Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

ISTOÉ DINHEIRO/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 15/05/2020 às 03h00

“A ÚNICA SOLUÇÃO PARA A PANDEMIA ESTÁ NA CIÊNCIA” Maior companhia dc carne do mundo, com receita de R$ 204,5 bilhões c lucro dc R$ 6,1 bilhões no ano passado, a brasileira JBS decidiu entrar para o crescente «impo de empresas dispostas a desembolsar uma fatia gorda de seus resultados financeiros para ajudar no combate à pandem ia da Covid-19, doença que já matou mais de 12 mil pessoas no Brasil. Na última semana, a companhia anunciou a doação de R$ 700 milhões para o enfrentamento da crise. Desse total, R$400 milhões serão destinados a ações no Brasil, especialmente para suporte a hospitais e apoio à ciência. Em entrevista à Dinheiro, o executivo Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, explica o que motivou a empresa a adotar essa iniciativa. DINHEIRO -Por que a JBS decidiu fazer uma doação desse valor? GILBERTO TOMAZONI Porque esse é o maior desafio da nossa geração. É uma crise sanitária global sem precedentes. O que está por vir, não será fácil. Vamos apoiar os esforços da sociedade no combate à doença. Saúde deve ser a prioridade. Mesmo com tudo isso que estamos fazendo, ainda é muito pouco diante do tamanho do desafio. Já existe uma estimativa de quantas pessoas serão beneficiadas por essa doação? Sim. Do total dos R$ 700 milhões, R$ 330 milhões serão direcionados à construção de hospitais, ampliação de leitos, compra de testes, medicamentos, equipamentos médicos e insumos de higiene, além de doação de alimentos em 162 municípios de 17 Estados. Outros R$ 50 milhões estarão à disposição de entidades de pesquisa e tecnologia no país com foco em estudos na área de saúde, e R$ 20 milhões irão para 50 organizações sociais sem fins lucrativos que atendem comunidades vulneráveis. Essa iniciativa vai atender a cerca de 60 milhões de pessoas. O dinheiro será gasto também internamente? Não. Temos 240 mil funcionários em quatro continentes, sendo que 130 mil deles estão no Brasil. Dentro da empresa, adotamos todas as medidas para cuidar das pessoas. A primeira coisa que fizemos foi adotar as recomendações das autoridades de saúde, do Ministério da Saúde e das secretarias estaduais. Acabamos com as situações que podem gerar aglomerações, aumentamos os espaços entre as mesas dos refeitórios e construímos galpões para os funcionários ficarem mais longe. Nos ônibus, reduzimos a ocupação dos assentos e fileiras. Contratamos o Hospital Albert Einstein para nos ajudar a estabelecer todos os protocolos definidos pelas autoridades de saúde. Não tem jeito. Nessa hora, a prioridade é garantir a segurança das pessoas. Criamos um conselho consultivo para nos ajudar a tomar as melhores decisões. Acreditamos na ciência e nas autoridades que estão estudando o tema. A única solução para a pandemia está na ciência. E como somos um setor essencial, temos de continuar trabalhando para colocar alimento no prato das pessoas no mundo inteiro. Esse vírus não vai embora até surgir uma vacina. Por isso, estamos colocando dinheiro na ciência. Só ela pode resolver. Todas essas medidas estão surtindo efeito? Com o isolamento e lockdown, estamos achatando a curva. Nossas unidades vão parecer muito mais hospitais do que com fábricas. Um consultor de saúde que está nos ajudando disse que nossas fábricas são muito melhores do que muitas UTIs 42 Dinheiro lomnm I foto:cuudiogatti no Brasil. Cada vez que a ciência nos ensina algo novo, tomamos uma medida adicional. A crise é maior do que se imaginava? A gente percebe que, com o passar do tempo, a crise é muito maior. Nossa ideia é construir 17 hospitais permanentes no Brasil, que ficariam de legado para a sociedade depois da pandemia. Conseguimos levantar um hospital em apenas 33 dias. Mas a gente conversou com os governadores e percebeu que havia demandas ainda mais urgentes, como doação de materiais, de equipamentos e de testes. Há municípios que precisam de cestas básicas. Muita gente que perdeu todo seu faturamento, e que já não vinha ganhando dinheiro antes. O problema social é muito grave. O pior é que a gente ainda não está no fim. Já passamos de 12 mil mortes (na quarta-feira 13). São 12 mil pessoas que não voltarão para casa. Esse assunto é muito sério, uma emergência de saúde social. Não estamos vivendo uma coisa rotineira. A rotina mudou de que forma? Eu falo todo dia com o doutor Adalto Castelo, ex-presidente da Associação Brasileira de Infectologia. Estou aprendendo. É complexo. Não é simples. Às vezes não adianta, por exemplo, dar respirador para quem não sabe usar. Tem que treinar. Por isso. nosso conselho consultivo, com especialistas do Einstein, do Sírio-Libanês e do HCor tomam as decisões baseadas no que é preciso, com a maior urgência e maior abrangência. Como a JBS atua em quase o mundo todo, a companhia consegue perceber os diferentes impactos que a pandemia causa nos países e fazer uma comparação como Brasil? É difícil fazer essa comparação. Para afirmar que afeta mais ou menos do que no Brasil, seria preciso uma régua com os mesmos parâmetros. É difícil porque as condições são muito diferentes. Não dá para comparar os Estados Unidos com o Brasil porque as situações socioeconômicas são muito diferentes. O que percebemos é que cada país tem enfrentado a crise de um jeito. Temos, por exemplo, operação na Itália, com cinco fábricas, além de 12 fábricas na Inglaterra e umas tantas outras na Irlanda. Na Austrália, que está bem mais atrasada em número de contaminados, o cidadão que chega ao país é colocado em quarentena em um hotel. O Estado paga 14 dias para ele ficar dentro do quarto. Então, eu não consigo comparar o Brasil com outros países. As empresas estão cumprindo o papel social nessa crise? Difícil responder pelos outros. É muito grave o que está acontecendo. A JBS começou no interior no Brasil. Conhecemos a realidade do País e achamos que precisamos fazer mais. Quem fica sentado em casa vendo lives, reclamando da monotonia da quarentena, é quem pode. Mas não é essa a realidade do Brasil. A gente tem que investir mais na ciência parar causar impacto positivo no futuro e fazer a diferença. Podemos também ajudar as ONGs que já estão fazendo trabalho social dentro das comunidades. Acredito que, até agora, tem pouco dinheiro indo para a ciência. O Brasil precisa avançar no campo da pesquisa. Temos muito brasileiro criativo em todo o mundo desenvolvendo estudos. Temos que criar incentivos para que esses pesquisadores e cientistas fiquem no Brasil. Isso não só para combater a crise que temos agora, mas para nos preparar para o que virá no futuro. O governo federal, os estados ou mesmo a sociedade estarão mais preparados para novos enfrentamentos de problemas como esse? A gente ainda está no meio da pandemia. Não tem como saber se haverá uma mudança nos hábitos dos consumidores. Fazer um prognóstico no meio do temporal é uma tarefa que tem muita opinião e muito pouca informação. Mas eu acho que vai aflorar na sociedade um senso de responsabilidade social muito maior. Do nosso lado, vemos que a responsabilidade que temos de ter é um papel social muito importante. As empresas existem para o bem da sociedade. Dinheiro a gente corre atrás. O lucro são as palmas que a sociedade bate para continuar crescendo. Não podemos esquecer que somos parte da sociedade e só existimos em razão dela. Não acredito que alguém pode ficar insensível ao que está acontecendo. Nem o governo? Todo mundo é ser humano, independentemente da posição que ocupa e de que lado está. Eu parto do princípio de que todo mundo está fazendo o seu melhor. Não posso dizer pelos outros, mas acho que todo mundo pode fazer um pouco mais nessa crise. Tenho focado muito mais no que podemos fazer do que em olhar para o que os outros deveríam fazer. Espero que o mundo fique melhor. H Dinheiro 20/05/2020 I 43

JB ONLINE/RIO DE JANEIRO
Data Veiculação: 15/05/2020 às 10h08

Iniciativa lançada em abril com doação de R$ 1 bilhão do Itaú Unibanco também atua para ampliar capacidade de testagem para covid-19 e recebe apoio de outras empresas e pessoas físicas Há exatamente um mês, o Itaú Unibanco anunciava uma doação de R$ 1 bilhão para criar a iniciativa Todos pela Saúde, cujo objetivo é combater os efeitos da covid-19 sobre a sociedade brasileira. Hoje, o Todos pela Saúde apresenta os resultados dos primeiros 30 dias de trabalho. "Estamos orgulhosos do que realizamos até aqui. Temos contribuído não apenas com recursos financeiros, mas também com nossa capacidade de gestão, tecnologia e logística, que são altamente demandadas em uma operação complexa e de abrangência nacional como esta", afirma Claudia Politanski, vice-presidente do Itaú Unibanco. "Temos absoluta consciência da gravidade da situação e seguiremos trabalhando com determinação e foco para ajudar o Brasil e os brasileiros." Os recursos aportados no Todos pela Saúde são administrados por um grupo de especialistas liderado pelo médico Paulo Chapchap, doutor em clínica cirúrgica pela Universidade de São Paulo e diretor-geral do Hospital Sírio Libanês. Esta equipe define as ações a serem financiadas, de forma que as decisões estratégicas sejam respaldadas por premissas técnicas e científicas. Além de Chapchap, integram o grupo o médico, cientista e escritor Drauzio Varella, o ex-presidente da Anvisa Gonzalo Vecina Neto, o ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde (ANS) Maurício Ceschin, o consultor do Conselho dos Secretários de Saúde (CONASS) Eugênio Vilaça Mendes, o presidente do Hospital Albert Einstein, Sidney Klajner, e o presidente do Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), instituição ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Pedro Barbosa. "Estabelecemos algumas prioridades neste primeiro mês de operação do Todos pela Saúde: instalar gabinetes de crise em todos os Estados brasileiros, além do Distrito Federal, de modo a organizar o combate à doença; distribuir equipamentos de proteção para profissionais de saúde; e fazer uma ampla campanha de comunicação para incentivar o uso de máscaras por toda a população", afirma Paulo Chapchap. As principais realizações do projeto nesse período foram: • ·Criação de Gabinetes de Crise em todos os Estados brasileiros e no DF. • ·Compra de 90 milhões de equipamentos de proteção individual (EPIs) para profissionais de saúde que atuam no SUS. • ·Compra de 20 ventiladores. • ·Lançamento da campanha de conscientização Máscara Salva. • ·Encomenda de 20 milhões de máscaras de pano e distribuição de 5 milhões para a população em geral, idosos que vivem em asilos e presidiários. Mais doações Em adição ao R$ 1 bilhão doado pelo Itaú Unibanco, o Todos pela Saúde também passou a receber doações de pessoas e empresas. "Ficamos muito tocados com a quantidade de empresas e pessoas físicas que nos procuraram para contribuir com o Todos pela Saúde", afirma Cláudia Politanski. As orientações sobre o movimento e como contribuir estão em todospelasaude.org . A atuação da Todos pela Saúde se dá por meio de quatro eixos: • · Informar · Campanha de incentivo ao uso de máscaras pela população; · Orientação da população para higiene das mãos e etiqueta da tosse; · Valorização das iniciativas de solidariedade da sociedade civil. • · Proteger · Disponibilização de equipamentos de proteção individual e testagem para profissionais de saúde; · Testagem populacional para orientar ações de saúde pública. • · Cuidar · Apoio aos gestores públicos estaduais e de grandes municípios na estruturação de gabinetes de crise; · Capacitação e apoio aos profissionais de saúde em melhores práticas, protocolos e terapêuticas; · Uso de telemedicina para monitoramento de casos e apoio aos profissionais de saúde; · Ampliação da capacidade e eficiência em estruturas hospitalares referenciadas; · Compra e distribuição de insumos estratégicos, além da mobilização de equipamentos e recursos humanos. • · Retomar · Colaboração para o desenvolvimento de estratégias, visando a: retorno mais seguro às atividades sociais; e programas de monitoramento da população com risco elevado.

GUIA DA FARMÁCIA
Data Veiculação: 15/05/2020 às 10h53

Entre as primeiras pessoas a perceber o “caráter trombótico” da doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) está a médica Elnara Negri A hipótese de que distúrbios de coagulação sanguínea estariam na base dos sintomas mais graves da COVID-19 – entre eles insuficiência respiratória e fibrose pulmonar – foi aventada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em meados de abril. Em menos de um mês, o tema ganhou destaque em reportagens publicadas nos sites da Science e da Nature, duas das mais importantes publicações científicas internacionais. Entre as primeiras pessoas a perceber o “caráter trombótico” da doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) está a médica Elnara Negri, que atua no Hospital das Clínicas da FM-USP e também no Hospital Sírio-Libanês. “Foi por volta do dia 25 de março. Tratávamos uma paciente cuja função respiratória piorava rapidamente e, quando ela foi entubada, percebi que seu pulmão era fácil de ventilar. Não estava enrijecido, como seria esperado em alguém com síndrome do desconforto respiratório agudo. Logo depois notei que essa pessoa apresentava isquemia em um dos dedos do pé”, conta Negri à Agência FAPESP. O sintoma, que tem sido chamado de COVID toes (dedos do pé de COVID), é causado pela obstrução de pequenos vasos que irrigam os dedos dos pés. Negri já havia observado fenômeno semelhante, muitos anos atrás, em pacientes submetidos a aparelhos de circulação extracorpórea durante cirurgia cardíaca. Doença trombótica “O equipamento que se usava antigamente bombeava oxigênio no sangue e induzia a formação de coágulos no interior dos vasos. Eu já tinha visto aquele quadro e sabia como tratar”, afirma. A médica prescreveu heparina, um dos medicamentos anticoagulantes mais usados no mundo, e em menos de 18 horas o nível de oxigenação da paciente melhorou. O dedinho do pé, antes vermelho, ficou cor-de-rosa. O efeito se repetiu em outros casos atendidos no Sírio-Libanês. “Após esse dia, tratamos cerca de 80 pacientes com COVID-19 e, até agora, ninguém morreu. Atualmente, quatro estão na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e os demais ou estão na enfermaria ou já foram para casa”, diz. Enquanto a maioria dos estudos indica que casos graves de COVID-19 necessitam, em média, de 28 dias de ventilação mecânica para recuperação, os pacientes tratados com heparina geralmente melhoram entre o 10o e o 14o dia de tratamento intensivo. A experiência clínica com as primeiras 27 pessoas submetidas ao protocolo desenvolvido no Sírio-Libanês foi descrita em artigo disponível na plataforma medRxiv ainda em versão preprint (sem revisão por pares). Evidências patológicas Logo após a primeira experiência bem-sucedida com heparina, Negri compartilhou o achado com seus colegas do Departamento de Patologia da FM-USP Marisa Dolhnikoff e Paulo Saldiva, que estão coordenando as autópsias de pessoas que morreram em decorrência da COVID-19 no Hospital das Clínicas. Por meio de procedimentos minimamente invasivos, desenvolvidos durante um projeto apoiado pela FAPESP, os patologistas haviam observado a existência de focos hemorrágicos na rede de pequenos vasos do pulmão, associados à presença de microtrombos – pequenos coágulos formados pela agregação de plaquetas (leia mais em: agencia.fapesp.br/32882 e agencia.fapesp.br/32774). Juntos, os pesquisadores da FM-USP redigiram o primeiro artigo da literatura científica que descreveu “evidências patológicas de fenômenos trombóticos pulmonares em COVID-19 grave”. O trabalho, revisado por pares e aceito para publicação no Journal of Thrombosis and Haemostasis, tem potencial para revolucionar o tratamento da doença. Mudança de paradigma O SARS-CoV-2 não foi o primeiro coronavírus a causar uma crise de saúde pública. Entre os anos de 2002 e 2003, quase 800 pessoas morreram em decorrência da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) no mundo e, desde 2012, aproximadamente 850 foram vitimadas pela síndrome respiratória do oriente médio (MERS, na sigla em inglês). Nenhuma das duas doenças chegou ao Brasil até o momento. “Pacientes com SARS ou com MERS desenvolvem uma forte reação inflamatória no pulmão, que pode levar ao desenvolvimento de um quadro conhecido como síndrome do desconforto respiratório agudo. Os alvéolos pulmonares – aqueles pequenos sacos onde ocorrem as trocas gasosas – ficam cheios de células mortas, pus e outras substâncias inflamatórias. Isso faz o pulmão ficar duro e impede a oxigenação adequada do organismo”, explica Negri. De acordo com a médica, o que ocorre em pacientes com COVID-19 é diferente – pelo menos no início. O SARS-CoV-2 não causa uma inflamação muito forte no pulmão, mas induz a descamação do tecido epitelial existente no interior dos alvéolos. “As células epiteliais morrem após serem infectadas, caem para a luz alveolar e deixam a membrana basal exposta. O sistema de defesa do organismo entende que a região está em ‘carne viva’ e que há risco de hemorragia. Tem início uma tempestade de interleucinas [proteínas que atuam como sinalizadores imunes] que ativa o que chamamos de ‘cascata de coagulação’. As plaquetas começam a se agregar para formar trombos e estancar o suposto vazamento”, explica Negri. Desenvolvimento da Covid-19 Os coágulos acabam obstruindo pequenos vasos do pulmão e causando microinfartos. As regiões do tecido que morrem por falta de irrigação dão lugar a tecido cicatricial – processo conhecido como fibrose. Além disso, os microtrombos que se formam na interface do alvéolo com os vasos sanguíneos impedem a passagem do oxigênio para as pequenas artérias. “Isso explica por que pacientes com COVID-19 podem não sentir dificuldade para respirar mesmo estando com uma saturação muito baixa de oxigênio. Muitos chegam ao hospital andando e falando e logo depois precisam ser entubados”, diz. Caso não se trate o quadro de coagulação intravascular rapidamente, os pontos de infarto e de fibrose tendem a se espalhar pelo pulmão. Bactérias ou fungos oportunistas podem infectar o tecido lesionado e causar pneumonia, uma vez que o SARS-CoV-2 induz a diminuição das células de defesa (linfopenia). Eventualmente, no final desse processo, o paciente pode desenvolver a síndrome do desconforto respiratório agudo. Negri observou que a heparina ajuda a impedir que isso ocorra por dois mecanismos: o fármaco desfaz os microtrombos que impedem o oxigênio de passar do alvéolo para as pequenas artérias pulmonares e, além disso, ajuda na recuperação do endotélio vascular, a camada de células epiteliais que recobre o interior dos vasos sanguíneos. “O endotélio lesionado é como uma estrada esburacada, que dificulta o fluxo sanguíneo e induz a formação de novos coágulos. E isso gera um efeito bola de neve”, explica a médica. Doença trombótica: ação da heparina Um terceiro possível mecanismo de ação da heparina foi descrito em estudo recente conduzido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com apoio da FAPESP. A equipe coordenada pela biomédica Helena Bonciani Nader verificou in vitro que o fármaco pode reduzir em até 70% a infecção de células pelo novo coronavírus. “Talvez exista um efeito antiviral, que ainda precisa ser mais bem estudado. Costumo dizer que estamos trocando o pneu com o carro andando”, diz Negri. Para a pneumologista, porém, o fato de muitas pessoas diagnosticadas com COVID-19 terem sido tratadas, desde o início, como casos de síndrome do desconforto respiratório agudo – mantidas na UTI com menor nível de hidratação e ventilação mecânica mais intensa – pode ter custado muitas vidas. “Essas duas abordagens agravam o quadro trombótico. O tratamento requer uma mudança de paradigma”, afirma. Negri defende que a intervenção com anticoagulante comece assim que se comprove que a saturação de oxigênio está abaixo de 93%, o que pode ocorrer entre o sétimo e o 10o dia após o início dos sintomas gripais e é possível de ser detectado em consultório médico ou Unidade Básica de Saúde (UBS). “Mas não adianta comprar o remédio na farmácia e tomar por via oral. Desse modo não há efeito terapêutico e ainda pode induzir uma hemorragia”, alerta. “O tratamento deve ser injetável e a dose ajustada pelo médico.” Vale ressaltar que os efeitos da heparina sobre diversos processos fisiológicos são expressivos e sua administração sem supervisão médica resulta em importante risco à vida. No tratamento da COVID-19, a automedicação, sem atenção especial aos efeitos adversos, pode colocar em risco a saúde dos pacientes. Ensaio clínico Para comprovar a eficácia da heparina no tratamento da COVID-19 ainda é preciso fazer um ensaio clínico randomizado, ou seja, separar dois grupos de pacientes com características semelhantes aleatoriamente e tratar apenas um deles com o fármaco, para em seguida comparar os resultados com os observados no grupo não tratado. Os pesquisadores da FM-USP planejam iniciar em breve um projeto com essa finalidade em parceria com grupos da Universidade de Toronto (Canadá) e da Universidade de Amsterdã (Países Baixos). Aguardam apenas aprovação do Comitê de Ética do Hospital das Clínicas e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). “A ideia é tratar com heparina aqueles pacientes que acabaram de chegar ao pronto-socorro com queda na saturação [de oxigênio]e observar se com o tratamento anticoagulante é possível evitar a ventilação mecânica”, conta. Foto: Shutterstock Fonte: Agência Fapesp Cadastre-se no nosso Whatsapp covid doença trombótica covid trombose doença trombótica Fapesp

ISTOÉ DINHEIRO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 15/05/2020 às 11h30

Maior companhia de carne do mundo, com receita de R$ 204,5 bilhões e lucro de R$ 6,1 bilhões no ano passado, a brasileira JBS decidiu entrar para o crescente grupo de empresas dispostas a desembolsar uma fatia gorda de seus resultados financeiros para ajudar no combate à pandemia da Covid-19, doença que já matou mais de 13 mil pessoas no Brasil. Na última semana, a companhia anunciou a doação de R$ 700 milhões para o enfrentamento da crise. Desse total, R$ 400 milhões serão destinados a ações no Brasil, especialmente para suporte a hospitais e apoio à ciência. Em entrevista à DINHEIRO, o executivo Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, explica o que motivou a empresa a adotar essa iniciativa. DINHEIRO –Por que a JBS decidiu fazer uma doação desse valor? gilberto tomazoni – Porque esse é o maior desafio da nossa geração. É uma crise sanitária global sem precedentes. O que está por vir, não será fácil. Vamos apoiar os esforços da sociedade no combate à doença. Saúde deve ser a prioridade. Mesmo com tudo isso que estamos fazendo, ainda é muito pouco diante do tamanho do desafio. Já existe uma estimativa de quantas pessoas serão beneficiadas por essa doação? Sim. Do total dos R$ 700 milhões, R$ 330 milhões serão direcionados à construção de hospitais, ampliação de leitos, compra de testes, medicamentos, equipamentos médicos e insumos de higiene, além de doação de alimentos em 162 municípios de 17 Estados. Outros R$ 50 milhões estarão à disposição de entidades de pesquisa e tecnologia no país com foco em estudos na área de saúde, e R$ 20 milhões irão para 50 organizações sociais sem fins lucrativos que atendem comunidades vulneráveis. Essa iniciativa vai atender a cerca de 60 milhões de pessoas. O dinheiro será gasto também internamente? Não. Temos 240 mil funcionários em quatro continentes, sendo que 130 mil deles estão no Brasil. Dentro da empresa, adotamos todas as medidas para cuidar das pessoas. A primeira coisa que fizemos foi adotar as recomendações das autoridades de saúde, do Ministério da Saúde e das secretarias estaduais. Acabamos com as situações que podem gerar aglomerações, aumentamos os espaços entre as mesas dos refeitórios e construímos galpões para os funcionários ficarem mais longe. Nos ônibus, reduzimos a ocupação dos assentos e fileiras. Contratamos o Hospital Albert Einstein para nos ajudar a estabelecer todos os protocolos definidos pelas autoridades de saúde. Não tem jeito. Nessa hora, a prioridade é garantir a segurança das pessoas. Criamos um conselho consultivo para nos ajudar a tomar as melhores decisões. Acreditamos na ciência e nas autoridades que estão estudando o tema. A única solução para a pandemia está na ciência. E como somos um setor essencial, temos de continuar trabalhando para colocar alimento no prato das pessoas no mundo inteiro. Esse vírus não vai embora até surgir uma vacina. Por isso, estamos colocando dinheiro na ciência. Só ela pode resolver. Todas essas medidas estão surtindo efeito? Com o isolamento e lockdown, estamos achatando a curva. Nossas unidades vão parecer muito mais hospitais do que com fábricas. Um consultor de saúde que está nos ajudando disse que nossas fábricas são muito melhores do que muitas UTIs no Brasil. Cada vez que a ciência nos ensina algo novo, tomamos uma medida adicional. A crise é maior do que se imaginava? A gente percebe que, com o passar do tempo, a crise é muito maior. Nossa ideia é construir 17 hospitais permanentes no Brasil, que ficariam de legado para a sociedade depois da pandemia. Conseguimos levantar um hospital em apenas 33 dias. Mas a gente conversou com os governadores e percebeu que havia demandas ainda mais urgentes, como doação de materiais, de equipamentos e de testes. Há municípios que precisam de cestas básicas. Muita gente que perdeu todo seu faturamento, e que já não vinha ganhando dinheiro antes. O problema social é muito grave. O pior é que a gente ainda não está no fim. Já passamos de 12 mil mortes (na quarta-feira 13). São 12 mil pessoas que não voltarão para casa. Esse assunto é muito sério, uma emergência de saúde social. Não estamos vivendo uma coisa rotineira. A rotina mudou de que forma? Eu falo todo dia com o doutor Adalto Castelo, ex-presidente da Associação Brasileira de Infectologia. Estou aprendendo. É complexo. Não é simples. Às vezes não adianta, por exemplo, dar respirador para quem não sabe usar. Tem que treinar. Por isso, nosso conselho consultivo, com especialistas do Einstein, do Sírio-Libanês e do HCor tomam as decisões baseadas no que é preciso, com a maior urgência e maior abrangência. Como a JBS atua em quase o mundo todo, a companhia consegue perceber os diferentes impactos que a pandemia causa nos países e fazer uma comparação com o Brasil? É difícil fazer essa comparação. Para afirmar que afeta mais ou menos do que no Brasil, seria preciso uma régua com os mesmos parâmetros. É difícil porque as condições são muito diferentes. Não dá para comparar os Estados Unidos com o Brasil porque as situações socioeconômicas são muito diferentes. O que percebemos é que cada país tem enfrentado a crise de um jeito. Temos, por exemplo, operação na Itália, com cinco fábricas, além de 12 fábricas na Inglaterra e umas tantas outras na Irlanda. Na Austrália, que está bem mais atrasada em número de contaminados, o cidadão que chega ao país é colocado em quarentena em um hotel. O Estado paga 14 dias para ele ficar dentro do quarto. Então, eu não consigo comparar o Brasil com outros países. As empresas estão cumprindo o papel social nessa crise? Difícil responder pelos outros. É muito grave o que está acontecendo. A JBS começou no interior no Brasil. Conhecemos a realidade do País e achamos que precisamos fazer mais. Quem fica sentado em casa vendo lives, reclamando da monotonia da quarentena, é quem pode. Mas não é essa a realidade do Brasil. A gente tem que investir mais na ciência parar causar impacto positivo no futuro e fazer a diferença. Podemos também ajudar as ONGs que já estão fazendo trabalho social dentro das comunidades. Acredito que, até agora, tem pouco dinheiro indo para a ciência. O Brasil precisa avançar no campo da pesquisa. Temos muito brasileiro criativo em todo o mundo desenvolvendo estudos. Temos que criar incentivos para que esses pesquisadores e cientistas fiquem no Brasil. Isso não só para combater a crise que temos agora, mas para nos preparar para o que virá no futuro. O governo federal, os estados ou mesmo a sociedade estarão mais preparados para novos enfrentamentos de problemas como esse? A gente ainda está no meio da pandemia. Não tem como saber se haverá uma mudança nos hábitos dos consumidores. Fazer um prognóstico no meio do temporal é uma tarefa que tem muita opinião e muito pouca informação. Mas eu acho que vai aflorar na sociedade um senso de responsabilidade social muito maior. Do nosso lado, vemos que a responsabilidade que temos de ter é um papel social muito importante. As empresas existem para o bem da sociedade. Dinheiro a gente corre atrás. O lucro são as palmas que a sociedade bate para continuar crescendo. Não podemos esquecer que somos parte da sociedade e só existimos em razão dela. Não acredito que alguém pode ficar insensível ao que está acontecendo. Nem o governo? Todo mundo é ser humano, independentemente da posição que ocupa e de que lado está. Eu parto do principio de que todo mundo está fazendo o seu melhor. Não posso dizer pelos outros, mas acho que todo mundo pode fazer um pouco mais nessa crise. Tenho focado muito mais no que podemos fazer do que em olhar para o que os outros deveriam fazer. Espero que o mundo fique melhor.

AGÊNCIA FIOCRUZ DE NOTÍCIAS
Data Veiculação: 15/05/2020 às 12h34

Presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima participou do Seminário sobre Retorno da Atividade Econômica Pós-Período de Isolamento Social, promovido em formato virtual, pela Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira (14/5). Ela ressaltou o compromisso da instituição no enfrentamento da pandemia, que é o maior desafio de saúde pública mundial do século 21, e apresentou como tem sido o trabalho em diferentes plataformas de informação, integradas pelo Observatório Covid-19. A iniciativa produz informação para análises integradas e soluções de modo colaborativo, integrando grupos de pesquisa e laboratórios da instituição com agilidade para divulgação de materiais que auxiliem na tomada de decisão dos gestores e profissionais de saúde. Entre as iniciativas, destacou o reconhecimento feito pela Escola Nacional de Administração Pública ao MonitoraCovid-19, que traz dados das regiões e municípios brasileiros, com constante atualização, e também o trabalho desenvolvido na Bahia, com o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia). Entre as preocupações da instituição, estão a interiorização da epidemia, considerando-se que 80% dos municípios brasileiros possui menos de 20 mil habitantes, então será desafiador adotar a testagem imediata para conter o avanço da covid-19 para cidades que não possuem estrutura de UTI, nem equipamentos específicos para os casos graves. Segundo Nísia, é necessário estreitar o diálogo da comunidade científica com o comitê interministerial do governo federal, para que qualquer retorno das atividades só seja realizado considerando-se a redução sustentada do número de casos, a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua oferta de leitos, profissionais, equipamentos e a testagem. “A pandemia não é um fenômeno de curta duração, nem é algo que se trata rapidamente. Então, as ações devem ser graduais e as medidas gerais substituídas por especificas avaliando os contextos locais, e com base em evidências científicas, pois será necessário um reforço da vigilância sanitária após a pandemia. Salvar vidas é o nosso objetivo, então a ciência e a coordenação política devem caminhar juntos,” disse ela, acrescentando que o aprendizado da epidemia não está dado. "É fundamental fortalecer o SUS integrando os vários níveis de atenção, fortalecer a saúde mental e seus programas". A presidente da Fiocruz também alertou para a necessidade de se adotar critérios que considerem a dimensão continental do país, e lembrou que a instituição é a coordenadora nacional do estudo clínico Solidarity, da Organização Mundial da Saúde. Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ) ressaltou a necessidade de se discutir parâmetros para o período pós-pandemia. Segundo ele, estamos longe de ter todas as informações importantes para que possamos pensar em uma segunda fase, com o fim do isolamento. “O mapa da Fiocruz choca, pois mostra que a contaminação cresce rápido e vai atingir todas as regiões e municípios do país”, disse. “Eu tinha uma visão muito pró-mercado privado de saúde, mas a gente vê que o SUS é importante”, afirmou. Agentes comunitários devem ser acionados estatística e pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA), Marcia Castro criticou a ausência do papel dos agentes comunitários de saúde (ACS) nos documentos do governo brasileiros relacionados à pandemia. Ela ressaltou que eles têm a confiança das pessoas atendidas pela Estratégia Saúde da Família, sabem onde vivem os idosos e as pessoas com comorbidades, conhecem as áreas que não têm acesso à água, as famílias nas quais o distanciamento social é impossível devido ao pequeno espaço onde vivem, porém o Ministério limita a atuação ao protocolo clínico, sem menção aos agentes comunitários que são peça chave no controle da pandemia. Ela relatou que, em Boston, o governo convocou voluntários para atuarem como “detetives covid”, que possam rastrear os casos positivos e conter o avanço do vírus. “O Brasil já tem os ACS, mas eles não receberam do governo federal nem equipamento de proteção, nem nada que viabilize o trabalho em campo. O que tem sido feito depende de iniciativas locais e não de uma iniciativa nacional, que seria o adequado. Sem a ajuda dos ACS, é impossível pensar em relaxamento do distanciamento social”, disse. A pesquisadora explicou que os agentes podem atuar usando os registros da população que eles já têm e estão nas UBS, com busca ativa de idosos e mapeamento de áreas mais vulneráveis. Outra necessidade que eles poderiam atender é rastrear os contatos das pessoas que testem positivo para Covid-19, e estão hospitalizadas, para que esses contatos que ela teve antes do diagnóstico sejam colocados também em quarentena. Essas frentes de atuação já reduziriam a demanda por serviços hospitalares, que já operam acima da capacidade e, quando as políticas de distanciamento social começarem a ser relaxadas e os comércios, abertos, seria possível rastrear os que testarem positivo e seus contatos. Segundo ela, a equipe da Estratégia de Saúde da Família também continuaria o monitoramento das outras condições de saúde das pessoas, como as rotinas de pré-natal, de imunização, para que não se deteriore ainda mais as condições de saúde da população. “Todo agente de saúde deveria ser testado antes desta implementação, para que não sejam transmissores, e treinados para o uso de equipamentos de proteção individual, garantindo o trabalho com segurança”, disse. Ela exemplificou também a necessidade de parcerias público-privadas para garantir o isolamento dos doentes que não têm condições de sair de suas casas, tal como tem sido feito em Nova York, com o uso de quartos de hotéis vazios. Segundo ela, o processo é longo, mas ainda há tempo para se tomar uma atitude usando a estrutura da atenção básica que já existe no país, para responder de forma adaptada à nossa realidade. Médico e diretor geral do Hospital Sírio Libanês, Paulo Chapchap também ressaltou a importância de manutenção do distanciamento social, para que se tenha capacidade de tratar os que já estão infectados e se infectaram nas próximas semanas antes de se pensar em relaxar as medidas. Segundo ele, é preciso que se pense uma retomada de forma inteligente, considerando a capacidade de se fornecer e usar máscaras no transporte coletivo e no trabalho, verificar as condições de higiene pessoal nos ambientes sociais, com limpeza e higienização frequente, investimento na testagem molecular dos sintomáticos e garantia de condições de quarentena para quem não pode fazer isso nos seus domicílios, proposta também ressaltada pela pesquisadora de Harvard. Segundo ele, a Fiocruz vai ganhar maior capacidade de testagem nos laboratórios do Rio de Janeiro e em Fortaleza, com 10 a 15 mil testes por dia, respectivamente e, gradualmente, isso vai elevar a capacidade de testagem em até 60 mil por dia, no futuro. “A ciência econômica é ciência humana, e ela precisa acolher não só dados fortes e fixos, mas também dados comportamentais e sociais da humanidade. As decisões são tomadas em função da captura que possamos fazer das necessidades das pessoas, que vão além das condições de sobrevivência econômica, mas de vida. Se protegemos a vida de forma mais eficiente, o impacto na economia será menor”, disse. Ele faltou ainda sobre a necessidade de comunicação ampla, localizada e permanente para se detectar novos surtos da infecção que ocorrerão em diferentes localidades do país e em diferentes momentos, ao mesmo tempo em que será preciso capacidade de mobilização de equipamentos, máscaras e leitos para os locais mais atingidos, quando estes itens sobrarem em outros locais. O médico sugeriu também que a Câmara Federal patrocine campanhas de esclarecimento sobre o isolamento social. Economista e ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga foi o moderador do debate e alertou que não existe uma fórmula mágica para a economia voltar a funcionar. Outros países já sentiram a necessidade de lockdown e a Fiocruz já se manifestou sobre isso com sabedoria, segundo ele. Ele destacou os mecanismos de assistência social do país, e as várias medidas tomadas para garantir a liquidez do sistema, ao mesmo tempo em que pequenos negócios, que dependem de contato direto com os clientes, evaporaram. “Esse assunto não é só do sistema bancário, mas de política pública. O objetivo é o achatamento da curva e o ganho de tempo para a chegada de uma vacina”, disse, ressaltando as várias soluções brasileiras, como a rede SUS, os mecanismos de distribuição de recursos como o Bolsa Família e o Cadastro Único, que chega a 100 milhões de pessoas. “É necessária uma participação do governo federal agindo de maneira coordenada com as entidades científicas. Ainda há tempo e necessidade. Não é possível relaxar enquanto a curva sobe”. Fraga ressaltou ainda que passada a crise, será preciso reconstruir o arcabouço de responsabilidade fiscal, gastando com a proteção sanitária, humanitária e social, mas esses gastos devem ser temporários, não permanentes. O seminário virtual foi promovido pela Câmara dos Deputados, por meio da Comissão de Ações contra Coronavírus. Para o responsável pela comissão, deputado Luiz Antônio Teixeira Junior (PP/RJ), o Brasil entrou na pandemia com premissas erradas, de que teríamos recursos humanos e respiradores que aguentassem a necessidade, de que precisávamos de novos hospitais ao invés de usar o que temos e de que conseguiríamos testar todos que fossem necessários. Segundo ele, é precisamos encontrar saídas para este momento. “Não são só os respiradores que vão salvar o país. Quem vai operá-los? Onde serão colocados? Precisamos de mais informação e de união”, disse ele, alertando também para projetos que resgatem a soberania do país na área da saúde, sem depender tanto de outros países. A relatora da Comissão e presidente da Frente Parlamentar da Saúde, deputada Carmem Zanotto (Cidadania/SC), lembrou que a Câmara começou os trabalhos sobre a pandemia ainda em fevereiro, para trazer os brasileiros que estavam nos países que foram epicentro da crise. Ela ressaltou a necessidade de investir na comunicação para manter a esperança da população brasileira. “É preciso reconhecer a saúde como investimento”, disse.

NEWS LAB ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 15/05/2020 às 13h09

A necessidade da abordagem do COVID-19 como uma doença trombótica Publicado por jornalismo em 15 de maio de 2020 ilustração: tctmd A hipótese de que distúrbios de coagulação sanguínea estariam na base dos sintomas mais graves da COVID-19 – entre eles insuficiência respiratória e fibrose pulmonar – foi aventada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em meados de abril. Em menos de um mês, o tema ganhou destaque em reportagens publicadas nos sites da Science e da Mature, duas das mais importantes publicações científicas internacionais. Entre as primeiras pessoas a perceber o “caráter trombótico” da doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) está a médica Elnara Negri, que atua no Hospital das Clínicas da FM-USP e também no Hospital Sírio-Libanês. “Foi por volta do dia 25 de março. Tratávamos uma paciente cuja função respiratória piorava rapidamente e, quando ela foi entubada, percebi que seu pulmão era fácil de ventilar. Não estava enrijecido, como seria esperado em alguém com síndrome do desconforto respiratório agudo. Logo depois notei que essa pessoa apresentava isquemia em um dos dedos do pé”, conta Negri. O sintoma, que tem sido chamado de COVID toes (dedos do pé de COVID), é causado pela obstrução de pequenos vasos que irrigam os dedos dos pés. Negri já havia observado fenômeno semelhante, muitos anos atrás, em pacientes submetidos a aparelhos de circulação extracorpórea durante cirurgia cardíaca. “O equipamento que se usava antigamente bombeava oxigênio no sangue e induzia a formação de coágulos no interior dos vasos. Eu já tinha visto aquele quadro e sabia como tratar”, afirma. A médica prescreveu heparina, um dos medicamentos anticoagulantes mais usados no mundo, e em menos de 18 horas o nível de oxigenação da paciente melhorou. O dedinho do pé, antes vermelho, ficou cor-de-rosa. O efeito se repetiu em outros casos atendidos no Sírio-Libanês. “Após esse dia, tratamos cerca de 80 pacientes com COVID-19 e, até agora, ninguém morreu. Atualmente, quatro estão na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e os demais ou estão na enfermaria ou já foram para casa”, diz. Enquanto a maioria dos estudos indica que casos graves de COVID-19 necessitam, em média, de 28 dias de ventilação mecânica para recuperação, os pacientes tratados com heparina geralmente melhoram entre o 10o e o 14o dia de tratamento intensivo. A experiência clínica com as primeiras 27 pessoas submetidas ao protocolo desenvolvido no Sírio-Libanês foi descrita em artigo disponível na plataforma medRxiv ainda em versão preprint (sem revisão por pares). Evidências patológicas logo após a primeira experiência bem-sucedida com heparina, Negri compartilhou o achado com seus colegas do Departamento de Patologia da FM-USP Marisa Dolhnikoff e Paulo Saldiva, que estão coordenando as autópsias de pessoas que morreram em decorrência da COVID-19 no Hospital das Clínicas. Por meio de procedimentos minimamente invasivos, desenvolvidos durante um projeto apoiado pela FAPESP, os patologistas haviam observado a existência de focos hemorrágicos na rede de pequenos vasos do pulmão, associados à presença de microtrombos – pequenos coágulos formados pela agregação de plaquetas. Juntos, os pesquisadores da FM-USP redigiram o primeiro artigo da literatura científica que descreveu “evidências patológicas de fenômenos trombóticos pulmonares em COVID-19 grave”. O trabalho, revisado por pares e aceito para publicação no Journal of Thrombosis and Haemostasis, tem potencial para revolucionar o tratamento da doença. Mudança de paradigma O SARS-CoV-2 não foi o primeiro coronavírus a causar uma crise de saúde pública. Entre os anos de 2002 e 2003, quase 800 pessoas morreram em decorrência da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) no mundo e, desde 2012, aproximadamente 850 foram vitimadas pela síndrome respiratória do oriente médio (MERS, na sigla em inglês). Nenhuma das duas doenças chegou ao Brasil até o momento. “Pacientes com SARS ou com MERS desenvolvem uma forte reação inflamatória no pulmão, que pode levar ao desenvolvimento de um quadro conhecido como síndrome do desconforto respiratório agudo. Os alvéolos pulmonares – aqueles pequenos sacos onde ocorrem as trocas gasosas – ficam cheios de células mortas, pus e outras substâncias inflamatórias. Isso faz o pulmão ficar duro e impede a oxigenação adequada do organismo”, explica Negri. Segundo a médica, o que ocorre em pacientes com COVID-19 é diferente – pelo menos no início. O SARS-CoV-2 não causa uma inflamação muito forte no pulmão, mas induz a descamação do tecido epitelial existente no interior dos alvéolos. “As células epiteliais morrem após serem infectadas, caem para a luz alveolar e deixam a membrana basal exposta. O sistema de defesa do organismo entende que a região está em ‘carne viva’ e que há risco de hemorragia. Tem início uma tempestade de interleucinas [proteínas que atuam como sinalizadores imunes] que ativa o que chamamos de ‘cascata de coagulação’. As plaquetas começam a se agregar para formar trombos e estancar o suposto vazamento”, explica Negri. Os coágulos acabam obstruindo pequenos vasos do pulmão e causando microinfartos. As regiões do tecido que morrem por falta de irrigação dão lugar a tecido cicatricial – processo conhecido como fibrose. Além disso, os microtrombos que se formam na interface do alvéolo com os vasos sanguíneos impedem a passagem do oxigênio para as pequenas artérias. “Isso explica por que pacientes com COVID-19 podem não sentir dificuldade para respirar mesmo estando com uma saturação muito baixa de oxigênio. Muitos chegam ao hospital andando e falando e logo depois precisam ser entubados”, diz. Caso não se trate o quadro de coagulação intravascular rapidamente, os pontos de infarto e de fibrose tendem a se espalhar pelo pulmão. Bactérias ou fungos oportunistas podem infectar o tecido lesionado e causar pneumonia, uma vez que o SARS-CoV-2 induz a diminuição das células de defesa (linfopenia). Eventualmente, no final desse processo, o paciente pode desenvolver a síndrome do desconforto respiratório agudo. Negri observou que a heparina ajuda a impedir que isso ocorra por dois mecanismos: o fármaco desfaz os microtrombos que impedem o oxigênio de passar do alvéolo para as pequenas artérias pulmonares e, além disso, ajuda na recuperação do endotélio vascular, a camada de células epiteliais que recobre o interior dos vasos sanguíneos. “O endotélio lesionado é como uma estrada esburacada, que dificulta o fluxo sanguíneo e induz a formação de novos coágulos. E isso gera um efeito bola de neve”, explica a médica. Um terceiro possível mecanismo de ação da heparina foi descrito em estudo recente conduzido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com apoio da FAPESP. A equipe coordenada pela biomédica Helena Bonciani Nader verificou in vitro que o fármaco pode reduzir em até 70% a infecção de células pelo novo coronavírus. “Talvez exista um efeito antiviral, que ainda precisa ser mais bem estudado. Costumo dizer que estamos trocando o pneu com o carro andando”, diz Negri. Para a pneumologista, porém, o fato de muitas pessoas diagnosticadas com COVID-19 terem sido tratadas, desde o início, como casos de síndrome do desconforto respiratório agudo – mantidas na UTI com menor nível de hidratação e ventilação mecânica mais intensa – pode ter custado muitas vidas. “Essas duas abordagens agravam o quadro trombótico. O tratamento requer uma mudança de paradigma”, afirma. Negri defende que a intervenção com anticoagulante comece assim que se comprove que a saturação de oxigênio está abaixo de 93%, o que pode ocorrer entre o sétimo e o 10o dia após o início dos sintomas gripais e é possível de ser detectado em consultório médico ou Unidade Básica de Saúde (UBS). “Mas não adianta comprar o remédio na farmácia e tomar por via oral. Desse modo não há efeito terapêutico e ainda pode induzir uma hemorragia”, alerta. “O tratamento deve ser injetável e a dose ajustada pelo médico.” Vale ressaltar que os efeitos da heparina sobre diversos processos fisiológicos são expressivos e sua administração sem supervisão médica resulta em importante risco à vida. No tratamento da COVID-19, a automedicação, sem atenção especial aos efeitos adversos, pode colocar em risco a saúde dos pacientes. Evidência definitiva para comprovar a eficácia da heparina no tratamento da COVID-19 ainda é preciso fazer um ensaio clínico randomizado, ou seja, separar dois grupos de pacientes com características semelhantes aleatoriamente e tratar apenas um deles com o fármaco, para em seguida comparar os resultados com os observados no grupo não tratado. Os pesquisadores da FM-USP planejam iniciar em breve um projeto com essa finalidade em parceria com grupos da Universidade de Toronto (Canadá) e da Universidade de Amsterdã (Países Baixos). Aguardam apenas aprovação do Comitê de Ética do Hospital das Clínicas e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). “A ideia é tratar com heparina aqueles pacientes que acabaram de chegar ao pronto-socorro com queda na saturação [de oxigênio] e observar se com o tratamento anticoagulante é possível evitar a ventilação mecânica”, conta. Com informações de Agência Fapesp, texto de Karina Toledo. Compartilhar

UOL NOTÍCIAS - ÚLTIMAS NOTÍCIAS/SÃO PAULO
Data Veiculação: 15/05/2020 às 13h58

É falsa a declaração de um youtuber de que o infectologista David Uip deixou a chefia no Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, criado pelo governo paulista, por não concordar com as políticas de isolamento social estabelecidas pelo governador João Doria (PSDB). O vídeo foi postado na última segunda-feira, dia 11 de maio, três dias depois do anúncio do afastamento do médico. No vídeo, o youtuber Fabiano Guiguet afirma que o médico era o secretário da Saúde do Estado e que foi afastado por não concordar com a quarentena decretada pelo governo. Essas informações são falsas. O secretário estadual da Saúde é o médico José Henrique Germann Ferreira. Uip coordenava o Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, criado em fevereiro para desenvolver ações contra a propagação da covid-19. Foi o próprio comitê que recomendou as medidas de isolamento social adotadas pelo Estado. Na semana passada, Uip alegou problemas cardíacos em uma carta endereçada ao governador e encaminhada para a imprensa. No texto, afirmou que voltará às atividades quando estiver restabelecido. O médico foi substituído pelo infectologista Dimas Covas. O youtuber também alega que pacientes com a covid-19 estão sendo levados da capital para o interior do estado, por ordem do governador, para "aumentar os números e ele poder dar a desculpa de continuar na quarentena". Mas os dados de transferência de pacientes desmentem essa afirmação. Por que checamos isto? O Comprova verificou este conteúdo porque ele se insere no contexto de crescente tensão entre o governo federal e os governos estaduais a respeito de como lidar com a pandemia do novo coronavírus. O presidente Jair Bolsonaro é contrário às medidas de distanciamento social, enquanto os governadores, João Doria entre eles, têm imposto essas medidas, seguindo orientações de suas respectivas autoridades sanitárias, do Ministério da Saúde e da OMS. Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original ou que tenha sido divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira. Como verificamos? Procuramos o doutor David Uip para esclarecer as afirmações do vídeos. Desde que deixou o governo, no dia 8 de maio, o médico parou de dar entrevistas e respondeu, apenas, através da assessoria de imprensa. Também entramos em contato com as assessorias de comunicação do governo de São Paulo e da Secretaria Estadual da Saúde para esclarecer o afastamento de David Uip e entender as políticas de transferência de pacientes com covid-19 no Estado. Buscamos dados de infecção pelo novo coronavírus com a prefeitura de São José do Rio Preto, cidade que é citada no vídeo. Por fim, tentamos contato com o youtuber Fabiano Guiguet para entender as razões que o levaram a gravar e publicar o vídeo. Verificação No dia 8 de maio, o médico infectologista anunciou que se afastaria temporariamente do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo após sentir um mal-estar, com alterações cardiológicas e clínicas. Ele tem histórico de problemas cardíacos. Dentro do governo, Uip era um dos principais apoiadores da quarentena imposta pelo governo estadual. Na carta em que anunciou o afastamento, disse que estava entristecido por não estar fisicamente presente neste momento. "No entanto, tenho a plena convicção de que São Paulo está no caminho certo. E está salvando vidas", escreveu. Uip ainda garante que a saída não é definitiva: "Fico temporariamente afastado e espero estar recuperado, para retomar minha contribuição ao Centro de Contingência do Coronavírus". Na entrevista coletiva em que anunciou a saída de Uip, o governador João Doria lamentou e agradeceu aos profissionais de saúde: "Em respeito, principalmente, à medicina, aos médicos, aos paramédicos, aos enfermeiros, àqueles que atuam na saúde como o doutor David Uip, que têm sacrificado a sua vida, têm sacrificado parte da sua saúde para ajudar milhões de brasileiros em São Paulo". No mesmo evento, Doria anunciou a prorrogação da quarentena no Estado até o dia 31 de maio. Quem é David Uip? David Uip tem 67 anos e é médico especialista em doenças infecciosas. Ele trabalha em dois dos maiores hospitais particulares da capital paulista, o Sírio-Libanês e o Hospital Israelita Albert Einstein. Uip foi secretário Estadual da Saúde na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), de 2013 a 2018, e desde o dia 26 de fevereiro coordenava o Comitê de Saúde do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo. Em 23 março, Uip foi diagnosticado com a covid-19. "Foram duas semanas de agonia", disse ao descrever os sintomas. Permaneceu duas semanas afastado das atividades do comitê, mas não chegou a ser internado. E, diferentemente do que afirma o vídeo verificado, ele não confirmou se foi tratado com a cloroquina, medicamento defendido, sem comprovação científica, pelo presidente Bolsonaro e seus apoiadores como a "cura" para a covid-19. Uip não acredita que os problemas cardíacos que levaram ao seu afastamento no dia 8 de maio tenham relação com eventuais sequelas deixadas pelo novo coronavírus. "É muito mais pelos meus antecedentes, três stents no coração. (…) Tem que investigar para ver o que é." O médico passou mal no dia 6 de maio e, orientado pelo cardiologista Roberto Kalil, decidiu deixar as atividades no comitê. Qual é a situação em São José do Rio Preto? No vídeo, o youtuber Fabiano Guiguet ainda acusa o governo estadual de transferir pacientes com covid-19 para inflar o número de casos no interior. E dá o exemplo de São José do Rio Preto, onde os casos teriam sido multiplicados por dez em apenas dois dias. A informação não é verdadeira. No dia 11 de maio, data da publicação do vídeo, a cidade registrava 308 casos confirmados de covid-19, com dez mortes, segundo dados da prefeitura. Três dias antes, no dia 8 de maio, eram 236 casos, com as mesmas dez mortes. O secretário Municipal de Saúde, Aldenis Borim, atribuiu o crescimento no número de pessoas infectadas na cidade ao desrespeito à quarentena. "Nas duas últimas semanas essa curva se coloca quase vertical, ou seja, o aumento de casos está muito preocupante para a Secretaria de Saúde. Se deve, na maioria das vezes, devido ao isolamento que não está sendo cumprido adequadamente. Se isso continuar dessa maneira, no futuro próximo poderá inclusive apertar este isolamento", disse. Questionamos a política de gestão de pacientes da Secretaria Estadual de Saúde. Por e-mail, a assessoria explicou que as transferências entre hospitais e municípios "serão feitas se e quando houver necessidade, pela Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (Cross), sistema online que funciona 24 horas por dia e verifica vagas disponíveis em hospitais do SUS em São Paulo". Até o momento não houve transferências para São José do Rio Preto. Quem é o youtuber? O vídeo foi publicado no canal de YouTube Pais e Filhos, mantido por Fabiano Guiguet desde 2017. Os primeiros vídeos eram sobre produtos que ele comprava, como capas de piscina e relógios. Em 2018, o youtuber postou um vídeo criticando o jornal Folha de S. Paulo e, desde então, quase todas as publicações têm conteúdo político, com apoio declarado ao presidente Jair Bolsonaro e ataques a tudo e todos que as redes bolsonaristas enxergam como "inimigos": o governador João Doria, a Rede Globo, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), e, mais recentemente, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro (que tinha sido chamado de "o maior ministro que o Brasil já teve" no começo do canal). Os vídeos são monetizados, o que significa que Guiguet recebe um valor do YouTube a cada visualização. Ele ganhou uma placa comemorativa do site quando chegou a 100 mil seguidores (até o dia 14 de maio esse número já chegava a 396 mil) e agradeceu o presidente Bolsonaro pela conquista. O Comprova tentou contato com Guiguet para esta verificação através do e-mail que ele disponibiliza no canal de Youtube. Mas, até a data da publicação, não houve resposta. Contexto Como destacado acima, esse vídeo foi publicado em meio à contínua tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores, em especial João Doria, percebido por Bolsonaro como um adversário político para 2022. Na quinta-feira, 14, Bolsonaro aproveitou uma conferência com grandes empresários para estimular que eles pressionem os governadores a reabrir o comércio. "Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado. Jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra", afirmou Bolsonaro. Doria rebateu: "O presidente Jair Bolsonaro despreza vidas. Ele prefere fazer comícios, andar de jet ski, treinar tiros e fazer churrasco. Enquanto isso, milhares de brasileiros estão morrendo todos os dias", disse. Com isso, apoiadores do presidente elegeram Doria como alvo preferencial durante a pandemia do novo coronavírus. O governador de São Paulo foi um dos primeiros a colocar em vigor medidas severas de distanciamento social, como a quarentena, decretada no dia 22 de março e prorrogada até o dia 31 de maio. Desde 7 de maio os paulistas também são obrigados a usar máscaras em lugares públicos para tentar reduzir a contaminação. A informação falsa a respeito de David Uip é relevante, pois o médico é uma figura estratégica na política de isolamento adotada pelo Estado. Alcance O vídeo com informações falsas publicado no canal de YouTube Pais e Filhos teve 139 mil visualizações até a publicação desta verificação.

GOVERNO DE SÃO PAULO
Data Veiculação: 15/05/2020 às 14h35

A hipótese de que distúrbios de coagulação sanguínea estariam na base dos sintomas mais graves da doença COVID-19 – entre eles, insuficiência respiratória e fibrose pulmonar – foi cogitada por pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP) em meados de abril. Em menos de um mês, o tema ganhou destaque em reportagens publicadas nos sites da Science e da Nature, duas das mais importantes publicações científicas internacionais. Entre as primeiras pessoas a perceber o “caráter trombótico” da doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) está a médica Elnara Negri, que atua no Hospital das Clínicas da FM-USP e também no Hospital Sírio-Libanês. “Foi por volta do dia 25 de março. Tratávamos uma paciente cuja função respiratória piorava rapidamente e, quando ela foi entubada, percebi que seu pulmão era fácil de ventilar. Não estava enrijecido, como seria esperado em alguém com síndrome do desconforto respiratório agudo. Logo depois notei que essa pessoa apresentava isquemia em um dos dedos do pé”, explica Elnara Negri à Agência Fapesp. Obstrução O sintoma, que tem sido chamado de COVID toes (dedos do pé de COVID), é causado pela obstrução de pequenos vasos que irrigam os dedos dos pés. Negri já havia observado fenômeno semelhante, muitos anos atrás, em pacientes submetidos a aparelhos de circulação extracorpórea durante cirurgia cardíaca. “O equipamento que se usava antigamente bombeava oxigênio no sangue e induzia a formação de coágulos no interior dos vasos. Eu já tinha visto aquele quadro e sabia como tratar”, afirma. A médica prescreveu heparina, um dos medicamentos anticoagulantes mais usados no mundo, e em menos de 18 horas o nível de oxigenação da paciente melhorou. O dedinho do pé, antes vermelho, ficou cor-de-rosa. O efeito se repetiu em outros casos atendidos no Sírio-Libanês. “Após esse dia, tratamos cerca de 80 pacientes com COVID-19 e, até agora, ninguém morreu. Atualmente, quatro estão na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e os demais ou estão na enfermaria ou já foram para casa”, diz. Enquanto a maioria dos estudos indica que casos graves de COVID-19 necessitam, em média, de 28 dias de ventilação mecânica para recuperação, os pacientes tratados com heparina geralmente melhoram entre o 10º e o 14º dia de tratamento intensivo. A experiência clínica com as primeiras 27 pessoas submetidas ao protocolo desenvolvido no Sírio-Libanês foi descrita em artigo disponível na plataforma medRxiv, ainda em versão pré-print (sem revisão por pares). Evidências patológicas Logo após a primeira experiência bem-sucedida com heparina, Negri compartilhou o achado com seus colegas do Departamento de Patologia da FM-USP Marisa Dolhnikoff e Paulo Saldiva, que estão coordenando as autópsias de pessoas que morreram em decorrência da COVID-19 no Hospital das Clínicas. Por meio de procedimentos minimamente invasivos, desenvolvidos durante um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os patologistas haviam observado a existência de focos hemorrágicos na rede de pequenos vasos do pulmão, associados à presença de microtrombos – pequenos coágulos formados pela agregação de plaquetas. Juntos, os pesquisadores da FM-USP redigiram o primeiro artigo da literatura científica que descreveu “evidências patológicas de fenômenos trombóticos pulmonares em COVID-19 grave”. O trabalho, revisado por pares e aceito para publicação no Journal of Thrombosis and Haemostasis, tem potencial para revolucionar o tratamento da doença. Mudança de paradigma O SARS-CoV-2 não foi o primeiro coronavírus a causar uma crise de saúde pública. Entre os anos de 2002 e 2003, quase 800 pessoas morreram em decorrência da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) no mundo e, desde 2012, aproximadamente 850 foram vitimadas pela síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês). Nenhuma das duas doenças chegou ao Brasil até o momento. “Pacientes com SARS ou com MERS desenvolvem uma forte reação inflamatória no pulmão, que pode levar ao desenvolvimento de um quadro conhecido como síndrome do desconforto respiratório agudo. Os alvéolos pulmonares – aqueles pequenos sacos onde ocorrem as trocas gasosas – ficam cheios de células mortas, pus e outras substâncias inflamatórias. Isso faz o pulmão ficar duro e impede a oxigenação adequada do organismo”, explica Negri. Segundo a médica, o que ocorre em pacientes com COVID-19 é diferente – pelo menos no início. O SARS-CoV-2 não causa uma inflamação muito forte no pulmão, mas induz a descamação do tecido epitelial existente no interior dos alvéolos. “As células epiteliais morrem após serem infectadas, caem para a luz alveolar e deixam a membrana basal exposta. O sistema de defesa do organismo entende que a região está em ‘carne viva’ e que há risco de hemorragia. Tem início uma tempestade de interleucinas [proteínas que atuam como sinalizadores imunes] que ativa o que chamamos de ‘cascata de coagulação’. As plaquetas começam a se agregar para formar trombos e estancar o suposto vazamento”, explica Negri. Irrigação Os coágulos acabam obstruindo pequenos vasos do pulmão e causando microinfartos. As regiões do tecido que morrem por falta de irrigação dão lugar a tecido cicatricial – processo conhecido como fibrose. Além disso, os microtrombos que se formam na interface do alvéolo com os vasos sanguíneos impedem a passagem do oxigênio para as pequenas artérias. “Isso explica por que pacientes com COVID-19 podem não sentir dificuldade para respirar mesmo estando com uma saturação muito baixa de oxigênio. Muitos chegam ao hospital andando e falando e logo depois precisam ser entubados”, diz. Caso não se trate o quadro de coagulação intravascular rapidamente, os pontos de infarto e de fibrose tendem a se espalhar pelo pulmão. Bactérias ou fungos oportunistas podem infectar o tecido lesionado e causar pneumonia, uma vez que o SARS-CoV-2 induz a diminuição das células de defesa (linfopenia). Eventualmente, no final desse processo, o paciente pode desenvolver a síndrome do desconforto respiratório agudo. Negri observou que a heparina ajuda a impedir que isso ocorra por dois mecanismos: o fármaco desfaz os microtrombos que impedem o oxigênio de passar do alvéolo para as pequenas artérias pulmonares e, além disso, ajuda na recuperação do endotélio vascular, a camada de células epiteliais que recobre o interior dos vasos sanguíneos. “O endotélio lesionado é como uma estrada esburacada, que dificulta o fluxo sanguíneo e induz a formação de novos coágulos. E isso gera um efeito bola de neve”, explica a médica. Estudo Um terceiro possível mecanismo de ação da heparina foi descrito em estudo recente conduzido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com apoio da Fapesp. A equipe coordenada pela biomédica Helena Bonciani Nader verificou in vitro que o fármaco pode reduzir em até 70% a infecção de células pelo novo coronavírus. “Talvez exista um efeito antiviral, que ainda precisa ser mais bem estudado. Costumo dizer que estamos trocando o pneu com o carro andando”, diz Negri. Para a pneumologista, porém, o fato de muitas pessoas diagnosticadas com COVID-19 terem sido tratadas, desde o início, como casos de síndrome do desconforto respiratório agudo – mantidas na UTI com menor nível de hidratação e ventilação mecânica mais intensa – pode ter custado muitas vidas. “Essas duas abordagens agravam o quadro trombótico. O tratamento requer uma mudança de paradigma”, afirma. Negri defende que a intervenção com anticoagulante comece assim que se comprove que a saturação de oxigênio está abaixo de 93%, o que pode ocorrer entre o sétimo e o 10o dia após o início dos sintomas gripais e é possível de ser detectado em consultório médico ou Unidade Básica de Saúde (UBS). “Mas não adianta comprar o remédio na farmácia e tomar por via oral. Desse modo não há efeito terapêutico e ainda pode induzir uma hemorragia”, alerta. “O tratamento deve ser injetável e a dose ajustada pelo médico.” Vale ressaltar que os efeitos da heparina sobre diversos processos fisiológicos são expressivos e sua administração sem supervisão médica resulta em importante risco à vida. No tratamento da COVID-19, a automedicação, sem atenção especial aos efeitos adversos, pode colocar em risco a saúde dos pacientes. Evidência definitiva Para comprovar a eficácia da heparina no tratamento da COVID-19, ainda é preciso fazer um ensaio clínico randomizado, ou seja, separar dois grupos de pacientes com características semelhantes aleatoriamente e tratar apenas um deles com o fármaco, para em seguida comparar os resultados com os observados no grupo não tratado. Os pesquisadores da FM-USP planejam iniciar em breve um projeto com essa finalidade em parceria com grupos da Universidade de Toronto (Canadá) e da Universidade de Amsterdã (Países Baixos). Aguardam apenas aprovação do Comitê de Ética do Hospital das Clínicas e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). “A ideia é tratar com heparina aqueles pacientes que acabaram de chegar ao pronto-socorro com queda na saturação [de oxigênio] e observar se com o tratamento anticoagulante é possível evitar a ventilação mecânica”, finaliza.