompõe proteínas) do Sars-Cov-2, chamada Mpro ou 3CL. Ela é um dos principais alvos de drogas contra coronavírus por se responsável pela reprodução desses micro-organismos. Com base no estudo da estrutura da protease, os pesquisadores otimizaram inibidores de coronavírus para desenvolver o "Esse tipo de ciência básica busca descobrir com profundidade quais estruturas do vírus dão a ele uma estabilidade. Esse é um grande avanço, porque, através dessas informações, conseguimos desenhar moléculas que se encaixem nessa estrutura e apostar que elas consigam bloquear essa replicação. Temos ainda que investigar melhor esse mecanismo, entender totalmente como ele se comporta e quais as consequências de bloquear essa proteína. Para chegar aos medicamentos, temos muitas etapas, mas essa descoberta já é algo muito alentador, o entendimento dessa estrutura viral é uma ótima notícia” David Urbaez, infectologista do Laboratório Exame em Brasília composto 13b. A intenção era de que ele funcionasse como um bloqueador da protease principal do Sars-Cov-2. Segundo os cientistas, o 13b é capaz de melhorar a ação de inibidores, prolongando, por exemplo, o tempo útil deles no plasma sanguíneo de pessoas infectadas. Os investigadores testaram o 13b em camundongos e descobriram que a inalação foi bem tolerada pelas cobaias, que não apresentaram efeitos adversos. “O tempo médio de permanência do 13b foi de 2,7 horas e a meia-vida, de 1,8 hora nos testes com camundongos. Isso é muito benéfico, principalmente pela forma como foi aplicado, pela nebulização, que atinge diretamente os pulmões. A inalação foi bem tolerada e os camundongos não apresentaram efeitos adversos, sugerindo que seria possível a administração direta do composto nos pulmões”, detalharam. Thiago Fuscaldi, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, também acredita que o trabalho poderá contribuir para esse objetivo, mas ressalta que mais pesquisas são necessárias. “Esse é mais um dos trabalhos que temos visto com foco no desenvolvimento de novas drogas, e essa é uma candidata em potencial, mas os testes ainda são muito iniciais, precisamos saber se os efeitos se repetem em humanos e sem efeitos colaterais”, explicou. O médico brasileiro também ressaltou que os cientistas deram foco a uma estrutura extremamente importante para a sobrevivência do vírus. “Ele se mantém por causa da replicação de seu RNA, feita por essa protease. Por isso, é importante conhecê-la. Esses dados são essenciais para combater a doença, e acredito que podemos esperar mais pesquisas feitas com esse mesmo objetivo nos próximos dias”, opinou. »Tubo de ensaio Fatos científicos da semana ♦ ♦ ♦ ♦ SEGUNDA-FEIRA, 16 DESGASTE MILENAR Um bloco de Lego pode sobreviver no oceano por até 1,3 mil anos, segundo uma pesquisa da Universidade de Plymouth, na Inglaterra. 0 estudo investigou até que ponto os componentes do popular brinquedo infantil se deterioram no ambiente marinho. Os cientistas dizem que o resultado reforça a mensagem de que as pessoas precisam pensar cuidadosamente sobre como descartam os itens domésticos do dia a dia. Na pesquisa, 50 peças de Lego desgastadas pelo tempo e coletadas em praias da Cornuália foram submetidas ao exame de espectrômetro de fluorescência de raios X (XRF) para calcular a idade e estimar quanto tempo levariam para se decompor por completo. TERCA-FEIRA, 17 JARDINS DE DELÍCIAS 0 cultivo de frutas e legumes em apenas 10% dos jardins de uma cidade e em outros espaços verdes urbanos poderia fornecer a 15% da população Local as cinco porções vegetais diárias, recomendadas pela OMS, segundo um estudo publicado na Nature Food. Os cientistas da Universidade de Sheffield investigaram o potencial da horticultura urbana por meio do mapeamento de espaços verdes da cidade inglesa. Se 100% desses locais fosse usado para o cultivo de alimentos, seria possível abastecer 709 mil pessoas por ano. Mesmo a conversão de 10% dos jardins domésticos e de 10% do espaço verde público, seria possível alimentar 15% da população local 87.375 pessoas com frutas e vegetais suficientes. QUARTA-FEIRA, 18 0S VESTÍGIOS DA GALINHA MARAVILHA Um grupo de paleontólogos da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, encontrou o mais antigo fóssil de um pássaro moderno, em uma pedreira de calcário perto da fronteira da Bélgica com os Países Baixos. Trata-se de um crânio quase completo de uma ave conhecida como Wonderchicken (Galinha maravilha, em tradução livre), cujo nome científico é Asteriornis maastrichtensis. A descoberta data da era dos dinossauros, há 66,7 milhões de anos. Na avaliação dos estudiosos, o fóssil poderá ajudar a determinar por que as aves, diferentemente dos dinossauros gigantes, sobreviveram à extinção em massa verificada no fim do período Cretáceo. QUINTA-FEIRA, 19 ROBÔ TAILANDÊS CONTRA 0 CORONAVÍRUS 0 robô médico Ninja é o aliado do sistema de saúde da Tailândia na luta contra a pandemia do novo coronavírus. 0 equipamento é usado em quatro hospitais com a missão de detectar as pessoas afetadas pela Covid-19, tratar os pacientes e proteger os funcionários. Outros 10 robôs devem reforçar em breve o trabalho. Originalmente concebidos para ajudar no cuidado de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC), eles têm tecnologia 4G e podem detectar a temperatura de um caso suspeito, supervisionar a evolução dos sintomas e permitir aos profissionais da área da saúde e aos pacientes um contato por videoconferência. Estão sendo configurados para levar comida e medicamentos aos pacientes, além de higienizar os quartos dos enfermos. SEXTA-FEIRA, 20 NASA SUSPENDE PROJETO ARTEMIS A pandemia do novo coronavírus chegou à Nasa, que decidiu suspender a construção e os testes do foguete e da espaçonave de sua missão tripulada Artemis à Lua. A agência espacial americana fecha seu centro de montagem em Michoud, Nova Orleans, onde é fabricado seu lançador pesado Space Launch System (SLS), bem como o local de testes Stennis Space Center, no estado do Mississippi. Essa missão do programa Artemis é a primeira de uma série com o objetivo de fazer estadas de longo prazo na superfície da Lua para estudá-la e desenvolveras técnicas necessárias para missões tripuladas na superfície de Marte. Phillip Krzeminski/Divulgação.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 21/03/2020 às 03h00

Operadoras de saúde já cancelam autorizações para exame e cirurgias Diante da pandemia do novo coronavírus, operadoras de saúde estão cancelando novas autorizações para exames e cirurgias que não se enquadrem em casos de urgência e emergência. Na quinta (19), a Amil, maior operadora de planos de saúde no país, comunicou que estava adiando novas liberações de procedimentos feitos em ambiente hospitalar por orientação do Ministério da Saúde. “Essa decisão preserva leitos hospitalares para os pacientes acometidos pela Covid-19" diz a operadora. A Notredame Intermédica também cancelou cirurgias eletivas e colonoscopias. “Submeter-se a qualquer procedimento já é arriscado. Nesse ambien te atual de alto risco, não é recomendado, se a pessoa pode adiar”, afirma José Cechin, do Iess (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar). Saúde BI Hospital Santa Catarina, na avenida Paulista, que estava esvaziada nesta sexta-feira (20) Fábiovieira/FotoRua/Foihapress Crise faz planos cancelarem aval para exames e cirurgias Pandemia afeta procedimentos em casos sem urgência, como endoscopias Cláudia Collucci são paulo Diante da pandemia do novo coronavírus, operadoras de saúde estão cancelando novas autorizações para exames e cirurgias que não se enquadrem em casos de urgência e emergência. Até senhas já liberadas têm sido postergadas. Nesta quinta (19), a Amil, a maior operadora de planos de saúde no país, comunicou que estava adiando novas autorizações de procedimentos feitos em ambiente hospitalar a partir de orientações do Ministério da Saúde. “Essa decisão preserva leitos hospitalares para os pacientes acometidos pelo vírus da Covid-19” diz a operadora. Para os casos de autorizações já concedidas, a operadora recomenda que os hospitais avaliem com seus pacientes a possibilidade de adiamento dos procedimentos. A decisão será mantida enquanto durar o estado de emergência de saúde pública, segundo a Amil. A Notredame Intermédica também cancelou as cirurgias eletivas e os exames de eolonoscopia. Está recomendado ainda que seus beneficiários evitem consultas médicas e idas aos pronto-socorros. Para Paulo Chapchap, diretor do Hospital Sírio-Libanês, há cirurgias que não são exatamente urgentes, mas que não podem esperar três meses para acontecer. “Um câncer de mama, de intestino, de fígado, de estômago, você tem que continuar, não dá para parar, porque esse indivíduo vai ter uma progressão da doença e vai ter chance de cura menor”, diz. Outras cirurgias, como uma rotura de ligamento de joelho, causam momento e também não deveriam ser adiadas, segundo ele. “A pessoa não consegue subir e descer escada, tem de tomar um monte de anti-inflamatórios, às vezes opioides. Vamos esperar três meses?”, questiona. Já outras operações e exames como mamografia, colonoscopia e endoscopia, quando de rotina, podem ser adiados, segundo ele. “Os pacientes estão entendendo muito bem e até pedindo para não irem a um ambiente hospitalar neste momento.” Mas também há exceções para o caso de exames. “Tivemos um paciente que fez quimioterapia e precisamos fazer uma endoscopia para saber se ele é operável ou não." Para Chapchap, é errado os convênios negarem sumariamente autorização para casos que não se enquadrem como urgentes. “Eles não têm como saber cada caso específico.” Nesta sexta (20), o Sírio já fazia menos da metade cirurgias diárias (foram de 80 para 35, em média). O hospital está com 12% da sua capacidade já ocupada por pacientes com confirmação ou suspeita de infecção pelo novo coronavírus. Alexandre Ruschi, presidente da Central Nacional Unimed, diz que recomendou à rede de 323 cooperativas e credenciados o adiamento dos procedimentos eletivos de qualquer natureza. “Não fazia sentido proibir, como eu vi em outras operadoras, derrubando autorizações, porque é uma ofensa ao regulamento", afirma Ruschi. Segundo ele, houve aceitação dos médicos. “Até porque, eles estão na linha de frente e precisam se preservar”, afirma. Ao mesmo tempo, pediu à ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) que regulamente o assunto em resolução. “A gente tem um monte de prazo para agendamento de consultas, de procedimentos, de liberação de guias de exames. Todos esses prazos estão vinculados a penalidades.” Os pacientes estão entendendo muito bem e até pedindo para não irem a um ambiente hospitalar neste momento Paulo Chapchap diretor do Hospital Sírio-Libanês Segundo José Cechin, superintedente-executivo do Iess (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar), as operadoras estão mobilizadas não só para adequar a assistência de se os beneficiários nesse momento de crise sanitária, mas também para proteger os profissionais da saúde. “Submeter-se a qualquer procedimento já é arriscado. Nesse ambiente atual de alto risco, não é recomendado se pode adiar o procedimento. Temos que deixar os equipamentos disponíveis para as emergências e para o coronavírus!’ Entre os pacientes, especialmente os que lidam com doenças graves, o clima é de apreensão. Uma jovem com câncer de mama conta que teve que adiar as três últimas sessões de quimio terapia e que o mesmo deve ocorrer com a cirurgia, prevista para 23 de abril. “Fiquei um pouco frustrada, mas considero uma dei são sensatas para o momento que estamos vivendo. Daqui a um mês não haverá mais hospitais seguros, todos estarão provavelmente ocupados com pacientes com coronavírus." Segundo a psicóloga Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, já começam a aparecer problemas de todas as ordens, de adiamento de cirurgias a cancelamento de retornos de pacientes já operados. “Torço para que as clínicas assim e a base da teleorientação. Dessa forma, o paciente se sentirá mais amparado, ficando mais seguro numa hora de tantas incertezas” afirma. Correria o risco de pegar Covid-19 para não perder a visão DEPOIMENTO Luiz Carlos Franco empresário, tem 67 anos comecei a perceber que algo havia de errado com minha visão jogando tênis com os amigos, por volta de dezembro. O que eu pensava de mim, algo como um sênior com vocação para Federer, passou a se configurar como um aluno iniciante daqueles sem muito futuro. Comecei a perder os jogos e parte da visão de profundidade com alguma velocidade. Corri para um oftalmologista em janeiro, que pediu uma tomografia com cara de que algo havia de errado. Ele perguntou se eu havia sofrido algum impacto, e lembrei de uma bolada no olho esquerdo por volta de outubro. A Amil não quis autorizar, pediu relatório e mais uns três exames. Paguei do próprio bolso em clínica particular e voltei ao oftalmologista, que retomou a fisionomia preocupada. Diagnóstico: “Buraco na mácula, caso de cirurgia. Procurar especialista em retina com urgência”. Foi o que fiz, procurei a Eye Clinic, uma das clínicas especializadas recomendada. Vários exames depois, a confirmação de que era necessária a cirurgia de vitrectomia, acompanhada de implantação de uma lente para prevenir catarata, decorrente da intervenção necessária. Fui informado na clínica que a Amil cobria a operação da catarata, mas a tal da vitrectomia sairia por R$ 21 mil, porque o convênio não cobria. Descobri aos 45 minutos do segundo tempo que a Amil cobria ambas, mas não ali. Retomei com preocupação todo o processo no Hospital de Olhos Paulista, na segunda (16), um dia antes da operação na Eye Clinic, que caneeleinaquele momento, apesar do medo de perder a visão do olho esquerdo. O cirurgião que me atendeu registrou a gravidade do caso e pediu uma tomografia de urgência na quinta (19). Fui avisado pelo HOlhos na quarta (18) à tarde, no entanto, que a tomografia estava transferida para 13 de abril, e, consequentemente, a cirurgia, que seria dia 23 de março, também. Mesmo com toda as implicações do coronavírus, eu toparia correr riscos numa cirurgia. Afinal, quanto mais tempo se passar, corro o risco da cirurgia se tornar inócua e meu olho esquerdo deixar de enxergar com exatidão, isso se não perder a visão por completo.

MSN BRASIL
Data Veiculação: 21/03/2020 às 00h00

Na linha de frente no combate ao novo coronavírus, médicos e enfermeiros confessam medo, insegurança e apreensão com o avanço da doença. Eles não temem não apenas o próprio contágio, mas também a transmissão para a família - o que faz mudar até a rotina dentro de caso. Além disso, os profissionais da saúde se queixam de falta de materiais, como luvas, máscaras e álcool gel, em algumas unidades hospitalares. Acompanhe nossa cobertura sobre o coronavírus. Últimas notícias, perguntas e respostas e como se cuidar. Os índices de contaminação entre os profissionais de saúde são alto. A Federação das Ordens dos Médicos Cirurgiões e Dentistas da Itália, país com maior número de casos na Europa, criou um site em homenagem aos “mortos em combate”. Já são 17 os médicos mortos pela covid-19 no país europeu. No Brasil, não foram registrados óbitos de profissionais de saúde. O cirurgião da coluna Luiz Cláudio Rodrigues, do Hospital Santa Marcelina, também usa a metáfora da guerra. “Estamos em uma guerra e fomos convocados. Não temos opção de dizer 'não'. A informação que a população recebe é a mesma que temos”, conta. O Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira orientaram os profissionais que atuam com questões não urgentes, como cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais, a fecharem seus consultórios. Foi o que aconteceu com Marcus Yu Bin Pai, especialista em Dor e Acupuntura. “Existe desinformação e incerteza. Existe grande temor de contaminação entre os médicos que atuam nos prontos socorros e hospitais." Quando é possível, os próprios médicos adotam para si uma espécie de quarentena. Aos 71 anos, o oncologista Artur Malzyner, consultor científico da Clínica de Oncologia Médica (Clinonco) e médico do Hospital Albert Einstein, afirma passar 90% do tempo em casa. “Temo a contaminação sim. Os médicos que acabaram falecendo não são poucos. Mudei radicalmente minha rotina. Só vou ao consultório quando é essencial. Parei de praticar esportes e estou comendo em casa”, diz o especialista. A preocupação também se estende a enfermeiros. “Nosso ambiente de trabalho está tenso, pois estamos tendo conflitos. Os médicos estão assustados e cobram mais de nós”, diz uma enfermeira que atua em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na zona leste de São Paulo. “O que mudou na nossa rotina foi trabalhar com medo. O medo de se contaminar ou contaminar nossos familiares." Uma funcionária do Hospital Nove de Julho, na região central, repete a palavra “medo”. Reclama da demora para a distribuição de máscaras entre profissionais. Segundo ela, só na semana passada os colaboradores da enfermagem, recepção, manobristas começaram a usar o equipamento de proteção individual. “Ouvimos que não era para usar a máscara para não 'espantar' os clientes. Agora, liberaram o uso”, afirma. A instituição rebate. “O hospital tem seguido todos os protocolos recomendados pela Organização Mundial de Saúde e Ministério da Saúde no combate ao coronavírus. As medidas tomadas incluem implantação de fluxos e procedimentos que garantam a segurança de pacientes, visitantes e equipes multiprofissionais, como o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual – EPIs”, diz o Nove de Julho, em nota. Reclamação semelhante sobre falta de EPIs foi identificada no Hospital Santa Marcelina, na zona leste. “Equipes de enfermagem usam a mesma máscara o dia todo. A direção reclama do uso de muito álcool em gel”, conta uma profissional. “Recebi bronca ao usar uma máscara e disseram que era para causar alvoroço." O hospital não respondeu ao pedido de esclarecimento da reportagem. Rogério Medeiros, coordenador nacional da Rede Saúde Filantrópica, entidade que reúne as Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas do Brasil, afirma que a falta de materiais é parcial. “Ninguém trabalhava com estoque para esse tipo de demanda. Já existem programações de compra. A primeira semana é de desespero. O uso foi indiscriminado. Se a gente entrar nas unidades SUS, não tem máscara e álcool gel. Mas já não havia antes. As prefeituras já estavam com problemas financeiras. Outra questão atual é o superfaturamento dos produtos." Ao menos seis denúncias de falta proteção adequada para profissionais de saúde durante a pandemia do coronavírus foram registradas nesta semana no Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). Os casos envolvem principalmente a falta de EPIs, como máscara facial, óculos, gorro, avental e luvas, em instituições tanto da rede pública quanto da privada, mas são negadas pelas instituições. No caso da rede privada, as denúncias envolvem os Hospital Sírio Libanês e São Camilo, ambos na capital, que não estariam disponibilizam EPI suficientes. Além disso, no caso do primeiro, um profissional ainda se queixou que médicos estão sendo “jogados na linha de frente sem o necessário suporte”. As duas instituições negam o conteúdo das denúncias e dizem ter insumos e equipamentos suficientes. A Prefeitura de São Paulo não respondeu às queixas. O sindicato cogita procurar o Ministério Público e até entrar com ações na Justiça. “A gente vê que a rede de saúde já tinha uma série de problemas antes. Com o coronavírus, era de se esperar que esses problemas da rede, de falta de insumos e medicamentos, ficariam mais graves.”, diz Eder Gatti, presidente do Simesp. Na terça-feira, 17, o Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo divulgou comunicado em que diz estar "temeroso" sobre o fornecimento de EPIs adequados e pede o afastamento de profissionais em grupos de risco. No hospital, desaparece o café em grupo e surge o silêncio alguns hospitais estão adotando regras rígidas com a prevenção dos funcionários. No Albert Einstein, que tem 20 casos de pacientes hospitalizados com coronavírus, os cuidados com profissionais foram intensificados. É preciso usar a máscara no momento em que o funcionário entra no hospital. Ela deve ser substituída a cada duas horas; a lavagem das mãos é constante. Casos com sintomas respiratórios evidentes são isolados imediatamente para avaliação. Em caso positivo para coronavírus ou influenza, quarentena de 14 dias. Não há dados sobre o número de funcionários afastados. A chegada do coronavírus mudou os hábitos de socialização no hospital. São raros os momentos de pausa para o café em grupo. Uma das funcionárias conta que não há choro em público nem grandes momentos de desespero, mas as pessoas trabalham em silêncio. “A notícia do aumento de casos ou da contaminação de algum colega de trabalho deixa todo mundo ainda mais abatido. O silêncio fica mais pesado”. A relação com os chefes também mudou. “Estão preocupados em informar, explicar quais são as fakes news, mas fazem questão de manter a distância na hora da conversa”, diz uma enfermeira. Os setores que estão tendo atividades reduzidas estão remanejando seus colaboradores. A escala de folgas, por enquanto, não foi alterada. Na volta pra casa, de olho na proteção Além do receio de contaminação, os profissionais de saúde também se preocupam em não levar o vírus para casa. Quando volta para casa, Luiz Cláudio Lacerda Rodrigues tira os sapatos e passa direto para a lavandeira. O médico de 42 anos coloca para lavar toda a roupa que usou durante o dia. Tudo separado das outras peças. Em seguida, vai tomar banho. Só depois, ele abraça e beija a mulher Glayce e os filhos, Luiz Felipe, de 18 anos, e Julia, de 9 anos. Antes não era assim. O abraço na família era obrigatório logo na chegada. Praticamente todos os profissionais ouvidos pelo Estado relatam hábitos semelhantes após o coronavírus. Uma enfermeira do Hospital Nove de Julho tomou uma atitude radical: decidiu usar as economias para alugar um apartamento e ficar longe dos pais por dois meses. Ela está indo para o Jabaquara enquanto o pai, de 62 anos, e a mãe, 56, vão continuar na zona norte. O aluguel de R$ 1100 não vai pesar no orçamento. No último ano, ela vinha guardando toda renda extra mais 30% do salário religiosamente. Seu projeto era comprar um apartamento novo. “Eu, enfermeira profissional, não posso cuidar deles de perto, mas elimino uma possível culpa caso algo acontecesse a eles”, explica a enfermeira. Aplauso coletivo Na noite desta quinta-feira, 19, brasileiros foram às suas janelas para aplaudir os profissionais da área de saúde pelo seu trabalho na linha de frente da luta contra o covid-19. O movimento foi convocado por internautas nas redes sociais e também por meio de mensagens no aplicativo Whatsapp usando a hashtag #aplausosnajanela. Algumas cidades já realizaram o ato e uma nova convocação havia sido feita para esta sexta-feira. O texto de convocação diz que “enquanto estamos protegidos em casa, os profissionais da saúde estão enfrentando essa crise onde muitos estão se contaminando”. As características do ato são as mesmas: abrir as janelas de casa, varandas e portas, para um longo aplauso aos médicos, enfermeiras e outros profissionais de saúde que combatem a doença. “O povo brasileiro bate palmas para os trabalhadores e trabalhadoras da saúde que estão na linha de frente da luta contra o coronavírus. Que demonstração de reconhecimento social. O Brasil tem jeito!”, escreveu Juliano Medeiros nas redes sociais. O movimento ganhou o apoio de artistas, como a cantora Preta Gil. “Aplausos para os profissionais de saúde que estão bravamente cuidando de nós. Salva de palmas #profissionaisdasaude”, escreveu a cantora nas redes sociais. O movimento começou na Itália, país com maior número de vítimas na Europa. Na tarde de sábado, 14, eclodiu uma salva de palmas em todo o país para os médicos que estão na linha de frente da batalha contra a epidemia. Os italianos continuam numa espécie de prisão domiciliar com as restrições extraordinárias decretadas para evitar o contágio. A ação também se repetiu nas janelas da Espanha e de Portugal, também motivada pelas redes sociais.

BLOGS DO ESTADÃO
Data Veiculação: 21/03/2020 às 18h45

O mundo passa por uma das crises mais graves do século, a pandemia de covid-19, causada pelo novo coronavírus. O que estimam especialistas é que milhares de pessoas serão infectadas no Brasil e, infelizmente, muitos morrerão. Estados e Municípios brasileiros já decretaram estado de emergência ou de calamidade pública. Neste sábado (21/03), por exemplo, o estado de São Paulo decretou quarentena e todo o comércio estará fechado por 15 dias, a partir do dia 24/03, sendo autorizado apenas o funcionamento de atividades essenciais, e podendo, inclusive, a força policial impedir a circulação e aglomeração de pessoas. A Magistratura Federal tem plena ciência da gravidade e da excepcionalidade do momento e não fugirá de suas responsabilidades, tampouco deixará de dar sua cota de sacrifício para que a nossa sociedade possa enfrentar e vencer essa grande crise. Nesta semana, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Resolução nº 313, determinando um regime extraordinário de trabalho para atendimento dos casos urgentes e que o trabalho no Poder Judiciário se faça de modo remoto (teletrabalho). E a Justiça Federal está fazendo a sua parte. Com o processo eletrônico, hoje é possível que 1.940 magistrados e magistradas federais, juntamente com cerca de 26.800 servidores do Judiciário Federal, possam dar continuidade às suas atividades diretamente de suas casas, medida imprescindível para evitar a disseminação da doença. Tendo em vista esse cenário, é importante deixar muito claro que, embora os prazos processuais e audiências estejam suspensas, a Justiça Federal não parou: medidas urgentes estão sendo apreciadas e os milhares de processos que nela tramitam continuam a ter o seu andamento regular, com despachos, decisões e sentenças sendo proferidos. Julgamentos virtuais nas Turmas Recursais e Tribunais Regionais Federais também continuarão a acontecer. Esse esclarecimento é necessário uma vez que alguns começam agora a defender que o serviço público deveria ser penalizado com corte de salários porque não funcionaria nesse período de crise. Esse pensamento, vindo na maioria das vezes de quem já mantinha desapreço pelo trabalho desempenhado na administração pública, não podia estar mais equivocado: mais do que nunca, a sociedade brasileira precisará de um serviço público forte e que continue a trabalhar de forma ininterrupta. Quando a doença atingir a curva máxima de sua propagação, não será no Albert Einsten ou no Sírio Libanês, hospitais da elite paulistana, que a população será atendida: será no atendimento público de saúde, onde milhares de profissionais médicos, enfermeiros e colaboradores estão desde o começo deste mês se sacrificando para poder conter a pandemia. Será o setor público que garantirá a defesa da sociedade, a manutenção da ordem e que aplicará as medidas excepcionais que se fizerem necessárias para impedir a propagação da doença e salvar vidas. E o Judiciário terá papel fundamental nesse trabalho. É certo que o estado excepcional que estamos vivendo autoriza a adoção de medidas extraordinárias com base na supremacia do interesse público. Mas também é certo que toda e qualquer atuação estatal deverá ser feita dentro dos balizamentos constitucionais. Nesse sentido, caberá ao Judiciário a palavra final para dizer o que pode e o que não pode ser feito em nome do combate à covid-19. A Ajufe, por esse motivo, é totalmente contrária a qualquer medida que, a pretexto da crise, mais uma vez, coloque nas costas do servidor público a responsabilidade pelos problemas do país. O sacrifício é necessário, mas tem de ser feito por todos. Em momentos como este, o Estado precisa adotar medidas que preservem a vida dos brasileiros e que permitam minimização dos efeitos da crise e a retomada do crescimento econômico quando a crise sanitária for resolvida. Não poderia ser mais irresponsável falar em cortes de gastos públicos ou em medidas de austeridade fiscal em um momento como o que vivemos, os que o fazem apresentam total descolamento da realidade. Não vamos aceitar que, em uma situação de crise como o que vivemos, alterações constitucionais sejam feitas sem que o Congresso Nacional esteja reunido de forma regular. Sabemos que medidas emergenciais podem e devem ser aprovadas pela Parlamento brasileiro, e nesse sentido merecem aplausos a iniciativa dos presidentes Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia de permitir reuniões e votações virtuais no Congresso. Mas esse mecanismo, contudo, não pode ser usado para alterar a Constituição Federal, base do Estado Democrático. Tendo isso em vista, vejo como importante a declaração que a senadora Simone Tebet, Presidente da CCJ, deu esta semana aos Senadores, afirmando que o mecanismo das votações e reuniões virtuais não seria utilizado para discutir ou aprovar Propostas de Emendas Constitucionais, dentre as quais a PEC 186, chamada de PEC Emergencial. Em contrapartida, se é necessário economizar ou ajustar contas, não faltam propostas que podem ser apresentadas. Entre elas estão, por exemplo, a retirada do PLN 4 como forma de viabilizar que o Ministério da Saúde tenha 20 bilhões para aplicar na área de saúde; ou ainda a proposta de utilização dos recursos do Fundo Eleitoral de 2020, cerca de 2 bilhões, para o combate à pandemia e tomada de medidas de estímulo à economia. Em momentos como este, é necessário estimular a solidariedade e o exemplo tem de começar por aqueles que podem dar mais, sem sacrificar com isso a sua própria subsistência. Sabemos que a situação é muito difícil e também sabemos que será superada. Para isso, os magistrados federais continuarão a desempenhar o seu importante papel na defesa do Estado de Direito e no reconhecimento e preservação dos direitos constitucionais da sociedade brasileira. Sairemos mais solidários e mais fortes dessa crise, tenho certeza. *Fernando Mendes, presidente da Ajufe