Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

VEJA SAÚDE/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 17/05/2020 às 03h00

A CORRIDA PELA CURA > Descobrir remédios e vacinas eficazes contra o coronavírus se transformou na maior prioridade de universidades, farmacêuticas e governos mundo afora. Apuramos o que está na frente nessa largada, os obstáculos na pista e as promessas de medalha texto CHLOE PINHEIRO design MAY TANFERRI fotos RICARDO DAVINO Imagine a prova mais esperada da Olimpíada, televisionada para o planeta inteiro. Ela começa com um atleta à frente, que de repente perde o fôlego. Outros concorrentes se aproximam, ultrapassam e agora seguem lado a lado. Alguns já não acompanham ou desistem da prova. Ainda está nebuloso vislumbrar o pódio. E, quando houver um vencedor, é bem provável que ele não cruze a linha de chegada sozinho. As previsões da ciência são diferentes das esportivas, mas é mais ou menos assim que enxergamos a corrida por tratamentos e vacinas contra a Covid-19. Nunca o mundo assistiu em tempo real ao trabalho de tanta gente para derrotar uma doença. E o maior desafio é a busca de respostas rápidas, num ritmo oposto ao da dinâmica tradicional e criteriosa das pesquisas. Nessa maratona contra o tempo e o sofrimento dos pacientes, duas medicações com potencial, a cloroquina e a hidroxicloroquina, foram alçadas cedo demais ao posto de favoritas. Experimentos de laboratório feitos em células atestaram que esses compostos usados contra malária e doenças autoimunes inibiam a replicação do vírus Sars-CoV-2. Em março, uma pesquisa francesa com 36 portadores de Covid-19 indicou que todos eles haviam se curado com a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina, um antibiótico. O achado foi o estopim para a fama, mas logo recebeu duras críticas: não havia um grupo controle tomando outro remédio ou placebo (pílulas sem princípio ativo) como comparativo, tampouco o trabalho fora revisado por cientistas independentes, um rito clássico para garantir a confiança nos resultados. Semanas depois, estudos conduzidos na China e na Europa colocaram dúvidas sobre o poder de fogo da cloroquina — e ainda apontaram efeitos colaterais sérios, como arritmias. “O assunto virou uma discussão midiática, mas ainda não sabemos a real eficácia dessa abordagem. Das centenas de trabalhos feitos até agora, parte sugere que funciona bem, a mesma quantidade mostra que não e outra parcela diz ainda que ela faz mal”, analisa Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Eistein, em São Paulo, que participa da Coalizão Covid Brasil, aliança de instituições nacionais que investiga tratamentos contra a infecção. © CLOROQUINA E HIDROXICLOROQUINA O que são Dois medicamentos parecidos e utilizados há décadas contra malária e doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide. Alguns governantes e profissionais os alçaram precocemente a solução do problema. Como agem alteram o pH no interior das células humanas, o que torna o ambiente desfavorável para a replicação do vírus. Também parecem interferir nos receptores celulares utilizados pelo Sars-CoV-2 como porta de entrada. O que sabe a ciência Relatos de caso e estudos clínicos mostram redução da carga viral especialmente junto à azitromicina, mas outros dizem que não faz diferença na recuperação da Covid-19. Ensaios maiores trarão respostas até o meio do ano. Para quem antes receitadas aos casos graves, hoje são administradas também em infectados com sintomas moderados a critério médico ou dentro de estudos. Mas há risco de eventos adversos graves, sobretudo ao coração. Além da hidroxicloroquina, a coalizão irá testar outra linha promissora de medicamentos, os imunomoduladores, que interferem na reação do corpo ao vírus. A droga escolhida é a dexametasona, anti-inflamatório da classe dos corticoides, que já demonstrou efeito contra outras formas de síndrome do desconforto respiratório agudo — uma das piores evoluções da Covid-19. A lógica por trás é a seguinte: qualquer infecção desperta no organismo uma inflamação. Daí vêm sintomas clássicos como febre e dor. Mas, com o coronavírus, algumas pessoas produzem uma “tempestade inflamatória” — e, aí, o tiro do corpo pode sair pela culatra. “Pacientes com a forma mais grave da doença têm uma resposta exacerbada do sistema imune, que acaba atacando o próprio organismo”, explica Alexandre Biasi, superintendente de pesquisa do HCor, em São Paulo, que também participa da Coalizão Covid Brasil. Além dos corticoides, outros fármacos podem regular a inflamação fora de controle, caso dos anticorpos monoclonais, medicamentos injetáveis mais modernos e capazes de bloquear moléculas inflamatórias específicas. Um deles, o tocilizumabe, demonstrou reduzir rapidamente a febre e melhorar a função respiratória dos acometidos pela doença. “Nosso desafio é entender quem terá essa reação, mas sabemos que ela é importante para explicar, por exemplo, por que certos nonagenários se recuperam e jovens precisam de terapia intensiva”, conta a médica Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora da UTI da BP A Beneficência Portuguesa de São Paulo, outro membro da coalizão. Na rota pela cura, a Organização Mundial da Saúde (OMS) capitaneia um estudo global, o Solidarity, em parceria com instituições como a brasileira Fiocruz. Além de remédios com efeito anti-inflamatório, o projeto testará diferentes esquemas com antivirais. São drogas já utilizadas para deter outros vírus, mas potencialmente tóxicas quando usadas em longo prazo (basta pensar no tratamento do HIV). Fora que só inibir a multiplicação do vírus não é garantia de recuperação. “O antiviral pode ajudar, mas o tratamento também precisa minimizar problemas como a reação inflamatória e os danos aos tecidos”, diz Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia. © 46 VEJA SAÚDE MAIO 2020 anticorpos O que são Fármacos criados originalmente para combater outros vírus em si. Hoje são mais estudados o lopinavir e o atazanavir, que atuam contra o HIV, o remdesivir, feito para o ebola, e produtos que miram a influenza, da gripe. Como agem A ideia de praticamente todos é bloquear alguma etapa da replicação do vírus. O mecanismo é semelhante entre diferentes famílias virais: o patógeno se apodera da célula do hospedeiro e produz um monte de cópias. O que sabe a ciência em laboratório, funcionaram bem. Mas os testes clínicos apontam resultados contraditórios. O remdesivir é o que parece ter se saído melhor até aqui e foi aprovado para uso experimental nos Estados Unidos. Para quem por enquanto são usados em caráter de pesquisa no exterior. No Brasil, os médicos podem receitar o tamiflu, contra a influenza, para pacientes com suspeita de Covid-19 até que se exclua o diagnóstico de gripe. inomoduladores VEJA SAÚDE MAIO 2020 O que são Medicações que regulam a resposta da imunidade ante o vírus. Fazem parte anti-inflamatórios do tipo corticosteroides, anticorpos monodonais e drogas como o interferon, utilizado na hepatite C. Como agem A depender do tipo, podem reduzir a inflamação no geral, bloquear moléculas inflamatórias especificas ou estimular a atividade de defesa da própria célula atacada para impedir a replicação do vírus. Nada categórico por ora. Corticoides já foram estudados para síndrome do desconforto respiratório agudo no passado, mas as evidências disponíveis para Covid-19 são consideradas de qualidade baixa e moderada. Para quem nos hospitais, são usados em casos graves ou como parte das pesquisas. Há momento certo para entrarem em jogo. No início do tratamento, corticoides podem suprimir demais as defesas, liberando passagem ao vírus. O que a ciência sabe há indícios de melhora na evolução e na taxa de alta com o plasma de convalescente, que tem poucos efeitos colaterais. Os anticorpos neutralizantes de laboratório estão em construção e ainda não passaram por testes. Para quem O plasma de convalescente só foi testado em indivíduos com quadros críticos. A Clínica Mayo, nos Estados Unidos, avalia agora a possibilidade de fazer a transfusão mais cedo, nos primeiros dias de internação. anterais 0, ANTICORPOS O que são Como agem O organismo precisa de um tempo para fabricar seus próprios anticorpos contra um novo agressor. Essa estratégia já os entrega prontos, mas com sobrevivência limitada dentro do corpo. O que sabe a ciência Falamos de duas abordagens: o plasma de convalescente, que oferece anticorpos em um soro extraído do sangue de recuperados da Covid-19 para pacientes críticos; e anticorpos criados em laboratório. 48 VEJA SAÚDE MAIO 2020 A MARATONA DAS VACINAS Quem pesquisa O método se vale da informação genética do vírus e é investigado por farmacêuticas multinacionais e empresas de biotecnologia. Qual é a tecnologia usa só o RNA mensageiro do virus, molécula que traduz a informação genética em proteínas. Uma espécie de receita de bolo, só que de fabricação de pedaços virais. Não há vacinas semelhantes disponíveis atualmente. Como atua induz nossas células a reproduzir somente a proteína que fica na cobertura do vírus e é utilizada em suas invasões. Com isso, o corpo passa a reconhecer o intruso das próximas vezes que cruzar com ele ejá sabe se defender. Previsão de chegada A Pfizer, uma das companhias que investem nessa linha, prevê que, com resultados positivos, poderá iniciar a produção no final de 2020. — ORITO Fase 1 Fase 2 Fase 3 DA CIÊNCIA Após testes positivos O estudo inclui de A pesquisa avalia o impacto entenda o fluxo de com células e animais em algumas centenas a mil em milhares de pacientes em pesquisa convencional laboratório, começa a fase indivíduos. É o momento mais de uma instituição, pôr para validar remédios clínica. Na primeira etapa, de obter mais dados de um período de até dez anos. 1 e vacinas e como participam até 100 voluntários. segurança e começar a Os resultados são enviados apandemiapode O foco maior é a segurança averiguar a eficácia em a órgãos técnicos (Anvísa, flexibilizá-lo do composto avaliado e os pacientes com determinada no Brasil; PDA, nos EUA) para ajuste de dosagem. doença ou condição. aprovação do produto. Quem pesquisa A sigla faz referência ao termo em inglês virus-likeparticles, estratégia estudada pelo InCor-USP e por laboratórios americanos. Quem pesquisa um consórcio entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Fiocruz, a USP e o Instituto Butantan, em São Paulo Qual é a tecnologia Cientistas criam uma molécula semelhante a uma casquinha que imita o vírus por fora, mas é vazia por dentro. A versão brasileira pretende usar áreas específicas da proteína responsável pela entrada do patógeno nas células. Qual é a tecnologia A técnica emprega o vírus influenza, da gripe, atenuado e geneticamente modificado, para que contenha em sua superfície pedaços da proteína do coronavírus que lhe garante a conexão com as células. Como atua A meta é induzir duas respostas diferentes: a produção de células de defesa do tipo CD4, importantes para a fabricação de anticorpos, e as CD8, que reconhecem e destroem outras células já infectadas. Como atua estimularia a produção de anticorpos que freiam o vírus aderindo àquelas proteinas. Espera-se que uma única dose previna tanto a gripe quanto a Covid-19 e a vacina seja reaplicada de tempos em tempos. Previsão de chegada Testes com humanos devem começar a ser feitos entre o final deste ano e o início de 2021. Previsão de chegada Estudos clínicos devem ocorrer entre o segundo semestre de 2021 e 2022. Depois de o medicamento ou a vacina receber aval das agências, estudos de acompanhamento são realizados para checar a segurança em longo prazo e detectar eventuais efeitos colaterais tardios. Em tempos de Covid Empresas estão realizando simultaneamente as fases I e 2, com aprovação das entidades regulaforias. testando fórmulas já consagradas em outros contextos e se preparando desde já para a produção em massa. Outras categorias de medicamentos também estão no alvo de hospitais e centros de pesquisa. É o caso de vermífugos e de anticoagulantes — estes últimos atuam contra um efeito secundário da Covid-19, a formação de microtrombos nos pulmões e coágulos nas artérias. Algo que acelera a busca dos candidatos a terapia é o reposicionamento de remédios já aprovados para outras condições, o que permite eliminar etapas do rito de análise e aprovação de fármacos. Uma medicação nova, concebida especificamente contra o coronavírus, pode demorar mais de uma década para nascer. “Quanto mais drogas prontas descobrirmos, melhor”, afirma o biólogo Lúcio Freitas, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), enquanto dirige até Campinas para levar brigadeiros à sua equipe, que vai virar mais uma madrugada em um mega esforço para testar até 4 mil princípios ativos por semana contra o Sars-CoV-2. Aqueles que demonstram ação in vitro (em células) passam por novos estudos até chegar a gente como a gente. “O que se observa nessa primeira etapa é muito diferente daquilo que acontece quando um humano toma um comprimido”, pondera Luciano Cesar Azevedo, superintendente de ensino do Hospital Sírio-Libanês, também parte da Coalizão. Pode levar meses ou anos para que o efeito ou a dosagem sejam delimitados. Os especialistas ouvidos por VEJA SAÚDE visualizam um futuro de múltiplas opções terapêuticas, definidas de acordo com as características do paciente. Queremos vacina! Enquanto a jornada pelo tratamento segue seu rumo, outra corrida se desenrola: a dos imunizantes. “É a nossa única arma para realmente evitar a transmissão do vírus e pandemias como essa”, defende o virologista Edison Luiz Durigon, professor do ICB-USP. “São mais de 100 tipos em desenvolvimento, e nossa expectativa é ter a vacina ideal em até dois anos”, conta o imunologista Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP e líder da pesquisa com uma das candidatas brasileiras. O médico recorda que a vacina mais rápida da história, para o ebola, levou cinco anos para ficar pronta. Agora é torcer para que os cientistas quebrem esse novo recorde. • VEJA SAÚDE MAIO 2020

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 17/05/2020 às 03h00

Compras de equipamentos têm fraudes pelo mundo Dispensa de licitação pela pandemia leva a irregularidades em vários países Patrícia Campos Mello são Paulo Não foi só no Brasil que as compras emergenciais de respiradores e equipamentos de proteção contra a corona vírus deram origem a um festival de irregularidades. Em países da Europa, África e nos Estados Unidos, houve inúmeros episódios de compras superfaturadas sem licitação, entrega de produtos com defeito e fornecedores descumprindo contratos. Uma fazenda de framboesas chamada Silver Raspberry (Framboesa prateada) recebeu 5,4 milhões de euros (R$ 34 milhões) do governo da Bósnia para importar cem respiradores da China e equipar os hospitais do país. Cada respirador saiu por cerca de R$ 340 mil, muito acima do preço normalmente cobrado: mesmo em meio à escassez de equipamentos e à disputa entre países, o aparelho dificilmente custa mais de R$ 150 mil. Para completar, os ventiladores não eram adequados para UTIs que tratam pacientes graves com a Covid-19 —o modelo era para uso em ambulâncias. O dono da fazenda e processadora de frutas Framboesa Prateada é o apresentador de TV Fikret Hodzic, que comanda o programa “Você também pode ser uma estrela”. Ele negou ter cobrado preços superfaturados e disse que usou conexões na China para empreender o que ele chamou de “missão humanitária”. Esses desvios consomem parte do auxílio humanitário recebido pelo país —no mês passado, o FMI aprovou pacote de ajuda emergencial de US$ 361 milhões (R$ 2,1 bilhões) para a Bósnia, que se somam aos 80 milhões de euros (R$ 470 milhões) da Comissão Européia. Como se trata de uma emergência, muitos governos precisam eliminar licitações e outros procedimentos burocráticos para acelerar a compra dos equipamentos. Mas, segundo Guilherme France, coordenador de pesquisas da Transparência Internacional no Brasil, isso torna as compras muito vulneráveis à corrupção. Existe enorme disputa entre países e até estados dentro do mesmo país para comprar. Esse excesso de demanda já gera um aumento nos preços. Os gestores públicos são pressionados a aceitar condições extraordinárias —como pagamento adiantado e contrato sem licitação— que abrem caminho para abusos. No Brasil, acorrida pela importação de respiradores já provocou a queda de secretários, prisões de servidores públicos e de empresários. No Sitio de janeiro, o antigo número dois da Secretaria de Saúde foi preso preventivamente em 7 de maio com mais um servidor e três empresários sob suspeita de crimes na aquisição de equipamentos. Em Roraima e em Santa Catarina, secretários de Saúde foram exonerados sob suspeita de irregularidades. Em São Paulo, compras de ventiladores são investigadas. Um dos problemas, segundo France, é que no Brasil não houve centralização das compras, o que poderia ter tomado essas operações mais eficientes e menos sujeitas a fraudes. O número elevado de diferentes compradores acaba transformando as vendas em disputas, além de tomar mais difícil a fiscalização. “Países que centralizaram as compras de forma transparente, com controles, conseguiram ter processo mais harmônico". Segundo Aris Georgopoulos, professor de direito na Universidade de Nottingham e integrante do grupo de pesquisa de compras governamentais, será necessário, após a pandemia, fazer um esforço de responsabilização. “Será preciso checar todos os contratos e produtos entregues para detectar erros e fraudes; precisamos aprender com tudo isso para estarmos mais bem preparados em uma próxima vez.” Na Romênia, a empresa BSG Business Select, cuja especialidade era aromaterapia e outras terapias alternativas, fechou contrato de 860 mil euros (R$ 5 milhões) para fornecer ao governo máscaras e macacões de proteção. Segundo o OCCRP (Projeto de Jornalismo sobre Crime Organizado e Corrupção), a empresa comprou os produtos na Turquia e vendeu ao governo com margem de lucro de 40%. Para completar, metade das máscaras foram parar no lixo, porque não se fixavam de forma correta sobre o nariz. O ministro da economia da Eslovênia, Zdravko Pocivalsek, foi acusado de tentar favorecer uma empresa em um contrato para compra de equipamento de proteção individual. Um “whjstleblower” disse que o ministro tentou favorecer a empresa Geneplanet em um contrato de 8 milhões de euros (R$ 50 milhões), o equivalente a 150% do faturamento da empresa em 2018. Na África, milhões em ajuda humanitária já tinham sido desviados durante a epidemia de Ebola entre 2014 e 2016. Na pandemia de Covid-19, começam a surgir relatos de irregularidades. No início de abril, quatro altos funcionários do governo de Uganda foram presos após superfaturar alimentos destinados a populações vulneráveis à Covid-19. Mas o problema não se limita a países em desenvolvimento. A Agência Federal de Administração de Emergências dos EUA (Fema, na sigla em inglês) cancelou nesta semana contrato de US$ 55,5 milhões (R$ 324 milhões) para fornecimento de máscaras por uma empresa chamada Panthera. A Panthera foi escolhida sem licitação para fornecer o insumo, apesar de nunca ter trabalhado na área e de sua controladora estar em concordata. A Fema cancelou a compra porque a Panthera não entregou no prazo. Segundo o jornal Wall Street Journal, várias compras emergenciais nos EUA foram feitas sem licitação e alguns fornecedores não entregaram máscaras no prazo. “Se alguma coisa dá errado no Brasil, na Grécia ou na Itália, a primeira reação é dizer que houve corrupção; se algo dá errado no Reino Unido ou na Alemanha, partem do pressuposto que foi apenas um erro —não é sempre assim”, diz Georgopoulos. O especialista cita como bom exemplo o projeto de compras unificadas implementado pela UE durante a pandemia para adquirir máscaras, luvas, óculos, aventais, testes e ventiladores. Além disso, há mecanismo para pegar equipamentos em países onde há excesso e encaminhar para onde faltam. Uniformizar a lista dos insumos, para que não se adquiram equipamentos fora de especificações; e ter lista de fornecedores aprovados são algumas das medidas que reduzem fraudes. “Mas isso demanda grande concerto entre as diferentes esferas do governo que, neste momento, não existe no Brasil”, diz France. Para Christopher Yukins, professor de Compras Governamentais da Faculdade de Direito da Universidade George Washington, uma das primeiras providências é vetar fornecedores que não tenham histórico na área. “Além disso, é preciso estabelecer cooperação entre agências internacionais, para intercâmbio de informações sobre fornecedores, e formar consórcios para fazer as compras de forma mais organizada”, diz. Tire suas dúvidas sobre a corona vírus A Folha recebe perguntas de leitores pelo e-mail dúvidas corona vírus @grupofolha.com.br PROTEÇÃO Tomei a vacina da gripe e fiz o teste rápido para Covid-19. A vacina pode alterar 0 resultado? Segundo Celso Granato, infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury, a vacina da gripe pode alterar, durante 30 dias, a detecção dos anticorpos IgM, que aparecem na fase aguda da infecção — mas isso é pouco comum. Granato diz que a alteração foi observada em menos de 10% dos exames, segundo experimento com pacientes no Hospital Sírio-Libanês. Outro fator que pode interferir na detecção dos anticorpos IgM é mononucleose recente. A doença ataca especificamente as células que produzem anticorpos. Granato diz, contudo, que não houve nenhum caso encontrado até 0 momento nos hospitais em que o laboratório atua. 0 infectologista completa que, se existir alteração no IgM, o resultado pode ser um falso positivo. Mas o IgG, que denota memória de infecção passada, não é afetado pela vacina. O vírus pode entrar nos olhos por meio do ar, porgotículas com o SarsCoV-2 que estejam em suspensão? E as lágrimas, são vias de transmissão? Estudo apontou que 0 Sars-CoV-2 pode permanecerem suspensão no ar na forma de aerossóis por até três horas após uma pessoa infectada espirrar ou tossir. Não há, no entanto, evidências de que essas partículas possam entrar no organismo pelos olhos. Segundo Thais Guimarães, infectologista do Hospital das Clínicas e do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, os olhos se tornam via de transmissão ao serem tocados após espirrar ou coçar 0 nariz, ou após tocar em superfície contaminada. Em hospitais, profissionais de saúde estão mais expostos e usam óculos de proteção, uma vez que a intubação libera partículas aerossóis no ar, mas pessoas comuns não têm necessidade de usar o artefato, explica. A infectologista afirma que não há nenhum relato da permanência do vírus em lágrimas. Ana Bottallo Carregamento de máscaras da China chega ao aeroporto de Brasília; países e estados disputam a compra de equipamentos Danieizukko -8.abr.20/inframerica/Reutere

G1/NACIONAL
Data Veiculação: 17/05/2020 às 09h18

Diante de um vírus que trouxe consigo mais perguntas do que respostas, as famílias de milhares de pessoas com síndrome de Down no Brasil estão vivendo dias de angústia pelas incógnitas quanto aos efeitos da Covid-19 nessa população, além de mudanças drásticas no dia a dia de terapias e ensino por conta do isolamento social. Ainda que em comunicados recentes do Ministério da Saúde a síndrome de Down não apareça explicitamente como um fator de risco, profissionais de saúde e famílias que lidam diariamente com a trissomia do cromossomo 21 (outro nome dado à síndrome, de natureza genética e causada pela existência de um cromossomo a mais) estão considerando que este é, sim, um grupo de risco. Isso porque é significativa a parcela de pessoas com síndrome de Down que nascem com comprometimentos no coração, pulmão e sistema imunológico, e também que desenvolvem diabetes e obesidade — todas essas condições consideradas fatores de risco para a Covid-19, explica o pediatra Fábio Watanabe, dos Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um dos organizadores de um site informativo recém-lançado sobre Covid-19 e síndrome de Down. "Independentemente do número em si, todos os estudos concordam que [essas condições] são mais frequentes na síndrome de Down. Aproximadamente metade das crianças com a síndrome têm cardiopatias congênitas. A obesidade, diabetes e alterações no sistema imunológico também são muito mais frequentes nesta população." "Mas já que estamos falando de fatores risco, é importante falar do outro lado disso: se a pessoa não tem essas comorbidades, possivelmente o risco dela seja semelhante ou pouco maior do que a pessoa que não tem síndrome de Down. É preciso olhar caso a caso. As famílias tendem a estar muito estressadas neste momento." Para ajudar, o site — criado em uma parceria da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, do Instituto Alana e do Projeto Serendipidade, e com contribuição técnica, além de Watanabe, do geriatra Marcelo Altona, do hospital Albert Einstein (SP) — traz perguntas e respostas e material de apoio sobre a Covid-19 e a síndrome de Down. O site explica, por exemplo, que a transmissão do coronavírus acontece da mesma maneira para pessoas com ou sem síndrome de Down — por isso, para todos, as medidas preventivas mais importantes continuam sendo a higienização e isolamento social. Para bebês e crianças, tudo indica até agora que os sintomas daqueles com a trissomia 21 são similares a quadros respiratórios na infância em geral, como tosse, coriza, febre, e a possivelmente dor de garganta, vômito e diarreia. Mas o que pode mudar para aqueles com a síndrome é sua percepção e verbalização sobre alterações no corpo, por isso as famílias devem estar ainda mais atentas a sintomas graves, como desconforto respiratório, gemência, movimentos respiratórios mais frequentes e intensos, ou até rebaixamento do nível de consciência. Procedimentos de higiene pessoal, como lavar as mãos, talvez exijam também a atenção e participação de uma outra pessoa. Ainda não há estudos publicados sobre a evolução clínica de pessoas com síndrome de Down infectadas com o coronavírus. No Brasil, também não há registros oficiais e específicos da Covid-19 nessa população, mas já há relatos de vítimas pelo país. Fábio Watanabe aponta que, não existindo ainda estudos mais direcionados, especialistas estão recorrendo hoje ao conhecimento que já existe — como sobre outras doenças respiratórias, como a influenza e a bronquiolite. Ele explica que uma das características "mais definidoras da síndrome de Down", observada praticamente na totalidade de crianças que nascem com ela, é a hipotonia, um menor tônus da musculatura — incluindo aí os músculos envolvidos na respiração. São comumente observadas também vias aéreas mais estreitas, características fisiológicas que em outras doenças respiratórias conhecidas podem agravar o quadro. "Em uma situação de esforço respiratório maior, o músculo do diafragma, por exemplo, passa por maior cansaço por conta da hipotonia", detalha. Outro fato sobre a síndrome de Down que coincide com um dos principais grupos de risco para a Covid-19 - os idosos - é que o envelhecimento imunológico acontece mais cedo para essas pessoas do que para a população em geral. Estima-se que aos 45 anos uma pessoa com a trissomia do 21 tem condições de saúde comparáveis às de um idoso de 60 sem a síndrome. "Porém, não seria um exagero dizer que a partir dos 30 anos as pessoas com síndrome de Down já comecem a experimentar mudanças relevantes no organismo que a aproximam de um idoso", alerta o portal Covid 19 e síndrome de Down, reforçando a importância da prevenção e atenção aos sintomas nesse grupo. Já para crianças e bebês, Fábio Watanabe lembra que o "padrão ouro" nos primeiros meses e anos de vida é uma rotina de terapias de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. "Apesar de os conselhos profissionais terem autorizado o atendimento à distância durante a pandemia, nem todos têm recursos para continuar com terapias através da telemedicina." "Um dos pontos que mais geram aflição nas famílias é essa adaptação aos estímulos da criança: elas tendem a pensar que o desenvolvimento será comprometido (com a interrupção de atendimentos presenciais)." "É importante que as famílias, dentro do seu alcance, encontrem cenários para manter os estímulos, através de brincadeiras, mas também momento para que ela brinque livremente. Não é interessante deixá-la com uma agenda lotada. Ao mesmo tempo, as famílias não deveriam se sentir terapeutas dos filhos, é um peso muito grande e que gera grande frustração." Para a família do pequeno Pedro, de 2 anos de idade, o início da pandemia logo trouxe a preocupação com a interrupção das terapias, conta seu pai, o empresário Henri Zylberstajn. Mas, mantido o atendimento online com profissionais da rede privada e com a presença de toda a família em casa, na capital paulista — Henri trabalhando de casa, sua esposa e outros dois filhos, de 4 e 7 anos —, o empresário conta que o caçula deu um "salto impensável" durante a quarentena. "Foi um salto no desenvolvimento global, na questão motora por exemplo — ele começou a quarentena sem andar, agora já anda com o apoio do andador. Antes, ele não falava, agora está falando sílabas", conta Zylberstajn, fundador do Projeto Serendipidade, focado em ações pela inclusão e que participa do lançamento do site sobre Covid-19 e Down. "Ele começou a responder muito bem ao estímulo à distância com o nosso acompanhamento. Com o convívio mais próximo, os irmãos passaram a se envolver mais nas terapias. Nunca vamos substituir as técnicas de profissionais, mas a participação da família gera estímulos diferentes", diz o empresário. Ele afirma que Pedro tem comorbidades leves, mas se preocupa que o filho, tendo hipotonia e vias aéreas estreitas como muitas outras crianças com Down, possa ser contagiado com o novo coronavírus. Henri Zylberstajn reconhece que sua família é privilegiada e isso facilita na continuidade dos cuidados com Pedro na pandemia. Mas, à frente do Serendipidade, ele diz receber relatos de outras famílias que estão tendo experiências bastante diversas — "cada criança reage de uma maneira", destaca — e que muitas reclamam também da falta de material didático remoto acessível por parte das escolas. Restrições de atendimento na rede pública e um histórico de saúde mais delicado tornam "desesperador" o cenário atual para Érica Alves, conforme ela descreve a situação na pandemia do filho Pietro, 4 anos. Nesses poucos anos de vida, o pequeno já teve 21 pneumonias e 20 internações, tendo hoje "todos os sintomas respiratórios que uma criança pode ter", segundo a mãe, que mora em Itapecerica da Serra (SP). O menino tem imunodeficiência, crises de asma recorrentes e precisa de aparelhos e traqueostomia em casa para respirar. Mas as visitas domiciliares de fisioterapeutas e as consultas rotineiras com diversos especialistas foram suspensas por conta da pandemia, ainda sem previsão de retorno. E no caso dele, esses atendimentos necessitam ser presenciais. "Meu filho regrediu muito. Antes do coronavírus, ele estava com parâmetros muito baixos, não tinha mais crises, já estava em uma situação perto de desmamar dos aparelhos. Mas tudo que ganhei em um ano perdi em 30 dias (desde a pandemia)", conta Érica por telefone à BBC News Brasil. Remédios de alto custo que eram retirados por ela em uma farmácia da rede pública seriam agora entregues em domicílio, mas segundo Érica, eles ainda não chegaram na sua casa. Ela conta já não ter medicamentos suficientes para lidar com uma eventual crise convulsiva. Para complicar, o marido é vigilante e continua saindo para trabalhar fora de casa, por exercer uma atividade essencial. Ela há algum tempo não pode assumir um emprego fora de casa para se dedicar integralmente ao filho, fazendo de vez em quando bicos como secretária virtual. "Tomamos todos os cuidados quando meu marido chega (do trabalho), ele tira tudo para entrar em casa, toma banho imediatamente. Ele não pode parar de trabalhar, porque as contas não esperam." "Se meu filho tem alguma crise, algum problema dentro de casa, eu não sei a quem recorrer, a unidade de saúde está fechada… E se eu precisar sair, a chance dele pegar Covid é 90, 99%, por conta da imunidade dele", afirma. "Não sei se é pior ficar com ele dentro de casa ou se eu precisar sair. Já não consigo assimilar: quando ele está cansado, já não sei se é por conta do intestino, se é uma crise de asma ou é de tanto brincar. Está muito difícil mesmo."

PODER 360/BRASÍLIA
Data Veiculação: 17/05/2020 às 11h19

Faltam informações nas publicações que dizem que um hospital no Piauí curou pessoas com covid-19 e esvaziou UTIs com uso da medicação cloroquina. O conteúdo usa um vídeo verdadeiro, gravado pelo médico oncologista Saba Vieira em 8 de maio, no qual ele relata um protocolo adotado pelo médico Justino Moreira, diretor clínico do Hospital Regional Tibério Nunes, em Floriano, para o tratamento precoce de pacientes com o novo coronavírus. Mas os textos omitem que ainda há pacientes em tratamento domiciliar e também em leitos ambulatoriais no hospital. Além disso, não existe nenhum registro científico ou comparativo de que a melhora clínica dos pacientes foi exclusivamente por conta das medicações. No vídeo, Vieira diz que no tratamento oferecido pelo hospital há “duas janelas de oportunidade” para quem contraiu a doença. A primeira é a aplicação de cloroquina com azitromicina em pacientes que apresentaram sintomas de um a sete dias. A segunda é o uso de corticoides em pacientes que apresentam sintomas depois de sete a doze dias. Com a repercussão do vídeo, o médico que fez a gravação compartilhou em seu Facebook uma das publicações e escreveu que “o conteúdo e o título estão distorcidos”. Ele não atendeu às solicitações de entrevista feitas pelo Comprova. Receba a newsletter do Poder360 Justino confirmou que desde 2 de maio vem adotando essas duas abordagens para pacientes que estão com comprometimento pulmonar e não têm comorbidades. Ao todo, 15 pessoas foram submetidas ao protocolo, com prognóstico positivo, mas ainda não há evidências suficientes para dizer que estão curadas. Isso porque, apesar de os pacientes terem apresentado melhora clínica, apenas cinco já tiveram alta. Quatro ainda estão em tratamento domiciliar e os outros seis seguem internados em leitos clínicos. Nem todos passaram pelos exames necessários de radiografia para receber o laudo de alta da covid-19. A OMS (Organização Mundial da Saúde) também não reconhece nenhum medicamento ou vacina para a covid-19. Justino afirmou que reavaliaria o caso das pessoas tratadas nesta quinta-feira, 14, último dia do tratamento experimental. Também é importante destacar que a experiência no hospital do Piauí não tem um grupo de controle. Ou seja, não há pacientes que não fizeram uso do tratamento para fins científicos de comparação. O próprio Justino ressalva que o número de pessoas tratadas em Floriano é pequeno e ainda não serve como evidência científica para a eficácia da cloroquina ou do corticoide contra a covid-19. De acordo com o médico, as publicações que divulgaram o uso de cloroquina não citam que pacientes ainda estão em tratamento e que há ao menos seis pessoas internadas com covid-19 nos leitos ambulatoriais. Justino afirmou que o uso de corticoide é o que mais tem dado resultado. “Não gosto da forma com que foi colocada [na notícia] a cloroquina como solução. O foco é a corticoterapia”, disse ao Comprova. A medicação, segundo afirma Justino, tem evitado que a doença se agrave a ponto de necessitar de intubação e, consequentemente, internação na UTI. O Hospital Regional Tibério Nunes, localizado no interior do Piauí, tem 10 leitos de Unidade de Terapia Intensiva e 15 leitos de ambulatório destinados à covid-19. Até esta quinta-feira, 14, não havia pacientes em estado grave na UTI. No ambulatório há pacientes internados, mas nem todos têm indicação para receber o tratamento, por estarem em fases diferentes da infecção ou apresentarem outras doenças prévias. Apesar de o tratamento estar em curso, até agora, o governo do Piauí não divulgou nenhum protocolo público para adoção dessa modalidade para pacientes com a doença. O hospital também não têm evidências científicas que comprovem a “cura”, como afirmam as publicações, por conta exclusivamente dos medicamentos. Apenas nesta quarta-feira, 13, o governo do Piauí anunciou a criação de um comitê médico para estudar, avaliar e definir o uso de cloroquina, hidroxicloroquina e corticoides, entre outros medicamentos que auxiliem no tratamento. O Comprova questionou o governo do Estado sobre o tratamento adotado e a falta de acompanhamento técnico dos protocolos, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem. Os protocolos que têm sido utilizados no Hospital Regional Tibério Nunes foram estabelecidos por uma médica que nasceu em Floriano, no Piauí, mas atualmente trabalha no hospital HM Puerta del Sur, localizado em Madrid, na Espanha. Ela compartilha documentos e vídeos em seu Instagram sobre as dicas para o uso do corticoide contra a covid-19. Recentemente, o YouTube retirou do ar um de seus vídeos indicando a medicação. O Comprova confirmou em mensagem enviada ao Twitter do hospital espanhol que ela é funcionária, mas não obteve resposta sobre os protocolos de tratamento utilizados. Por que investigamos isso? O Comprova investiga conteúdos suspeitos compartilhados nas redes sociais sobre o novo coronavírus e a covid-19 que tenham grande viralização. O conteúdo desta verificação foi sugerido por dezenas de leitores que receberam o link por WhatsApp ou se depararam com ele em redes sociais. Um único link foi compartilhado no Facebook mais de 500 vezes. Muitas das informações enganosas que o Comprova tem verificado estão relacionadas a tratamentos com drogas que ainda estão em fase de testes sem que haja consenso sobre benefícios no combate à covid-19. Boatos e informações descontextualizadas sobre medicamentos podem levar à automedicação e provocar danos à saúde ou relaxamento dos cuidados com a higiene pessoal e isolamento social recomendadas pelas autoridades de saúde como medidas essenciais para diminuir a velocidade de transmissão do novo coronavírus. Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano. Como verificamos? O Comprova entrou em contato com o governo do Piauí para chegar ao diretor clínico do Hospital Regional Tibério Nunes, Justino Madeiro. Em conversa por telefone, o médico explicou como tem sido o tratamento de pacientes em Floriano, interior do Estado. A equipe também consultou a Secretaria de Saúde da cidade. Além disso, entrevistamos Gerson Salvador, infectologista associado da Sociedade Paulista de Infectologia e médico do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Verificação Após a repercussão do vídeo de Sabas Vieira, o Ministério Público Federal do Piauí cobrou que o governo do Estado e a prefeitura da capital, Teresina, adotassem o protocolo aplicado no hospital de Floriano. Vieira é citado pelo MPF como um dos principais defensores do tratamento. Corticoides são potentes anti-inflamatórios e são muito usados para tratamento de doenças autoimunes, aquelas em que o próprio corpo produz uma resposta contra o organismo, como lúpus. O uso dos corticoides para pneumonias virais, no entanto, não se mostrou eficaz em estudos anteriores à pandemia do novo coronavírus. Para a covid-19 ainda não há nenhum estudo científico comprovado que possa ser usado para defender ouso, como explica Gerson Salvador, infectologista associado da Sociedade Paulista de Infectologia e médico do Hospital Universitário da USP. “Os corticoides foram estudados e estão em estudo na covid-19, mas em estudos de pneumonias virais (influenza e outras causadas por outros tipos de coronavírus) anteriores foram vistos dois efeitos: alguns aumentam mortalidade, após altas doses por tempo prolongado, e também aumenta o tempo em que a carga viral é detectável, o vírus fica mais tempo no organismo”, explica. O infectologista alerta, ainda, para efeitos colaterais vistos em pacientes com pneumonias virais tratados com corticoides, tais como: hiperglicemia e psicose (alterações psiquiátricas). O especialista ressalta que para a covid-19 ainda não há uma conclusão sobre o uso dos corticoides. “O médico que quer fazer esse estudo tem que submeter ao Comitê de Ética primeiro”, completa. O uso de corticoides também está sendo testado em pacientes do Vila Nova Star, hospital de São Paulo. Ainda não foi publicado estudo que comprove a eficácia deste tratamento. Recentemente, o Hospital Sírio Libanês também iniciou protocolo de pesquisa com o medicamento dexametasona, um tipo de corticoide. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) recomenda cuidado para pessoas que já se medicavam com corticoides e apresentam sintomas da covid-19. Para os pacientes que usam a substância como terapia anti-inflamatória e imunossupressora, é recomendado avaliar com o médico a redução no uso. Contexto A cloroquina tem sido citada em vários conteúdos enganosos online como a cura para a covid-19. No entanto, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial de Saúde esclarecem que ainda não há um tratamento comprovadamente eficaz contra a doença causada pelo novo coronavírus. A cloroquina e a hidroxicloroquina passaram a protagonizar desinformação nas redes sociais após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apontar o medicamento como possível cura da covid-19. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores também têm insistido na eficácia do remédio contra a doença, sem comprovação científica. Uma análise do site de checagem Aos Fatos mostrou que vários congressistas da base de apoio de Bolsonaro divulgaram informações incorretas sobre o medicamento — o principal deles foi o ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS). Alcance O conteúdo verificado pelo Comprova foi sugerido pelos leitores. Ele foi publicado em sites e compartilhado em diversas páginas de redes sociais e em aplicativos de mensagens. Apenas uma dessas postagens foi compartilhada no Facebook mais de 500 vezes e somava 436 mil interações até esta quinta-feira, 14 de maio.

NEWS RONDÔNIA
Data Veiculação: 17/05/2020 às 15h24

Enquanto milhares de profissionais da saúde pegam covid no serviço, um hospital de Brasília segue um protocolo internacional e dá o exemplo, com contaminação zero. No Hran, Hospital Regional da Asa Norte – que é referência no tratamento da doença no Distrito Federal – nenhum funcionário da UTI teve coronavírus até hoje, dois meses após o primeiro caso confirmado da doença. Na última sexta, dia 15, foram testados 265 servidores do Hran e, novamente, em todos os procedimentos, o resultado deu negativo para a covid-19. A testagem ocorreu em todos os setores da unidade, inclusive na UTI, informou a Secretaria de Saúde. “O nosso foco maior segue sendo nas UTIs. É a área mais ‘quente’ do hospital, e onde temos zero infecções entre os profissionais. Acho que temos conseguido nos manter assim graças aos treinamentos diários que temos colocado em prática e cobrado desde fevereiro”, explicou o médico Pedro Zancanaro, responsável pela comunicação do Gabinete de Crise do Hran, ao Metrópoles. Protocolo internacional O Hran seguiu um protocolo internacional, de primeiro mundo, para alcançar o bom resultado. O projeto, orientado pelo Hospital Sírio-Libanês, chama-se Lean – que em português significa “enxuto”. De acordo com o Ministério da Saúde, essa é uma metodologia japonesa que, após a Segunda Guerra Mundial, chegou ao Ocidente e foi utilizada em vários setores produtivos. A partir da década de 1990 houve uma adaptação para utilização na área da Saúde, com impactos positivos. Entre os principais resultados que hospitais do Brasil têm conseguido ao aplicar o projeto, estão a diminuição do tempo de espera no atendimento, aumento do giro de leitos, mais qualidade nos serviços prestados e redução do tempo médio de permanência, entre outros.

GOIÁS 24 HORAS
Data Veiculação: 17/05/2020 às 16h48

Aparecida de Goiânia inicia na próxima segunda-feira, 18, parceria com o Hospital Sírio-Libanês (HSL). Com isso, todos os pacientes com Covid-19 internados nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Hospital Municipal (HMAP) receberão tratamento orientado pela equipe médica do HSL. A iniciativa consiste em receber suporte à distância, via chamada de vídeo, em tempo real, de um profissional médico intensivista do Sírio-Libanês para debater e orientar a equipe do HMAP no atendimento a esses casos. A parceria prevê o acompanhamento diário de até 30 pacientes com trocas de dados e informações, análises de protocolos e de critérios de admissão e alta, dentre outras orientações. A prefeitura de Aparecida entregou 20 novos respiradores e monitores ao Hospital Municipal de Aparecida. Com isso o município passou a ter 123 leitos hospitalares exclusivos para tratamento da Covid-19 à disposição da população que utiliza o Sistema Único de Saúde. São 50 UTIs e 60 semi-UTIs no Hmap e outras 13 UTIs no Hospital Garavelo. O post Aparecida firma parceria com Hospital Sírio-Libanês para tratamento de Covid-19 apareceu primeiro em Goiás 24 horas.

BBC BRASIL/SÃO PAULO
Data Veiculação: 17/05/2020 às 00h00

Ainda que em comunicados recentes do Ministério da Saúde a síndrome de Down não apareça explicitamente como um fator de risco, profissionais de saúde e famílias que lidam diariamente com a trissomia do cromossomo 21 (outro nome dado à síndrome, de natureza genética e causada pela existência de um cromossomo a mais) estão considerando que este é, sim, um grupo de risco. Isso porque é significativa a parcela de pessoas com síndrome de Down que nascem com comprometimentos no coração, pulmão e sistema imunológico, e também que desenvolvem diabetes e obesidade — todas essas condições consideradas fatores de risco para a covid-19, explica o pediatra Fábio Watanabe, dos Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um dos organizadores de um site informativo recém-lançado sobre covid-19 e síndrome de Down. "Independentemente do número em si, todos os estudos concordam que (essas condições) são mais frequentes na síndrome de Down. Aproximadamente metade das crianças com a síndrome têm cardiopatias congênitas. A obesidade, diabetes e alterações no sistema imunológico também são muito mais frequentes nesta população." "Mas já que estamos falando de fatores risco, é importante falar do outro lado disso: se a pessoa não tem essas comorbidades, possivelmente o risco dela seja semelhante ou pouco maior do que a pessoa que não tem síndrome de Down. É preciso olhar caso a caso. As famílias tendem a estar muito estressadas neste momento." Para ajudar, o site — criado em uma parceria da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, do Instituto Alana e do Projeto Serendipidade, e com contribuição técnica, além de Watanabe, do geriatra Marcelo Altona, do hospital Albert Einstein (SP) — traz perguntas e respostas e material de apoio sobre a covid-19 e a síndrome de Down. O site explica, por exemplo, que a transmissão do coronavírus acontece da mesma maneira para pessoas com ou sem síndrome de Down — por isso, para todos, as medidas preventivas mais importantes continuam sendo a higienização e isolamento social. Para bebês e crianças, tudo indica até agora que os sintomas daqueles com a trissomia 21 são similares a quadros respiratórios na infância em geral, como tosse, coriza, febre, e a possivelmente dor de garganta, vômito e diarreia. Mas o que pode mudar para aqueles com a síndrome é sua percepção e verbalização sobre alterações no corpo, por isso as famílias devem estar ainda mais atentas a sintomas graves, como desconforto respiratório, gemência, movimentos respiratórios mais frequentes e intensos, ou até rebaixamento do nível de consciência. Procedimentos de higiene pessoal, como lavar as mãos, talvez exijam também a atenção e participação de uma outra pessoa. Ainda não há estudos publicados sobre a evolução clínica de pessoas com síndrome de Down infectadas com o coronavírus. No Brasil, também não há registros oficiais e específicos da covid-19 nessa população, mas já há relatos de vítimas pelo país. Fábio Watanabe aponta que, não existindo ainda estudos mais direcionados, especialistas estão recorrendo hoje ao conhecimento que já existe — como sobre outras doenças respiratórias, como a influenza e a bronquiolite. Ele explica que uma das características "mais definidoras da síndrome de Down", observada praticamente na totalidade de crianças que nascem com ela, é a hipotonia, um menor tônus da musculatura — incluindo aí os músculos envolvidos na respiração. São comumente observadas também vias aéreas mais estreitas, características fisiológicas que em outras doenças respiratórias conhecidas podem agravar o quadro. "Em uma situação de esforço respiratório maior, o músculo do diafragma, por exemplo, passa por maior cansaço por conta da hipotonia", detalha. Outro fato sobre a síndrome de Down que coincide com um dos principais grupos de risco para a covid-19 - os idosos - é que o envelhecimento imunológico acontece mais cedo para essas pessoas do que para a população em geral. Estima-se que aos 45 anos uma pessoa com a trissomia do 21 tem condições de saúde comparáveis às de um idoso de 60 sem a síndrome. "Porém, não seria um exagero dizer que a partir dos 30 anos as pessoas com síndrome de Down já comecem a experimentar mudanças relevantes no organismo que a aproximam de um idoso", alerta o portal Covid 19 e síndrome de Down, reforçando a importância da prevenção e atenção aos sintomas nesse grupo. Já para crianças e bebês, Fábio Watanabe lembra que o "padrão ouro" nos primeiros meses e anos de vida é uma rotina de terapias de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. "Apesar de os conselhos profissionais terem autorizado o atendimento à distância durante a pandemia, nem todos têm recursos para continuar com terapias através da telemedicina." "Um dos pontos que mais geram aflição nas famílias é essa adaptação aos estímulos da criança: elas tendem a pensar que o desenvolvimento será comprometido (com a interrupção de atendimentos presenciais)." "É importante que as famílias, dentro do seu alcance, encontrem cenários para manter os estímulos, através de brincadeiras, mas também momento para que ela brinque livremente. Não é interessante deixá-la com uma agenda lotada. Ao mesmo tempo, as famílias não deveriam se sentir terapeutas dos filhos, é um peso muito grande e que gera grande frustração." Para a família do pequeno Pedro, de 2 anos de idade, o início da pandemia logo trouxe a preocupação com a interrupção das terapias, conta seu pai, o empresário Henri Zylberstajn. Mas, mantido o atendimento online com profissionais da rede privada e com a presença de toda a família em casa, na capital paulista — Henri trabalhando de casa, sua esposa e outros dois filhos, de 4 e 7 anos —, o empresário conta que o caçula deu um "salto impensável" durante a quarentena. "Foi um salto no desenvolvimento global, na questão motora por exemplo — ele começou a quarentena sem andar, agora já anda com o apoio do andador. Antes, ele não falava, agora está falando sílabas", conta Zylberstajn, fundador do Projeto Serendipidade, focado em ações pela inclusão e que participa do lançamento do site sobre covid-19 e Down. "Ele começou a responder muito bem ao estímulo à distância com o nosso acompanhamento. Com o convívio mais próximo, os irmãos passaram a se envolver mais nas terapias. Nunca vamos substituir as técnicas de profissionais, mas a participação da família gera estímulos diferentes", diz o empresário, acrescentando que Pedro tem comorbidades leves, mas se preocupa que o filho, tendo hipotonia e vias aéreas estreitas como muitas outras crianças com Down, possa ser contagiado com o novo coronavírus. Henri Zylberstajn reconhece que sua família é privilegiada e isso facilita na continuidade dos cuidados com Pedro na pandemia. Mas, à frente do Serendipidade, ele diz receber relatos de outras famílias que estão tendo experiências bastante diversas — "cada criança reage de uma maneira", destaca — e que muitas reclamam também da falta de material didático remoto acessível por parte das escolas. Restrições de atendimento na rede pública e um histórico de saúde mais delicado tornam "desesperador" o cenário atual para Érica Alves, conforme ela descreve a situação na pandemia do filho Pietro, 4 anos. Nesses poucos anos de vida, o pequeno já teve 21 pneumonias e 20 internações, tendo hoje "todos os sintomas respiratórios que uma criança pode ter", segundo a mãe, que mora em Itapecerica da Serra (SP). O menino tem imunodeficiência, crises de asma recorrentes e precisa de aparelhos e traqueostomia em casa para respirar. Mas as visitas domiciliares de fisioterapeutas e as consultas rotineiras com diversos especialistas foram suspensas por conta da pandemia, ainda sem previsão de retorno. E no caso dele, esses atendimentos necessitam ser presenciais. "Meu filho regrediu muito. Antes do coronavírus, ele estava com parâmetros muito baixos, não tinha mais crises, já estava em uma situação perto de desmamar dos aparelhos. Mas tudo que ganhei em um ano perdi em 30 dias (desde a pandemia)", conta Érica por telefone à BBC News Brasil. Remédios de alto custo que eram retirados por ela em uma farmácia da rede pública seriam agora entregues em domicílio, mas segundo Érica, eles ainda não chegaram na sua casa. Ela conta já não ter medicamentos suficientes para lidar com uma eventual crise convulsiva. Para complicar, o marido é vigilante e continua saindo para trabalhar fora de casa, por exercer uma atividade essencial. Ela há algum tempo não pode assumir um emprego fora de casa para se dedicar integralmente ao filho, fazendo de vez em quando bicos como secretária virtual. "Tomamos todos os cuidados quando meu marido chega (do trabalho), ele tira tudo para entrar em casa, toma banho imediatamente. Ele não pode parar de trabalhar, porque as contas não esperam." "Se meu filho tem alguma crise, algum problema dentro de casa, eu não sei a quem recorrer, a unidade de saúde está fechada… E se eu precisar sair, a chance de ele pegar covid é 90, 99%, por conta da imunidade dele", afirma. "Não sei se é pior ficar com ele dentro de casa ou se eu precisar sair. Já não consigo assimilar: quando ele está cansado, já não sei se é por conta do intestino, se é uma crise de asma ou é de tanto brincar. Está muito difícil mesmo." Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!