Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

O GLOBO ONLINE/RIO DE JANEIRO
Data Veiculação: 14/05/2020 às 15h02

BRASÍLIA - Em seminário nesta quinta-feira realizado pela Comissão Externa de Ações contra o Coronavírus da Câmara dos Deputados, o economista e ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga afirmou que não é possível fazer o afrouxamento das regras de isolamento social no país enquanto as contaminações e mortes decorrentes do novo coronavírus estiverem em ascendência. No evento, as discussões giraram em torno do possível retorno das atividades econômicas e sociais no país. Mansueto: Tesouro estima rombo de até R$ 700 bil nas contas públicas em 2020 - Nós vamos depender de uma inversão confiável das curvas. É fundamental, aqui, investir na obtenção de informação de qualidade. É fundamental, e nós não podemos errar. Isso lembra um pouquinho o trabalho do Banco Central no sistema de metas, existem modelos do mais variados e super sofisticados da economia, assim como da pandemia. Mas, na prática, nada substitui a boa informação e a simples observação das curvas. Enquanto as curvas estiverem apontando para cima, não dá para pensar em relaxamento - afirmou o ex-presidente do BC. O seminário, além de Armínio, teve a participação da presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade, da pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA) Marcia Castro, e do diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap. Servidores: Estados já admitem atrasar salário de servidores, com demora do socorro da União O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), também disse que o Brasil ainda está longe de ter um "mapa correto" da contaminação por causa da baixa testagem. O presidente da Casa afirmou ainda o setor privado tem pressionado empresas pela abertura, mas que apenas a elite do país terá capacidade de se isolar para evitar a contaminação. - Não é possível que a gente estimule o fim do isolamento quando apenas a elite brasileira poderá ficar isolada, enquanto os brasileiros mais simples vão para os ônibus, vão para seus trabalhos em aglomerações, e nas comunidades sem nenhuma capacidade de isolamento. E a gente não vê nenhum protocolo, nada organizado de forma estrutural na relação do governo federal com estados e municípios para que esse tema pudesse ter sido resolvido há muito tempo - criticou Maia. Armínio destacou que a necessidade de parâmetros e manifestações unificadas do Poder Público em relação às medidas de isolamento social e combate à doença é importante neste momento. Desde o início da crise no mundo, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem defendido o afrouxamento das medidas de isolamento para retomar a atividade econômica. Geração perdida: economia terá pior desempenho em 120 anos, com ameaça emprego de jovens Armínio, Nísia e Márcia afirmaram durante o seminário que é preciso unificação do discurso para que a população não tenha informações "desencontradas" e reforçaram que o isolamento social funciona. - O importante nesse momento é a integração das medidas, é a coordenação das medidas e parâmetros claros. Seguramente, sair dessa situação de isolamento sem todos os cuidados que foram colocados aqui nos levará a uma situação de muita gravidade. Os dados estão aí apontando para isso e o que se faz necessário agora é uma coordenação. E quando a gente fala coordenação, não significa uniformizar as medidas, mas dizer em que locais a partir do aumento de casos, da disponibilidade de equipamentos no sistema de saúde, da capacidade de testagem, como isso se combina para essas medidas - afirmou Nísia. Leia: Comerciantes renegociam aluguéis, e Justiça já autoriza desconto de 70% A estatística e pesquisadora Márcia Castro ressaltou a importância dos agentes comunitários de saúde, com treinamento e equipamento adequado, na compreensão de como a covid-19 atinge a população de algumas localidades e que, sem eles, não se pode pensar em afrouxamento das medidas. Para ela, esses profissionais são essenciais na eventual reabertura dos comércios e das cidades, já que os agentes comunitários de saúde podem agir como "detetives covid", por terem acesso aos registros da população que eles atendem nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). O processo teria dois pilares: o primeiro, por meio do uso desses registros para realizar a busca de idosos e pessoas com comorbidades, além do mapeamento de áreas mais vulneráveis por características locais e padrões de desigualdade social. O segundo pilar consiste em rastrear os contatos das pessoas que tenham sido positivadas com covid-19 e de casos suspeitos para que eles sejam testados e colocados em quarentena. Leia: Bolsonaro diz que Caixa vai prorrogar por 4 meses suspensão de prestações da casa própria - A busca ativa e o rastreamento de contatos pelos agentes comunitários seriam críticos neste momento em que muitas cidades praticam algum tipo de distanciamento social a fim de minimizar a infecção entre grupos de risco e maximizar a detecção de indivíduos que possam ter sido expostos ao risco e possam ser transmissores. Isso contribuiria para reduzir a demanda de serviços hospitalares que já está acima da capacidade em várias cidades do Brasil. A busca ativa e o rastreamento também seriam críticos quando as políticas de distanciamento começarem a ser relaxadas a fim de minimizar a ocorrência de subsequentes ondas de transmissão do coronavírus que muito provavelmente vão acontecer se a gente simplesmente começa a abrir o comércio e começa a abrir as cidades sem ter um mecanismo de rastrear os positivos e os contatos - explicou a pesquisadora. 'Imunidade de rebanho' O diretor do Sírio-Libanês, Paulo Chapchap também destacou a importância de "instruir o isolamento social" e que o Brasil não sairá da pandemia com a chamada "imunidade de rebanho", que consiste em deixar o vírus circular livremente para que as pessoas contraiam e adquiram imunidade à doença. Viu isso?Congresso aprova aumento de salário para policiais e bombeiros do Distrito Federal - Senhores, nós não vamos sair desta pandemia tendo um alto grau de imunidade da população, a chamada imunidade de rebanho. Isso vai demorar muito. Nos países em que isso está mais adiantado, aponta para 10% a 20% da população nesse momento, depois de termos sofrido o pico, o platô, e estarmos no decréscimo. Não temos a vacina, a imunidade de rebanho não será uma realidade. Nós temos que continuar protegendo a nossa população na saída de um isolamento mais rigoroso através de uma testagem do isolamento localizado de pessoas infectadas e de populações altamente vulneráveis. Nós vamos ter de ir para uma nova forma de convivência, que vai durar - afirmou. Para afrouxar o isolamento, explicou o médico, será necessário monitorar o índice de isolamento social, pois qualquer relaxamento da medida deverá ser feito em cima de alto índice de isolamento anterior; além das curvas de contágio com números de casos novos, de internados e de mortos. Em 2020: Mais da metade dos países do mundo deve ter desemprego maior do que na crise de 2008 Chapchap chamou atenção, entretanto, que o número de casos novos não é confiável dada a baixa testagem no Brasil, que exige acompanhamento das curvas de internados e mortos. Também é necessário atentar à disponibilidade de estrutura assistencial, monitorando não apenas a disponibilidade de leitos, mas também a de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) das equipes de saúde e das próprias equipes de saúde, que afirmou ser "o que vai faltar mais rápido".