Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

BBC BRASIL/SÃO PAULO
Data Veiculação: 19/05/2020 às 00h00

O grande fluxo de pacientes fez as unidades de tratamento intensivo (UTIs) atingirem níveis perigosamente altos de ocupação e, em alguns casos, chegarem à lotação máxima. Muitas vezes, não há espaço para todos que precisam de atendimento, e os médicos precisam escolher quem vai para a UTI quando surge uma vaga. "A gente acaba escolhendo quem vai ter mais chances de sobreviver", diz a médica Andressa*, que trabalha na emergência de um dos maiores hospitais públicos de Fortaleza, no Ceará, o segundo Estado com o maior número de casos, atrás apenas de São Paulo. Formada há dez anos, Andressa diz que a falta de leitos de UTI é um problema crônico do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas isso se agravou com a pandemia, mesmo com o esforço de governos para aumentar a capacidade dos hospitais. "Os leitos mais do que dobraram, mas não conseguimos dar conta da demanda. Temos pacientes intubados na enfermaria, na emergência. Já teve paciente que ficou mais de duas horas rodando intubado em ambulância porque não tinha vaga", diz a médica. "Fazemos essa escolha (de quem vai para a UTI) todos os dias, é algo rotineiro. Mas não é fácil. Dá uma sensação de impotência muito grande, de que estamos lutando contra algo muito maior do que a gente." Além de ficar mais frequente na rede pública, esse dilema também está se tornando uma realidade onde até então não existia, a rede privada. A cardiologista Marina* diz que teve de tomar essa decisão com uma paciente de 90 anos depois que sua saúde piorou rapidamente ao ser internada em um grande hospital particular do Rio. A idosa precisava ir para a UTI, que estava quase lotada. E havia outros oito pacientes mais jovens em estado grave, recebendo um alto fluxo de oxigênio. Havia uma grande chance destes doentes precisarem ser intubados, mas não haveria vaga para eles se a paciente de Marina fosse para a UTI. Uma comissão de médicos optou por deixar a idosa sob cuidados paliativos, e ela morreu na madrugada seguinte. "Foi uma angústia muito grande, porque era uma pessoa que estava lúcida, não tinha outras doenças graves e havia expressado o desejo de viver", diz Marina. A médica diz que, antes da pandemia, isso não acontecia porque havia leitos de UTI suficientes. "A gente não precisava fazer essa 'escolha de Sofia'. Mas agora estamos vivendo cada vez mais isso. E é muito difícil também porque não somos treinados para tomar esse tipo de decisão, para priorizar quem tem mais chance de se recuperar porque é mais jovem ou saudável. A gente aprende que tem que salvar vidas." Para ajudar os médicos a tomarem essas decisões com base em critérios científicos e uniformes, associações médicas brasileiras criaram protocolos de triagem de atendimento em UTIs quando houver um colapso do sistema de saúde. Um deles foi elaborado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com a Associação Brasileira de Medicina de Emergência, a Sociedade Brasileira de Gerontologia e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos. "Em uma situação de catástrofe, não queremos que essas escolhas sejam feitas em segredo, mas de forma clara e transparente, com critérios eticamente justificados e de acordo com o ordenamento jurídico e os valores brasileiros", afirma a médica Lara Kretzer, coordenadora da equipe responsável pelo protocolo divulgado neste mês pela Amib. "Queremos trazer esse assunto para o debate público e prestar contas de como esse processo está acontecendo em vez de varrer tudo para debaixo do tapete." O Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco (Cremepe) também elaborou seu próprio protocolo, que foi levado à público no final de abril. "Os médicos que estão na ponta, além de estarem sofrendo muito ao ver tanta gente morrendo, com a sobrecarga de trabalho e com o medo de contaminar seus familiares, precisam tomar decisões que podem gerar traumas graves", afirma Zilda Cavalcanti, diretora do Cremepe. "Se um profissional tem um respirador para três pacientes, ele não pode carregar sozinho o peso dessa escolha. Precisamos dar critérios para respaldar o médico e fazer com que essa decisão seja a mais justa possível." Os protocolos da Amib e do Cremepe se baseiam em uma análise das condições de saúde do paciente para determinar, por meio de um sistema de pontos, quem pode se beneficiar mais de um leito de UTI. Em ambos, é feita uma Avaliação Sequencial de Falência de Órgãos (Sofa, na sigla em inglês), em que é analisado o estado de seis sistemas básicos do organismo: respiratório, cardiovascular, hepático, de coagulação, renal e neurológico. Quanto pior for a condição do paciente, maior é a pontuação recebida. Também é analisado se o paciente tem outras doenças crônicas, as chamadas comorbidades, que são um fator de risco para quem tem covid-19. O Cremepe tem uma escala; nela, quanto pior for o quadro do paciente, mas alta será a pontuação. A Amib soma as pontuações de duas avaliações. Na primeira, é conferida uma pontuação única aos pacientes com expectativa de vida inferior a um ano. Depois, é medida a capacidade física e motora de uma pessoa naquele momento, um indicativo de quanto ela será capaz de responder ao tratamento. Novamente, a pontuação é maior conforme pior for a condição do doente. Ao final, são somados os pontos de cada avaliação, e o paciente com a menor pontuação recebe prioridade na vaga da UTI. O objetivo destes sistemas é identificar os casos em que a saúde de uma pessoa está tão comprometida que nem mesmo uma UTI conseguirá salvá-la ou quem não está tão doente em comparação a pacientes para os quais a UTI pode ser a diferença entre a vida e a morte. "Em um esgotamento do sistema de saúde, a ênfase passa a ser salvar o maior número de pessoas. Por isso, precisamos racionalizar o uso dos recursos", explica Kretzer. Cavalcanti ressalta, no entanto, que deixar de internar um paciente na UTI não significa abandoná-lo à própria sorte. "Gosto de uma frase que ouvi: 'Muitas pessoas vão para a UTI querendo garantir seu direito à saúde, mas, na verdade, querem garantir seu direito à esperança'. Mas, há casos em que o risco de morte de uma pessoa é altíssimo, e ela não vai se beneficiar da UTI. O melhor a fazer é proporcionar um fim de vida digno." O médico Eduardo Leite, da comissão de terapia intensiva da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, diz que a falta de vagas de UTI por causa da pandemia de covid-19 já é uma realidade em algumas cidades do país e que, em uma situação assim, é preciso estabelecer regras melhores de atendimento. Normalmente, uma pessoa precisa ir para este tipo de unidade porque sua saúde está muito frágil e exige um acompanhamento bem próximo e uma resposta imediata da equipe médica em caso de piora. Ou ainda porque necessita de um equipamento de suporte à vida que só é oferecido na UTI, como é o caso dos respiradores. O atendimento é feito conforme a ordem de chegada, e não há critérios para exclusão de um paciente. "Mas, em um sistema hospitalar saturado, isso pode não ser o melhor, porque dar uma vaga para quem não tem muitas chances de sobreviver não é a forma mais eficiente de administrar o sistema de saúde", diz Leite. O médico Daniel Neves Forte, que é especializado em cuidados intensivos e paliativos, explica que, antes desta pandemia, não havia a necessidade, em países mais desenvolvidos, de fazer uma triagem de pacientes por causa de falta de vagas de UTI. "Esse era um problema inexistente para eles, que ficaram assustados com o esgotamento de leitos e correram atrás para desenvolver mecanismos de triagem", diz Forte, que é presidente do comitê de bioética do Hospital Sírio-Libanês. Mas isso já era uma realidade no Brasil por causa da precariedade do SUS. Isso levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a publicar, em 2016, uma resolução que estabelece cinco níveis de prioridade para admissão nas UTIs, que vão de pacientes com "alta probabilidade de recuperação" àqueles "sem possibilidade de recuperação". "Essa resolução já foi um grande passo à frente, mas ainda assim era muito subjetiva, baseada na interpretação feita pelo médico em cada caso", diz Forte. O médico avalia que os protocolos criados no Brasil representam um avanço, por apresentarem critérios mais objetivos que reduzem as chances de haver injustiças com esse tipo de escolha. Lara Kretzer, da Amib, diz que as regras desenvolvidas pela associação médica vão ser testadas cientificamente para verificar se atinge seus objetivos. "A partir disso, podemos ajustar o modelo para que ele cumpra a função de identificar o paciente que tem mais chance de sobreviver e diminuir o número de mortos em uma pandemia." A Amib já apresentou seu protocolo para a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) para que estas organizações avaliem os critérios e se posicionem sobre sua adoção. Nenhuma das duas fez isso até o momento. O CFM não respondeu ao pedido de entrevista da BBC News Brasil. A AMB diz que está avaliando o protocolo e não tem uma previsão de quando se manifestará. "Precisamos estar muito bem fundamentados para isso, porque essa crise vai passar, como outras já passaram, e as atitudes que nós tomarmos é que ficarão", diz Lincoln Lopes Ferreira, presidente da AMB. "Mas nada disso é novo. Denunciamos há muito tempo esse problema, que revela uma ineficiência de gestão crônica. Agora querem transferir a responsabilidade para quem está na linha de frente?" Kretzer diz que a elaboração de um protocolo não significa isentar os gestores de saúde de sua responsabilidade, porque o documento prevê que as regras só podem ser aplicadas depois de ser feito um esforço para ampliar a rede de atendimento. "Também não estamos jogando isso no colo do médico, pelo contrário. Estamos tentando tornar mais fácil e seguro o seu trabalho com critérios desenvolvidos por sociedades científicas e submetidos ao escrutínio de especialistas", diz Kretzer. A médica afirma ainda não ser possível ignorar que há problemas graves no sistema de saúde público do país, mas diz que comparar a falta de leitos crônica ao que ocorre em uma pandemia é "fazer uma confusão enorme". "Em uma situação normal, quando há um aumento na demanda, é possível repensar e ajustar a forma de trabalho. Mas estamos falando aqui de uma situação de catástrofe, em que, mesmo depois de aumentar o número de leitos, cancelar cirurgias eletivas e de outras medidas de contingência, o sistema continua não dando conta. Não podemos nos abster diante de uma situação assim, e não vai ajudar em nada minimizar o que está acontecendo." *O nome dos entrevistados foi alterado para preservar sua identidade. Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

FOLHA DE S.PAULO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 19/05/2020 às 00h00

Com 45% a menos de receita, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, cortou em 25% o salário e a jornada de trabalho de 33% dos seus 15 mil funcionários. A decisão, que também atinge outros hospitais privados e filantrópicos do país, vale por três meses e está amparada pela medida provisória 936, que dispõe sobre o programa de manutenção de emprego e renda para enfrentamento da pandemia de Covid-19. No Sírio-Libanês, com 8.300 funcionários, também houve redução de jornada de trabalho e de salários, remanejamento entre áreas e realocação de funções, segundo informou o hospital em nota, sem detalhar as medidas. “Nosso hospital está engajado em superar esse desafio e a prestar a assistência necessária nesses momentos críticos.” No Einstein, os cortes atingem ainda duas unidades de atenção primária e de medicina diagnóstica, que foram desativadas e realocadas em outros serviços da instituição. Segundo Sidney Klajner, presidente da instituição, ao mesmo tempo em que houve queda dos procedimentos de alta complexidade (por exemplo, cirurgias eletivas) o hospital investiu muito para se preparar para uma alta demanda de Covid-19, que também não aconteceu no setor privado. “Graças a esse investimento, foi possível transferir o excesso para o setor público. Hoje o Einstein está com um terço da capacidade de UTIs de São Paulo”, afirma o presidente. Segundo ele, recursos extras de equipamentos, como respiradores, e de material de proteção individual foram repassados para um hospital referência da prefeitura em tratamento da Covid-19, o M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein. São 514 leitos, dos quais cerca de 130 de UTI —podendo chegar a 234. “A cada dia a gente abre 10, 20 leitos, conforme a demanda”, explica. O Einstein também investiu em novos leitos no Hospital de Campo Limpo, no Vila Santa Catarina, no hospital de campanha do Pacaembu e em outro criado no próprio estacionamento do hospital, no Morumbi. Klajner diz que, em razão da queda de receita e da diminuição da demanda em muitos setores, como nos consultórios, nos ambulatórios, na medicina diagnóstica e nos centros cirúrgicos, foi preciso reduzir a jornada e, consequentemente, os salários. O pessoal da enfermagem foi o mais afetado pela medida. Um enfermeiro que prefere não ser identificado diz que todos os profissionais foram pegos de surpresa com o corte de salário. Ele ganha R$ 5.783 mensais. “Ficamos sem opção. Ou concordávamos com a redução ou seríamos dispensados. Tenho despesas fixas, boletos, financiamento habitacional. Está muito complicado lidar com isso tudo. Com medo do contágio e agora medo das dificuldades que vêm pela frente. Jamais passou minha cabeça passar por isso.” De acordo com Klajner, a parte do pessoal de enfermagem, de médicos, de fisioterapeutas, de nutricionistas, entre outros profissionais, que pôde ser deslocada para áreas hospitalares públicas sob gestão do Einstein o foi, sem redução de salário. Segundo ele, o hospital já colocou em prática um plano de retomada dos atendimentos, com separação de setores Covid-19 e não-Covid-19. Antes da pandemia, o Einstein fazia até 140 cirurgias por dia. Agora, não chegou ainda à metade desse número. Para Adelvânio Francisco Morato, presidente da FBH (Federação Brasileira de Hospitais), a situação dos hospitais privados está crítica em todo o país, com vários deles não só cortando salários, mas demitindo funcionários. “Os hospitais estão trabalhando com 20% a 30% da sua capacidade. Estão demitindo, antecipando férias, diminuindo salários.” A FBH, que reúne cerca de 4.000 pequenos e médios hospitais, ainda prepara um levantamento sobre essas perdas do segmento. Morato afirma que, fora de São Paulo, especialmente em estados do Norte e do Nordeste, os cortes estão acontecendo em uma velocidade ainda maior. “Se não aparecer alguma ajuda, vão fechar, não há outra saída”, diz. A ajuda esperada pelo setor pode vir por meio de uma linha de crédito especial do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) voltada a pequenos e médios hospitais. Yussif Ali Mere Júnior, presidente do Sindhosp (sindicato dos hospitais, clínicas e laboratórios do estado de São Paulo), diz que os hospitais do interior paulista também estão reduzindo salários de funcionários e tentando evitar ao máximo as demissões. “Precisamos voltar minimamente ao normal, retomar os atendimentos nas cidades onde a pandemia está sob controle. Campinas, Ribeirão Preto estão com leitos públicos e privados sobrando”, diz. Segundo ele, o setor de medicina diagnóstica também está em apuros. “Se não tem atendimento médico, não tem exames”, afirma ele. Até o fim de abril, a Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica) contabilizava queda de 70% nos exames de imagem, por exemplo. Nos laboratórios clínicos, o atendimento tinha caído, em média, 60% se comparado ao movimento registrado no mesmo período de 2019. Assim como os hospitais privados, a Abramed também busca alternativas como uma linha de crédito do BNDES para poder manter o quadro de funcionários e arcar com seus custos fixos. O setor tem feito campanhas voltadas à população no sentido de que ela não deve interromper tratamentos e nem a busca por diagnóstico, caso estejam sentindo sintomas de doenças, por medo de contágio do coronavírus. A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) também alertou sobre o risco da interrupção de tratamentos e disse que jamais recomendou a suspensão ou proibiu a realização de internações e cirurgias eletivas.

UOL NOTÍCIAS - ÚLTIMAS NOTÍCIAS/SÃO PAULO
Data Veiculação: 19/05/2020 às 05h22

Com explosão de casos de covid-19, demanda por leitos supera capacidade de hospitais; por isso, associações médicas criam regras, baseadas em chances de sobrevivência, para ajudar médicos a fazer escolhas difíceis. A explosão de casos de covid-19 no Brasil nas últimas semanas leva aqueles na linha de frente do combate à pandemia do novo coronavírus a passar por um dos piores cenários possíveis de sua profissão. O grande fluxo de pacientes fez as unidades de tratamento intensivo (UTIs) atingirem níveis perigosamente altos de ocupação e, em alguns casos, chegarem à lotação máxima. Muitas vezes, não há espaço para todos que precisam de atendimento, e os médicos precisam escolher quem vai para a UTI quando surge uma vaga. "A gente acaba escolhendo quem vai ter mais chances de sobreviver", diz a médica Andressa*, que trabalha na emergência de um dos maiores hospitais públicos de Fortaleza, no Ceará, o segundo Estado com o maior número de casos, atrás apenas de São Paulo. Formada há dez anos, Andressa diz que a falta de leitos de UTI é um problema crônico do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas isso se agravou com a pandemia, mesmo com o esforço de governos para aumentar a capacidade dos hospitais. "Os leitos mais do que dobraram, mas não conseguimos dar conta da demanda. Temos pacientes intubados na enfermaria, na emergência. Já teve paciente que ficou mais de duas horas rodando intubado em ambulância porque não tinha vaga", diz a médica. "Fazemos essa escolha (de quem vai para a UTI) todos os dias, é algo rotineiro. Mas não é fácil. Dá uma sensação de impotência muito grande, de que estamos lutando contra algo muito maior do que a gente." Além de ficar mais frequente na rede pública, esse dilema também está se tornando uma realidade onde até então não existia, a rede privada. A cardiologista Marina* diz que teve de tomar essa decisão com uma paciente de 90 anos depois que sua saúde piorou rapidamente ao ser internada em um grande hospital particular do Rio. A idosa precisava ir para a UTI, que estava quase lotada. E havia outros oito pacientes mais jovens em estado grave, recebendo um alto fluxo de oxigênio. Havia uma grande chance destes doentes precisarem ser intubados, mas não haveria vaga para eles se a paciente de Marina fosse para a UTI. Uma comissão de médicos optou por deixar a idosa sob cuidados paliativos, e ela morreu na madrugada seguinte. "Foi uma angústia muito grande, porque era uma pessoa que estava lúcida, não tinha outras doenças graves e havia expressado o desejo de viver", diz Marina. A médica diz que, antes da pandemia, isso não acontecia porque havia leitos de UTI suficientes. "A gente não precisava fazer essa 'escolha de Sofia'. Mas agora estamos vivendo cada vez mais isso. E é muito difícil também porque não somos treinados para tomar esse tipo de decisão, para priorizar quem tem mais chance de se recuperar porque é mais jovem ou saudável. A gente aprende que tem que salvar vidas." Associações médicas criaram regras para orientar essa decisão para ajudar os médicos a tomarem essas decisões com base em critérios científicos e uniformes, associações médicas brasileiras criaram protocolos de triagem de atendimento em UTIs quando houver um colapso do sistema de saúde. Um deles foi elaborado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com a Associação Brasileira de Medicina de Emergência, a Sociedade Brasileira de Gerontologia e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos. "Em uma situação de catástrofe, não queremos que essas escolhas sejam feitas em segredo, mas de forma clara e transparente, com critérios eticamente justificados e de acordo com o ordenamento jurídico e os valores brasileiros", afirma a médica Lara Kretzer, coordenadora da equipe responsável pelo protocolo divulgado neste mês pela Amib. "Queremos trazer esse assunto para o debate público e prestar contas de como esse processo está acontecendo em vez de varrer tudo para debaixo do tapete." O Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco (Cremepe) também elaborou seu próprio protocolo, que foi levado à público no final de abril. "Os médicos que estão na ponta, além de estarem sofrendo muito ao ver tanta gente morrendo, com a sobrecarga de trabalho e com o medo de contaminar seus familiares, precisam tomar decisões que podem gerar traumas graves", afirma Zilda Cavalcanti, diretora do Cremepe. "Se um profissional tem um respirador para três pacientes, ele não pode carregar sozinho o peso dessa escolha. Precisamos dar critérios para respaldar o médico e fazer com que essa decisão seja a mais justa possível." Os protocolos da Amib e do Cremepe se baseiam em uma análise das condições de saúde do paciente para determinar, por meio de um sistema de pontos, quem pode se beneficiar mais de um leito de UTI. Em ambos, é feita uma Avaliação Sequencial de Falência de Órgãos (Sofa, na sigla em inglês), em que é analisado o estado de seis sistemas básicos do organismo: respiratório, cardiovascular, hepático, de coagulação, renal e neurológico. Quanto pior for a condição do paciente, maior é a pontuação recebida. Também é analisado se o paciente tem outras doenças crônicas, as chamadas comorbidades, que são um fator de risco para quem tem covid-19. O Cremepe tem uma escala; nela, quanto pior for o quadro do paciente, mas alta será a pontuação. A Amib soma as pontuações de duas avaliações. Na primeira, é conferida uma pontuação única aos pacientes com expectativa de vida inferior a um ano. Depois, é medida a capacidade física e motora de uma pessoa naquele momento, um indicativo de quanto ela será capaz de responder ao tratamento. Novamente, a pontuação é maior conforme pior for a condição do doente. Ao final, são somados os pontos de cada avaliação, e o paciente com a menor pontuação recebe prioridade na vaga da UTI. O objetivo destes sistemas é identificar os casos em que a saúde de uma pessoa está tão comprometida que nem mesmo uma UTI conseguirá salvá-la ou quem não está tão doente em comparação a pacientes para os quais a UTI pode ser a diferença entre a vida e a morte. "Em um esgotamento do sistema de saúde, a ênfase passa a ser salvar o maior número de pessoas. Por isso, precisamos racionalizar o uso dos recursos", explica Kretzer. Cavalcanti ressalta, no entanto, que deixar de internar um paciente na UTI não significa abandoná-lo à própria sorte. "Gosto de uma frase que ouvi: 'Muitas pessoas vão para a UTI querendo garantir seu direito à saúde, mas, na verdade, querem garantir seu direito à esperança'. Mas, há casos em que o risco de morte de uma pessoa é altíssimo, e ela não vai se beneficiar da UTI. O melhor a fazer é proporcionar um fim de vida digno." Maximizar o ganho para a sociedade O médico Eduardo Leite, da comissão de terapia intensiva da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, diz que a falta de vagas de UTI por causa da pandemia de covid-19 já é uma realidade em algumas cidades do país e que, em uma situação assim, é preciso estabelecer regras melhores de atendimento. Normalmente, uma pessoa precisa ir para este tipo de unidade porque sua saúde está muito frágil e exige um acompanhamento bem próximo e uma resposta imediata da equipe médica em caso de piora. Ou ainda porque necessita de um equipamento de suporte à vida que só é oferecido na UTI, como é o caso dos respiradores. O atendimento é feito conforme a ordem de chegada, e não há critérios para exclusão de um paciente. "Mas, em um sistema hospitalar saturado, isso pode não ser o melhor, porque dar uma vaga para quem não tem muitas chances de sobreviver não é a forma mais eficiente de administrar o sistema de saúde", diz Leite. O médico Daniel Neves Forte, que é especializado em cuidados intensivos e paliativos, explica que, antes desta pandemia, não havia a necessidade, em países mais desenvolvidos, de fazer uma triagem de pacientes por causa de falta de vagas de UTI. "Esse era um problema inexistente para eles, que ficaram assustados com o esgotamento de leitos e correram atrás para desenvolver mecanismos de triagem", diz Forte, que é presidente do comitê de bioética do Hospital Sírio-Libanês. Mas isso já era uma realidade no Brasil por causa da precariedade do SUS. Isso levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a publicar, em 2016, uma resolução que estabelece cinco níveis de prioridade para admissão nas UTIs, que vão de pacientes com "alta probabilidade de recuperação" àqueles "sem possibilidade de recuperação". "Essa resolução já foi um grande passo à frente, mas ainda assim era muito subjetiva, baseada na interpretação feita pelo médico em cada caso", diz Forte. O médico avalia que os protocolos criados no Brasil representam um avanço, por apresentarem critérios mais objetivos que reduzem as chances de haver injustiças com esse tipo de escolha. 'Querem responsabilizar quem está na linha de frente?' Lara Kretzer, da Amib, diz que as regras desenvolvidas pela associação médica vão ser testadas cientificamente para verificar se atinge seus objetivos. "A partir disso, podemos ajustar o modelo para que ele cumpra a função de identificar o paciente que tem mais chance de sobreviver e diminuir o número de mortos em uma pandemia." A Amib já apresentou seu protocolo para a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) para que estas organizações avaliem os critérios e se posicionem sobre sua adoção. Nenhuma das duas fez isso até o momento. O CFM não respondeu ao pedido de entrevista da BBC News Brasil. A AMB diz que está avaliando o protocolo e não tem uma previsão de quando se manifestará. "Precisamos estar muito bem fundamentados para isso, porque essa crise vai passar, como outras já passaram, e as atitudes que nós tomarmos é que ficarão", diz Lincoln Lopes Ferreira, presidente da AMB. "Mas nada disso é novo. Denunciamos há muito tempo esse problema, que revela uma ineficiência de gestão crônica. Agora querem transferir a responsabilidade para quem está na linha de frente?" Kretzer diz que a elaboração de um protocolo não significa isentar o gestores de saúde de sua responsabilidade, porque o documento prevê que as regras só podem ser aplicadas depois de ser feito um esforço para ampliar a rede de atendimento. "Também não estamos jogando isso no colo do médico, pelo contrário. Estamos tentando tornar mais fácil e seguro o seu trabalho com critérios desenvolvidos por sociedades científicas e submetidos ao escrutínio de especialistas", diz Kretzer. A médica afirma ainda não ser possível ignorar que há problemas graves no sistema de saúde público do país, mas diz que comparar a falta de leitos crônica ao que ocorre em uma pandemia é "fazer uma confusão enorme". "Em uma situação normal, quando há um aumento na demanda, é possível repensar e ajustar a forma de trabalho. Mas estamos falando aqui de uma situação de catástrofe, em que, mesmo depois de aumentar o número de leitos, cancelar cirurgias eletivas e de outras medidas de contingência, o sistema continua não dando conta. Não podemos nos abster diante de uma situação assim, e não vai ajudar em nada minimizar o que está acontecendo." *O nome dos entrevistados foi alterado para preservar sua identidade.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 19/05/2020 às 03h00

Einstein e Sírio-Libanês fazem cortes de salários O hospital Albert Einstein cortou em 25% os salários e as jornadas de 33% dos seus 15 mil trabalhadores. No Sírio-Libanês, também houve reduções, saúde bs Einstein e Sírio-Libanês fazem corte de salários Assim como outros hospitais do país, instituições tiveram queda de receita por redução de procedimentos eletivos Cláudia Collucci são paulo Com 45% a menos de receita, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, cortou em 25% o salário e a jornada de trabalho de 33% dos seus 15 mil funcionários. A decisão, que também atinge outros hospitais privados e filantrópicos do país, vale por três meses e está amparada pela medida provisória 936, que dispõe sobre o programa de manutenção de emprego e renda para enfrentamentoda pandemia de Covid-19. No SírioLibanês, com 8.300 funcionários, também houve redução de jornada de trabalho e de salários, remanejamento entre áreas e re alocação de funções, segundo informou o hospital em nota, sem detalhar as medidas. “Nosso hospital está engajado em superar esse desafio e a prestar a assistência necessária nesses momentos críticos.” No Einstein, os cortes atingem ainda duas unidades de atenção primária e de medicina diagnostica, que foram desativadas e realocadas em outros serviços da instituição. Segundo Sidney Klajner, presidente da instituição, ao mesmo tempo em que houve queda dos procedimentos de alta complexidade (por exemplo, cirurgias eletivas) o hospital investiu muito para se preparar para uma alta demanda de Covid-19, que também não aconteceu no setor privado. “Graças a esse investimento, foi possível transferir o excesso para o setor público. Hoje o Einstein está com um terço da capacidade de UTIs de São Paulo”, afirma o presidente. Segundo ele, recursos extras de equipamentos, como respiradores, e de material de proteção individual foram repassados para um hospital referência da prefeitura em tratamento da Covid-19, o M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein. São 514 leitos, dos quais cerca de 130 de UTI —podendo chegar a 234. “A cada dia a gente abre 10,20 leitos, conforme a demanda”, explica. O Einstein também investiu em novos leitos no Hospital de Campo Limpo, no Vila Santa Catarina, no hospital de campanha do Pacaembu e em outro criado no próprio estacionamento do hospital, no Morumbi. Klajner diz que, em razão da queda de receita e da diminuição da demanda em muitos setores, como nos consultórios, nos ambulatórios, na medicina diagnostica e nos centros cirúrgicos, foi preciso reduzir a jornada e, consequentemente, os salários. O pessoal da enfermagem foi o mais afetado pela medida. Um enfermeiro que prefere não ser identificado diz que todos os profissionais foram pegos de surpresa com o corte de salário. Ele ganha R$ 5.783 mensais. “Ficamos sem opção. Ou coneordávamos com a redução ou seríamos dispensados. Tenho despesas fixas, boletos, financiamento habitacional. Está muito complicado lidar com isso tudo. Com medo do contágio e agora medo das dificuldades que vêm pela frente. Jamais passou minha cabeça passar por isso.” De acordo com Klajner, a parte do pessoal de enferma - gem, de médicos, de fisioterapeutas, de nutricionistas, entre outros profissionais, que ôde ser deslocada para áreas ospitalares públicas sob gestão do Einstein o foi, sem redução de salário. Segundo ele, o hospital já colocou em prática um plano de retomada dos atendimentos, com separação de setores Covid-19 e não-Covid-19. Antes da pandemia, o Einstein fazia até 140 cirurgias por dia. Agora, não chegou ainda à metade desse número. Para Adelvânio Francisco Morato, presidente da FBH (Federação Brasileira de Hospitais), a situação dos hospitais privados está crítica em todo o país, com vários deles não só cortando salários mas demitindo funcionários. “Os hospitais estão trabalhando com 20% a 30% da sua capacidade. Estão demitindo, antecipando férias, diminuindo salários.” A FBH, que reúne cerca de 4.000 pequenos e médios hospitais, ainda prepara um levantamento sobre essas perdas do segmento. Morato afirma que, fora de São Paulo, especialmente em estados do Norte e do Nordeste, os cortes estão acontecendo em uma velocidade ainda maior. “Se não aparecer alguma ajuda, vão fechar, não há outra saída”, diz. A ajuda esperada pelo setor pode vir por meio de uma linha de crédito especial do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) voltada a pequenos e médios hospitais. Yussif Ali Mere Júnior, presidente do Sindhosp (sindicato dos hospitais, clínicas e laboratórios do estado de São Paulo), diz que os hospitais do interior paulista também estão reduzindo salários de funcionários e tentando evitarão máximo as demissões. “Precisamos voltar minimamente ao normal, retomar os atendimentos nas cidades onde a pandemia está sob controle. Campinas, Ribeirão Preto estão com leitos públicos e privados sobrando”, diz. Segundo ele, o setor de medicina diagnostica também está em apuros. “Se não tem atendimento médico, não tem exames”, afirma ele. Até o fim de abril, a Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnostica) contabilizava queda de 70% nos exames de imagem, por exemplo. Nos laboratórios clínicos, o atendimento tinha caído, em média, 60% se comparado ao movimento registrado no mesmo período de 2019. Assim como os hospitais privados, a Abramed também busca alternativas como uma linha de crédito do BNDES para poder manter o quadro de funcionários e arcar com seus custos fixos. O setor tem feito campanhas voltadas à população no sentido de que ela não deve interromper tratamentos e nem a busca por diagnóstico, caso estejam sentindo sintomas de doenças, por medo de contágio do coronavírus. A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) também alertou sobre o risco da interrupção de tratamentos e disse que jamais recomendou a suspensão ou proibiu a realização de internações e cirurgias eletivas.

ÉPOCA ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 19/05/2020 às 05h4

A explosão de casos de covid-19 no Brasil nas últimas semanas leva aqueles na linha de frente do combate à pandemia do novo coronavírus a passar por um dos piores cenários possíveis de sua profissão. O grande fluxo de pacientes fez as unidades de tratamento intensivo (UTIs) atingirem níveis perigosamente altos de ocupação e, em alguns casos, chegarem à lotação máxima. Muitas vezes, não há espaço para todos que precisam de atendimento, e os médicos precisam escolher quem vai para a UTI quando surge uma vaga. "A gente acaba escolhendo quem vai ter mais chances de sobreviver", diz a médica Andressa*, que trabalha na emergência de um dos maiores hospitais públicos de Fortaleza, no Ceará, o segundo Estado com o maior número de casos, atrás apenas de São Paulo. Formada há dez anos, Andressa diz que a falta de leitos de UTI é um problema crônico do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas isso se agravou com a pandemia, mesmo com o esforço de governos para aumentar a capacidade dos hospitais. "Os leitos mais do que dobraram, mas não conseguimos dar conta da demanda. Temos pacientes intubados na enfermaria, na emergência. Já teve paciente que ficou mais de duas horas rodando intubado em ambulância porque não tinha vaga", diz a médica. "Fazemos essa escolha (de quem vai para a UTI) todos os dias, é algo rotineiro. Mas não é fácil. Dá uma sensação de impotência muito grande, de que estamos lutando contra algo muito maior do que a gente." Além de ficar mais frequente na rede pública, esse dilema também está se tornando uma realidade onde até então não existia, a rede privada. A cardiologista Marina* diz que teve de tomar essa decisão com uma paciente de 90 anos depois que sua saúde piorou rapidamente ao ser internada em um grande hospital particular do Rio. A idosa precisava ir para a UTI, que estava quase lotada. E havia outros oito pacientes mais jovens em estado grave, recebendo um alto fluxo de oxigênio. Havia uma grande chance destes doentes precisarem ser intubados, mas não haveria vaga para eles se a paciente de Marina fosse para a UTI. Uma comissão de médicos optou por deixar a idosa sob cuidados paliativos, e ela morreu na madrugada seguinte. "Foi uma angústia muito grande, porque era uma pessoa que estava lúcida, não tinha outras doenças graves e havia expressado o desejo de viver", diz Marina. A médica diz que, antes da pandemia, isso não acontecia porque havia leitos de UTI suficientes. "A gente não precisava fazer essa 'escolha de Sofia'. Mas agora estamos vivendo cada vez mais isso. E é muito difícil também porque não somos treinados para tomar esse tipo de decisão, para priorizar quem tem mais chance de se recuperar porque é mais jovem ou saudável. A gente aprende que tem que salvar vidas." Associações médicas criaram regras para orientar essa decisão para ajudar os médicos a tomarem essas decisões com base em critérios científicos e uniformes, associações médicas brasileiras criaram protocolos de triagem de atendimento em UTIs quando houver um colapso do sistema de saúde. Um deles foi elaborado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com a Associação Brasileira de Medicina de Emergência, a Sociedade Brasileira de Gerontologia e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos. "Em uma situação de catástrofe, não queremos que essas escolhas sejam feitas em segredo, mas de forma clara e transparente, com critérios eticamente justificados e de acordo com o ordenamento jurídico e os valores brasileiros", afirma a médica Lara Kretzer, coordenadora da equipe responsável pelo protocolo divulgado neste mês pela Amib. "Queremos trazer esse assunto para o debate público e prestar contas de como esse processo está acontecendo em vez de varrer tudo para debaixo do tapete." O Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco (Cremepe) também elaborou seu próprio protocolo, que foi levado à público no final de abril. Pandemia fez a capacidade de UTIs se esgotar em vários hospitais do país Foto: Reuters "Os médicos que estão na ponta, além de estarem sofrendo muito ao ver tanta gente morrendo, com a sobrecarga de trabalho e com o medo de contaminar seus familiares, precisam tomar decisões que podem gerar traumas graves", afirma Zilda Cavalcanti, diretora do Cremepe. "Se um profissional tem um respirador para três pacientes, ele não pode carregar sozinho o peso dessa escolha. Precisamos dar critérios para respaldar o médico e fazer com que essa decisão seja a mais justa possível." Os protocolos da Amib e do Cremepe se baseiam em uma análise das condições de saúde do paciente para determinar, por meio de um sistema de pontos, quem pode se beneficiar mais de um leito de UTI. Em ambos, é feita uma Avaliação Sequencial de Falência de Órgãos (Sofa, na sigla em inglês), em que é analisado o estado de seis sistemas básicos do organismo: respiratório, cardiovascular, hepático, de coagulação, renal e neurológico. Quanto pior for a condição do paciente, maior é a pontuação recebida. Também é analisado se o paciente tem outras doenças crônicas, as chamadas comorbidades, que são um fator de risco para quem tem covid-19. O Cremepe tem uma escala; nela, quanto pior for o quadro do paciente, mas alta será a pontuação. A Amib soma as pontuações de duas avaliações. Na primeira, é conferida uma pontuação única aos pacientes com expectativa de vida inferior a um ano. Depois, é medida a capacidade física e motora de uma pessoa naquele momento, um indicativo de quanto ela será capaz de responder ao tratamento. Novamente, a pontuação é maior conforme pior for a condição do doente. Ao final, são somados os pontos de cada avaliação, e o paciente com a menor pontuação recebe prioridade na vaga da UTI. O objetivo destes sistemas é identificar os casos em que a saúde de uma pessoa está tão comprometida que nem mesmo uma UTI conseguirá salvá-la ou quem não está tão doente em comparação a pacientes para os quais a UTI pode ser a diferença entre a vida e a morte. "Em um esgotamento do sistema de saúde, a ênfase passa a ser salvar o maior número de pessoas. Por isso, precisamos racionalizar o uso dos recursos", explica Kretzer. Pandemia fez a capacidade de UTIs se esgotar em vários hospitais do país Foto: Reuters Cavalcanti ressalta, no entanto, que deixar de internar um paciente na UTI não significa abandoná-lo à própria sorte. "Gosto de uma frase que ouvi: 'Muitas pessoas vão para a UTI querendo garantir seu direito à saúde, mas, na verdade, querem garantir seu direito à esperança'. Mas, há casos em que o risco de morte de uma pessoa é altíssimo, e ela não vai se beneficiar da UTI. O melhor a fazer é proporcionar um fim de vida digno." Maximizar o ganho para a sociedade O médico Eduardo Leite, da comissão de terapia intensiva da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, diz que a falta de vagas de UTI por causa da pandemia de covid-19 já é uma realidade em algumas cidades do país e que, em uma situação assim, é preciso estabelecer regras melhores de atendimento. Normalmente, uma pessoa precisa ir para este tipo de unidade porque sua saúde está muito frágil e exige um acompanhamento bem próximo e uma resposta imediata da equipe médica em caso de piora. Ou ainda porque necessita de um equipamento de suporte à vida que só é oferecido na UTI, como é o caso dos respiradores. O atendimento é feito conforme a ordem de chegada, e não há critérios para exclusão de um paciente. "Mas, em um sistema hospitalar saturado, isso pode não ser o melhor, porque dar uma vaga para quem não tem muitas chances de sobreviver não é a forma mais eficiente de administrar o sistema de saúde", diz Leite. Por isso, o pneumologista, que não participou da elaboração dos protocolos criados pela Amib e pelo Cremepe, considera que as regras elaboradas por estas associações podem ser fundamentais para que esta escolha não seja uma responsabilidade exclusiva do médico na linha de frente. "Essa abordagem pode maximizar o ganho médio para a sociedade, ainda que seja difícil aplicar esse protocolo na prática. Ao menos, isso ajuda a aliviar o peso emocional e psicológico desta decisão em que você precisa dar mais chance a uma pessoa em detrimento de outra, que você praticamente condena à morte", afirma Leite. O médico Daniel Neves Forte, que é especializado em cuidados intensivos e paliativos, explica que, antes desta pandemia, não havia a necessidade, em países mais desenvolvidos, de fazer uma triagem de pacientes por causa de falta de vagas de UTI. "Esse era um problema inexistente para eles, que ficaram assustados com o esgotamento de leitos e correram atrás para desenvolver mecanismos de triagem", diz Forte, que é presidente do comitê de bioética do Hospital Sírio-Libanês. Mas isso já era uma realidade no Brasil por causa da precariedade do SUS. Isso levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a publicar, em 2016, uma resolução que estabelece cinco níveis de prioridade para admissão nas UTIs, que vão de pacientes com "alta probabilidade de recuperação" àqueles "sem possibilidade de recuperação". "Essa resolução já foi um grande passo à frente, mas ainda assim era muito subjetiva, baseada na interpretação feita pelo médico em cada caso", diz Forte. O médico avalia que os protocolos criados no Brasil representam um avanço, por apresentarem critérios mais objetivos que reduzem as chances de haver injustiças com esse tipo de escolha. 'Querem responsabilizar quem está na linha de frente?' Lara Kretzer, da Amib, diz que as regras desenvolvidas pela associação médica vão ser testadas cientificamente para verificar se atinge seus objetivos. "A partir disso, podemos ajustar o modelo para que ele cumpra a função de identificar o paciente que tem mais chance de sobreviver e diminuir o número de mortos em uma pandemia." A Amib já apresentou seu protocolo para a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) para que estas organizações avaliem os critérios e se posicionem sobre sua adoção. Nenhuma das duas fez isso até o momento. O CFM não respondeu ao pedido de entrevista da BBC News Brasil. A AMB diz que está avaliando o protocolo e não tem uma previsão de quando se manifestará. "Precisamos estar muito bem fundamentados para isso, porque essa crise vai passar, como outras já passaram, e as atitudes que nós tomarmos é que ficarão", diz Lincoln Lopes Ferreira, presidente da AMB. "Mas nada disso é novo. Denunciamos há muito tempo esse problema, que revela uma ineficiência de gestão crônica. Agora querem transferir a responsabilidade para quem está na linha de frente?" Kretzer diz que a elaboração de um protocolo não significa isentar os gestores de saúde de sua responsabilidade, porque o documento prevê que as regras só podem ser aplicadas depois de ser feito um esforço para ampliar a rede de atendimento. "Também não estamos jogando isso no colo do médico, pelo contrário. Estamos tentando tornar mais fácil e seguro o seu trabalho com critérios desenvolvidos por sociedades científicas e submetidos ao escrutínio de especialistas", diz Kretzer. A médica afirma ainda não ser possível ignorar que há problemas graves no sistema de saúde público do país, mas diz que comparar a falta de leitos crônica ao que ocorre em uma pandemia é "fazer uma confusão enorme". "Em uma situação normal, quando há um aumento na demanda, é possível repensar e ajustar a forma de trabalho. Mas estamos falando aqui de uma situação de catástrofe, em que, mesmo depois de aumentar o número de leitos, cancelar cirurgias eletivas e de outras medidas de contingência, o sistema continua não dando conta. Não podemos nos abster diante de uma situação assim, e não vai ajudar em nada minimizar o que está acontecendo." *O nome dos entrevistados foi alterado para preservar sua identidade.