Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

MUNDO DIGITAL/SÃO PAULO
Data Veiculação: 08/07/2020 às 00h00

A plataforma RadVid-19 de inteligência artificial (IA) para diagnóstico do novo coronavírus, tem ajudado médicos e instituições de saúde de todo o país a otimizarem o diagnóstico e o tratamento contra a Covid-19 Desde que foi lançada, há pouco mais de um mês, já recebeu 21.500 mil acessos e cadastrou quase sete mil exames de imagens enviados por radiologistas de 12 estados brasileiros, com 71% de resultados positivos para a Covid-19. Alimentada por um vasto banco de imagens de raios-X e tomografias do tórax de pacientes de 50 hospitais cadastrados de todo o Brasil até o momento –, a plataforma é capaz de identificar indícios da presença de Covid-19 nos exames, a partir de algoritmos e tecnologia de inteligência artificial. A Huawei foi uma das parceiras tecnológicas do projeto. O serviço está disponível gratuitamente para médicos e instituições de saúde de todo o Brasil. O objetivo é auxiliar a tomada de decisão sobre o melhor tratamento a ser indicado contra a doença causada pelo novo coronavírus, com base em um diagnóstico mais preciso. A proposta do sistema é realizar a leitura de raios-x e tomografias computadorizadas, e indicar a probabilidade de a pessoa estar ou não infectada pela Covid-19. O processo, rápido e simples, acontece via identificação de padrões comuns da doença nos exames de imagem. A ferramenta mostra também o grau de comprometimento pulmonar e, assim, cria um grande banco de dados, que pode auxiliar médicos a definir conduta e possível tratamento mesmo antes do resultado de outros tipos testes. Além disso, a plataforma permite que médicos radiologistas em plantão online possam esclarecer dúvidas de diagnóstico com base nos exames de imagem – indicando, por exemplo, alta ou baixa probabilidade para Covid-19. "Desde o final de maio temos radiologistas experiente em regime de plantão. A ideia é auxiliar demais médicos de hospitais de todo o país que utilizam a plataforma, para sanar dúvidas e discutir casos de pacientes, com o diagnóstico preciso baseado no algoritmo de inteligência artificial disponível na plataforma", destaca o diretor do InovaHC, Marco Bego. Além dos plantonistas, "a plataforma está em constante aprimoramento. Em breve serão liberadas novas funcionalidades para auxiliar os profissionais que estão em locais com casos mais críticos por causa da pandemia", completa Giovanni Guido Cerri, presidente do instituto. Empresas parceiras A plataforma é um projeto do InovaHC e do Instituto de Radiologia (InRad), ambos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), viabilizado pelo Todos pela Saúde com apoio do Itaú Unibanco e pela Petrobras. Entre os parceiros tecnológicos estão Amazon Web Services, GE Healthcare – Divisão de Enterprise Digital Solutions (EDS), Huawei e Siemens Healthineers - Área de Digital Health. Instituições como o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), a Sociedade Paulista de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (SPR) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também estão no projeto como apoio institucional. A Deloitte apoia a estratégia, o aconselhamento e a governança dor projeto. Entre os parceiros estão o Grupo Fleury e o Instituto Tellus. O Hospital Sírio-Libanês faz parte como parceiro na idealização e construção do projeto. A plataforma RadVid ainda tem a Fundação Novartis como parceiro estratégico e apoio das secretarias estaduais de Desenvolvimento Econômico e da Saúde e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Profissionais de saúde e instituições médicas de todo o país podem acessar a plataforma pela internet www.radvid19.hc.fm.usp.br

FOLHA DE S.PAULO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 08/07/2020 às 23h15

Ao menos 7% das pessoas que ocupam os principais cargos políticos do país já foram contaminadas com a Covid-19. Além do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), 65, que anunciou na terça-feira (7) estar com a doença, o coronavírus já infectou dois ministros de Estado, 8 dos 27 governadores, cinco prefeitos de capital e pelo menos 31 dos 594 deputados federais e senadores. Até o momento, a maioria desses 47 políticos afirma já ter se curado. Não houve mortes nesse grupo. Entre os pelo menos 23 que se infectaram na Câmara, está o deputado federal Christino Aureo (PP-RJ), que anunciou o resultado positivo em 24 de junho, nas redes sociais. Dois dias depois, também na internet, registrou a morte do pai, vítima do novo coronavírus. "Amigas e amigos, comunico que, apesar de toda a luta, hoje meu pai fez a sua passagem. Tenho convivido ao longo da minha vida com muitas pessoas e aprendido com elas, mas foi com meu pai que aprendi as bases de tudo o que eu sou", escreveu o deputado. Outro, o deputado Sóstenes Cavalcanti (DEM-RJ), negacionista das teses mais consensuais da ciência relativas à doença, diz que chegou a pensar em gravar um vídeo de despedida da família, conforme relatou a coluna Painel. Um dos mais recentes a anunciar ter contraído a doença, o deputado Wladimir Garotinho (PSD-RJ), que é jovem (tem 35 anos), foi um dos que comentaram o anúncio feito por Bolsonaro na terça. "Como sabem, superei a Covid-19. Mesmo com sintomas moderados, foi difícil suportar as dores e o isolamento total. Não deseje esse mal a ninguém. Por mais que ele tenha zombado da doença, talvez agora repense atitudes. Deus abençoe o chefe do poder em exercício no Brasil." No Senado, oito parlamentares tiveram a confirmação da Covid-19, entre eles o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), 43, um dos primeiros a se contagiar. Ele já está recuperado. Dos governadores, o último a anunciar teste positivo foi o de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), 52, no dia 1º. Entre os prefeitos de capital, os tucanos Bruno Covas (São Paulo), 40, e Arthur Virgílio Neto (Manaus), 74, estão entre os que foram contagiados. Responsável por uma cidade mais afetadas no país pela Covid, Virgílio foi transferido na segunda-feira (6) para o hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, após seis dias de internação. Em vídeo divulgado em um leito do hospital paulistano, na noite de terça-feira (7), o tucano disse que a fase pior já passou. "Agora é ter paciência, fazer fisioterapia, tomar os remédios adequados e voltar para a luta, que é o que desejo." Até agora, dois deputados estaduais morreram, vítima da Covid-19: Gil Vianna (PSL-RJ), 54, no dia 19 de maio, e José Gentil (Republicanos-MA), 80, em 15 de junho. Alguns prefeitos de cidades do interior também morreram, entre eles dois do interior de São Paulo: Rodrigo Aparecido Santana Rodrigues (DEM), 35, de Santo Antônio do Aracanguá, no dia 26, e Antônio Carlos Vaca (PSDB), 73, de Borebi, no dia 20. Nesta quarta-feira (8) morreu, também em decorrência da Covid-19, o prefeito de Santana do Ipanema (AL), Isnaldo Bulhões (MDB), 78. Não há, por ora, registro público de que algum dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal tenha contraído o novo coronavírus. VEJA BANCADA DOS INFECTADOS PELA COVID-19 NO TOPO DO MUNDO POLÍTICO* Executivo federal Jair Bolsonaro, presidente da República Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional Bento Albuquerque, ministro das Minas e Energia Governadores Wilson Witzel (PSC-RJ) Helder Barbalho (MDB-PA) Renan Filho (MDB-AL) Paulo Câmara (PSB-PE) Antonio Denarium (PSL-RR) Renato Casagrande (PSB-ES) Carlos Moisés (PSL-SC) Mauro Mendes (DEM-MT) Prefeitos de capital Roberto Cláudio (PDT), de Fortaleza Edvaldo Nogueira (PDT), de Aracaju Arthur Virgílio Neto (PSDB), de Manaus Bruno Covas (PSDB), de São Paulo Firmino Filho (PSDB), de Teresina Senadores Davi Alcolumbre (DEM-AP) Nelsinho Trad (PSD-MS) Prisco Bezerra (PDT-CE) (suplente de Cid Gomes, ocupou o mandato de dezembro de 2019 a abril de 2020) Mara Gabrilli (PSDB-SP) Rogério Carvalho (PT-SE) Carlos Fávaro (PSD-MT) Jayme Campos (DEM-MT) parlamentar não identificado (Senado diz que integrante se contaminou e não quis se identificar) Deputados federais Roberto Pessoa (PSDB-CE) Silas Câmara (Republicanos-AM) Ricardo Barros (PP-PR) Marx Beltrão (PSD-AL) Luiz Lima (PSL-RJ) Daniel Freitas (PSL-SC) Aluisio Mendes (Pode-MA) Misael Varela (PSD-MG) Luís Tibé (Avante-MG) Pastor Eurico (Patriota-PE) Cezinha de Madureira (PSD-SP) General Girão (PSL-RN) José Priante (MDB-PA) Elcione Barbalho (MDB-PA) Diego Andrade (PSD-MG) Daniel Silveira (PSL-RJ) Sóstenes Cavalcanti (DEM-RJ) Junior Bozzella (PSL-SP) Marcio Marinho (Republicanos-BA) Wladimir Garotinho (PSD-RJ) Fabio Reis (MDB-SE) Evandro Roman (Patriota-PR) Christino Aureo (PP-RJ) *Presidente, ministros de Estado, ministros do STF, PGR, congressistas, governadores de estado, prefeitos de capital

UOL NOTÍCIAS - ÚLTIMAS NOTÍCIAS/SÃO PAULO
Data Veiculação: 08/07/2020 às 21h35

Uma publicação do dia 25 de junho da página "Um pouco de tudo" no Facebook indica o uso dos medicamentos azitromicina, ivermectina e nitazoxanida para pessoas com sintomas leves de covid-19. O texto sugere que a recomendação parte de "profissionais de saúde", sem citar nomes, em função de um suposto "colapso no Sistema de Saúde do Brasil" e é direcionada a quem não quiser se "arriscar a ir a um hospital". Essa recomendação, porém, contraria a orientação da ampla maioria das autoridades e entidades de saúde. Embora haja estudos em andamento sobre a possível ação desses medicamentos contra o vírus que causa a covid-19, o SARS-CoV-2, a eficácia deles não foi comprovada até o momento. Além disso, a orientação para pessoas que apresentam sintomas é procurar assistência médica e não se automedicar. A afirmação de que haveria um "colapso" no sistema de saúde brasileiro também não é verdadeira. Levantamento feito pelo Comprova mostra que, neste momento, todos os estados possuem leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) disponíveis. Como verificamos? Entramos em contato com a responsável pela publicação no Facebook por meio de um número de telefone que consta na apresentação da página. Ela disse não saber a origem do texto que compartilhou. Também consultamos o administrador de um perfil que havia publicado material semelhante mais de dois meses antes, em 3 de maio, mas não obtivemos resposta. Por meio de buscas na internet, não identificamos nenhuma entidade de saúde que tenha reivindicado a autoria. Em seguida, solicitamos por e-mail um posicionamento do Ministério da Saúde em relação às recomendações feitas no texto. Confrontamos essas sugestões com as orientações de entidades médicas, autoridades de saúde e estudos científicos já publicados a respeito da covid-19. Submetemos, ainda, o conteúdo do texto à análise de dois especialistas: os infectologistas Unaí Tupinambás, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Marcelo Carneiro, professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e integrante da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih). Por fim, realizamos um levantamento com base em informações disponibilizadas pelas secretarias estaduais de Saúde para verificar as taxas de ocupação de UTIs em todo o país e entrevistamos o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto para compreender o que significa um "colapso" no sistema de saúde. O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 8 de julho de 2020. Verificação O texto faz menção a três "fases" da evolução da covid-19 e lista sintomas e tratamentos associados a cada uma delas. Esse modelo de classificação é citado em revisão publicada em abril na revista Jornal of Infection Control, da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih). Assinado por 28 especialistas, o artigo confirma que a infecção por SARS-CoV-2 pode ser dividida em três estágios. O estágio I é "um período de incubação assintomática com ou sem vírus detectável"; o estágio II é um "período sintomático não grave com presença de vírus" e o estágio III é um "estágio sintomático respiratório grave com alta carga viral". O estudo, porém, não associa sintomas ou tratamentos específicos a cada uma delas. De acordo com o infectologista Unaí Tupinambás, essa classificação se aplica a apenas algumas situações, já que a ampla maioria dos casos de covid-19 não são graves e, portanto, não atingem a fase mais aguda da infecção. "Aqueles pacientes mais graves talvez possam se enquadrar nas três fases, mas, felizmente, são a minoria. Só os que estão naquela fase mais grave que precisam realmente de internação, de CTI", explicou. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% das infecções são "leves ou assintomáticas". Em nota, o Ministério da Saúde esclareceu que os "sintomas da covid-19 podem variar de um simples resfriado até uma pneumonia severa, sendo os sintomas mais comuns a tosse, coriza, dor de garganta e dificuldade para respirar". Embora haja relatos de infectados que apresentaram alguns dos demais sintomas citados no texto, eles são menos comuns. De acordo com o infectologista Marcelo Carneiro, que é um dos autores do artigo do Jornal of Infection Control, os sintomas mais frequentes apresentados por pacientes da covid-19 são os mesmos de outras infecções gripais. A exceção é a perda do olfato e paladar, registrada em alguns casos e, que parece, conforme o especialista, ser um traço particular da doença causada pelo novo coronavírus. A informação da postagem de que os sintomas de virose aparecem a partir do terceiro dia de infecção também não é necessariamente verdadeira. Conforme Carneiro, os sintomas podem aparecer em até cinco dias após a pessoa ter contato com o vírus. "Isso é muito variável, depende de uma pessoa para outra", disse. Os medicamentos O conteúdo que viralizou também recomenda a automedicação e indica o uso do antibiótico azitromicina a partir do terceiro dia de sintomas, bem como os medicamentos antiparasitários ivermectina e nitazoxanida (mais conhecido como Annita) "para ser mais rápido na cura". Essa recomendação, porém, é refutada pela maioria dos profissionais e autoridades sanitárias. Na nota, o Ministério da Saúde reiterou que "até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus ou ser utilizado com 100% de eficácia no tratamento". A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) corrobora o posicionamento e afirma que, por enquanto, "não há vacina nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a covid-19." Em relação à azitromicina, o Ministério da Saúde afirma que as evidências encontradas até agora "não comprovam a eficácia do uso de medicamentos antibacterianos em pacientes com covid-19." Essa posição é ratificada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Quanto à ivermectina, o documento do Ministério da Saúde esclarece que "ainda não existem evidências clínicas suficientes que permitam tecer qualquer recomendação quanto ao uso de ivermectina em pacientes com covid-19". O mesmo posicionamento é adotado pela Food and. Drug Administration (FDA, órgão norte-americano equivalente à Anvisa). Um estudo e publicado em junho pela revista Antiviral Research apontou que a ivermectina pode atuar como inibidor do SARS-CoV-2 em laboratório. Segundo o infectologista Marcelo Carneiro, porém, isso não garante a eficácia do medicamento em humanos. "Já está provado que as doses de ivermectina precisam ser extremamente altas para funcionar. Então, em laboratório ela funciona como antiviral. Mas não existe doses para humanos e, se existir, será extremamente tóxica", explicou. Quanto à nitazoxanida, uma revisão sistemática rápida publicada no dia 9 de junho por pesquisadores dos hospitais Alemão Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês e Moinhos de Vento concluiu que, por "ausência de evidência clínica", não é possível recomendar o uso do medicamento como terapia para covid-19. Atualmente, estão em andamento no Brasil e em outros países pesquisas sobre a possível ação da nitazoxanida contra a covid-19, mas ainda não há comprovação. Automedicação Especialistas também criticam a automedicação, que é sugerida pelo texto. Conforme reforçou o Ministério da Saúde na nota, o diagnóstico da covid-19 deve ser "realizado primeiramente pelo profissional de saúde que deve avaliar a presença de critérios clínicos." De acordo com o infectologista Unaí Tupinambás, a recomendação é de que pessoas com quadro suspeito evitem a automedicação e procurem assistência médica para receber orientações de como proceder. "É muito importante que todos os pacientes com suspeita de covid-19 tenham acesso a uma consulta médica, mesmo que à distância", pontuou. O especialista esclareceu ainda que o tratamento da doença envolve repouso e hidratação oral frequente e que medicamentos como dipirona, novalgina ou paracetamol podem ser utilizados para aliviar sintomas como febre, mal estar e dor de cabeça. Nos casos mais graves, o tratamento passa pela oxigenoterapia — o uso de respiradores mecânicos. Unaí Tupinambás citou ainda a dexametasona, que, segundo estudo da Universidade de Oxford, do Reino Unido, apresentou resultados satisfatórios quando ministrada a pacientes em estágios avançados da doença. O uso, porém, só deve ser feito sob orientação médica. A situação do sistema de saúde Ao contrário do que diz o texto publicado no Facebook, não é possível afirmar que o sistema de saúde brasileiro colapsou. Professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto explicou o que tecnicamente significaria esse colapso, que já atingiu certas regiões, mas ainda não foi observado em cenário nacional. "Colapso é quando você tem que fazer uma escolha entre quem vai para a UTI e quem vai para o cuidado paliativo. Exemplificando: há dois pacientes que precisam entrar na UTI para terem uma chance de salvamento e você tem que escolher um dos dois, porque só tem uma vaga. O Brasil já experimentou [o colapso] em Manaus, em Belém, em algumas cidades do interior do Pará, como Marabá. Colapso geral no Brasil, não (ocorreu)", explicou. Levantamento feito pelo Comprova com base em dados divulgados pelas secretarias de saúde mostra que todos os estados brasileiros possuem vagas em UTIs. Sergipe (93,8%), Mato Grosso (93,2%) e Acre (92,4%) têm as maiores taxas de ocupação. Portanto, tecnicamente é possível dizer que nenhuma unidade federativa apresenta colapso no sistema de saúde no momento. A página "Um pouco de tudo" Por telefone, a administradora da página "Um pouco de tudo", Lucia Barros, disse desconhecer o autor do texto e alegou que copiou o material da página de outra pessoa, mas que não se recorda quem. Lucia, que se apresentou como cabeleireira e alegou que divide-se entre Brasília e o Piauí, afirmou que mantém a página "por hobby" e que retirou o texto do ar por recomendação da filha, que é profissional da saúde. Várias versões diferentes do texto foram publicadas no Facebook antes. Por meio da plataforma CrowdTangle, identificamos que a mais antiga é da página "Dr. Mike" e data de 3 de maio. O perfil é administrado pelo dentista Ezequias Nascimento dos Santos, que mantém uma clínica em Manaus (AM) e, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi candidato a deputado estadual pelo PSC em 2018. Na postagem - que faz menção à azitromicina, mas não à ivermectina e à nitazoxanida -, a autoria do texto não é atribuída a "profissionais de saúde". Procuramos a clínica por telefone para solicitar informações sobre a origem do texto, mas não houve retorno. Por que investigamos? O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais. Quando o material aborda assuntos relacionados à covid-19, a verificação se torna ainda mais importante, pois esses conteúdos podem colocar a saúde das pessoas em risco. Até o dia 2 de julho, antes de ser retirada do ar, a publicação da página "Um pouco de tudo" alcançava 76 mil compartilhamentos no Facebook. O conteúdo é perigoso porque atribui a profissionais da saúde recomendações que não são aceitas por autoridades sanitárias e entidades médicas, o que pode induzir pessoas a adotar procedimentos arriscados, como a automedicação ou o uso de medicamentos cuja eficácia contra a covid-19 ainda não é comprovada. A informação de que a rede pública de saúde estaria em colapso também é perigosa pois distorce a realidade e pode fazer com que pessoas potencialmente infectadas deixem de procurar assistência médica. O Comprova já verificou outros conteúdos que se mostraram falsos ou enganosos, como um site que sugere que há consenso médico quanto ao tratamento da covid-19, um texto com conselhos para lidar com a pandemia e um tuíte segundo o qual o uso da hidroxicloroquina nos primeiros sintomas da covid-19 impediria que a doença avançasse para estágios mais agudos. Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira. O conteúdo já havia sido verificado pelo Estadão e pelo Aos Fatos, que também o classificaram como falso. *O material foi produzido por veículos integrantes do projeto Comprova: "Gazeta" e "Estado de Minas"

VEJA BLOGS
Data Veiculação: 08/07/2020 às 18h30

O acompanhamento do quadro clínico do presidente Jair Bolsonaro durante o tratamento contra a Covid-19 é feito pelo médico oficial da Presidência, o cardiologista Ricardo Peixoto Camarinha. Escudeiro de Bolsonaro em viagens nacionais e internacionais, Camarinha foi o médico de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) durante os anos em que o tucano chefiou o Palácio do Planalto e é muito próximo ao cirurgião Antonio Luiz Macedo, que esteve à frente da equipe do Hospital Albert Einstein que salvou a vida do presidente após o atentado a faca sofrido em 2018. Camarinha ingressou no serviço público em 1983. Ele cursou medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), serviu à Aeronáutica e se especializou em cardiologia na Universidade de Brasília (UnB), onde também concluiu um mestrado. Reservado, ele não concede entrevistas e nem revela em quais circunstâncias conheceu Bolsonaro. ASSINE VEJA Governo Bolsonaro: Sinais de paz Leia nesta edição: a pacificação do Executivo nas relações com o Congresso e ao Supremo, os diferentes números da Covid-19 nos estados brasileiros e novas revelações sobre o caso Queiroz Clique e Assine Sua relação com o alto poder ficou mais estreita na década de 1990, quando prestou serviços para FHC. Reportagens da época em que o tucano era presidente mostram que ele precisou recorrer com frequência a Camarinha. Em dezembro de 1997, o então presidente foi atendido pelo médico em Londres após ter desmaiado em função do calor durante uma cerimônia em que recebeu o título de doutor honoris causa na London School of Economics. Em janeiro de 1999, FHC teve uma crise de estresse e precisaria repousar por seis dias, segundo a prescrição de Camarinha, mas acabou atropelado pela crise do real e furou o compromisso com o médico. Já em 2002, último ano do mandato, o tucano sofreu uma intoxicação alimentar após um intenso itinerário de viagens internacionais e, com quadro febril, teve de ficar o final de semana em repouso sob os cuidados do doutor. Durante os governos do PT, o encarregado de atender os presidentes mudou. Roberto Kalil, do Hospital Sírio-Libanês, foi o responsável por tratar Lula e Dilma e também cuidou da saúde de Michel Temer (MDB) no período em que ele foi presidente. Fato é que a familiaridade de Kalil com rivais políticos de Bolsonaro foi determinante para que o então candidato fosse transferido para o Albert Einstein, em São Paulo, após ser esfaqueado num ato de campanha em Juiz de Fora, em 2018. O veto ao Sírio-Libanês é atribuído a Frederick Wassef, que deixou de advogar para Bolsonaro e para seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), após o ex-assessor Fabricio Queiroz ser preso em uma de suas propriedades. Wassef temia que o Bolsonaro não fosse bem atendido num hospital que julgava ser identificado com petistas. As delicadas cirurgias pelas quais Bolsonaro passou foram lideradas por Antonio Macedo, com quem Camarinha mantém contato direto. Em função do histórico clínico, os médicos trocam informações diante de qualquer problema de saúde apresentado pelo presidente. Só no mandato atual, Bolsonaro teve de fazer cirurgias para retirar a bolsa de colostomia que usou após a facada e para reparar uma hérnia. Também bateu a cabeça no chão ao escorregar no banheiro em dezembro de 2019. Agora, o presidente contraiu a Covid-19 e disse estar tomando o remédio cloroquina para se tratar, embora não haja comprovação científica sobre sua eficácia. Ricardo Camarinha, com o general Augusto Heleno, ao receber a Ordem do Rio Branco Instagram/Reprodução As preocupações de Bolsonaro com a saúde fizeram Camarinha ganhar um passaporte diplomático logo no início do mandato, em janeiro de 2019. O Portal da Transparência aponta que o médico, cujo salário líquido é de pouco mais de 14.600 mil reais, acompanhou o presidente em 31 viagens pelo território brasileiro até março deste ano. Em seu perfil no Instagram, Camarinha publicou diversas fotografias dos compromissos no exterior em que esteve junto de Bolsonaro. Ele já foi para Suíça, Estados Unidos, Israel, Japão, China, Catar, Emirados Árabes e Índia. A última viagem internacional foi com destino a Miami, quando mais de 20 pessoas da comitiva presidencial retornaram ao Brasil infectadas com Covid-19. –Ricardo Camarinha, com o ministro Paulo Guedes (Economia), em Dallas, no Texas Instagram/Reprodução Camarinha goza de tanto prestígio junto a Bolsonaro que assistiu à final da Copa América, vencida pelo Brasil no Maracanã, em julho de 2019, ao lado de autoridades do governo. No Fórum de Davos do ano passado, o primeiro compromisso de Bolsonaro no exterior como presidente, Camarinha se encaminhava para um jantar com a presença de chefes de estado como se pertencesse ao alto escalão do governo. Segundo o livro Tormenta, escrito pela jornalista Thais Oyama, ele e outros membros da delegação – incluindo o deputado federal Eduardo Bolsonaro – foram barrados na porta do restaurante porque não estavam na lista de convidados. Camarinha tentou furar o bloqueio gritando “I’m the doctor” com o dedo em riste, mas não obteve sucesso. Receba as novidades e principais acontecimentos, bastidores e análises do cenário político brasileiro. Inscreva-se aqui para receber a nossa newsletter Aceito receber ofertas produtos e serviços do Grupo Abril. Cadastro efetuado com sucesso! Você receberá nossas newsletters pela manhã de segunda a sexta-feira.

BLOGS DO ESTADÃO
Data Veiculação: 08/07/2020 às 11h48

Esta checagem foi produzida pela coalizão do Comprova. Leia mais aqui. São enganosos o conteúdo e a proposta do site “Covid19 Tem Tratamento Sim”, lançado em junho. A página diz que “após meses observando o desenvolvimento da covid-19 em vários países, a comunidade médica internacional tem a CONVICÇÃO de uma estratégia de tratamento RESOLUTIVA para a COVID-19”. A afirmação foi feita sem comprovação e sem a anuência mesmo de pessoas que supostamente apoiavam a iniciativa. O Comprova conversou com três das seis autoridades médicas citadas pelo site e nenhuma delas soube informar quem criou a página ou mesmo quem pagou para ela ir ao ar – uma delas não sabia nem que o endereço tinha sido lançado. Leia Também Recebeu algum boato? Envie para checagem do Estadão Verifica Segundo Alla Dolganova, médica que atua na Prefeitura de Porto Alegre desde 2009 e diz fazer parte do grupo central que discute as diretrizes nacionais do movimento #CovidTemTratamentoSim, o objetivo dos profissionais envolvidos era criar um site com apoiadores do tratamento precoce contra a doença. Ao Comprova, a médica afirmou que o conteúdo do site ia além disso. No dia 3 de julho, a página foi tirada temporariamente do ar e, conforme afirmou Alla, a remoção aconteceu porque o site citava um coquetel de medicamentos. De acordo com ela, informar o nome das drogas vai contra o que ela mesma e outros profissionais acreditam. “A ideia não era divulgar remédios. Dar o remédio é decisão médica”, afirmou Alla ao Comprova. O portal retornou ao ar em 7 de julho sem citar as medicações nem os profissionais de cada Estado que estariam dispostos a receitá-las. Os medicamentos citados inicialmente pelo site eram a cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e heparina. Diferentemente do que o endereço insinua, nenhum deles tem eficácia comprovada contra o novo coronavírus em nenhuma fase da doença, segundo órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Organização Mundial da Saúde (OMS). Site foi ao ar sem anuência de pessoas citadas. Foto: Reprodução Como verificamos? Ao tentar localizar o responsável pelo site, o Comprova levantou dados sobre o registro da página por meio da ferramenta Whois. O conteúdo foi registrado no nome de Maicom França em 12 de junho de 2020. Além do nome, a ferramenta também forneceu o CPF e um endereço de e-mail, informações que, jogadas na busca do Google, levaram até o nome de uma empresa de Maicom – designer gráfico – e contas em redes sociais. Procurado pelo Comprova nas redes, Maicom visualizou, mas não respondeu as mensagens. O registro também apresentou o nome da empresa Dívea como responsável pela hospedagem do portal. O Comprova identificou um perfil da companhia no Instagram, com postagens sobre o site do movimento, e utilizou as informações fornecidas na rede para entrar em contato. O CEO da empresa, Renan Corrêa, disse que não tinha autorização para divulgar quem o havia contratado. O Comprova conversou, por telefone, com Nise Yamaguchi, uma das profissionais que apareciam entre as autoridades médicas. Ela disse não saber que o site havia ido ao ar e que não fazia parte do conselho de médicos do movimento. Informou o nome de colegas que poderiam ter mais informações sobre o site e o movimento: Paulo Porto, Dante Senra e Luciana Cruz. O primeiro conversou com a equipe por telefone. Senra não respondeu à mensagem com o pedido de entrevista enviada por Whatsapp no dia 3 de julho, nem atendeu ao telefonema no dia 6. A equipe contatou ainda Luciana Cruz por mensagem direta de Instagram, Facebook e Whatsapp desde o dia 3 de julho e, no dia 7, ela respondeu e conversou com o Comprova por WhatsApp. Paralelamente, o Comprova entrevistou Alla Dolganova – médica citada pelo portal como defensora do “tratamento precoce” –, que indicou outro médico que seria o “Relações Públicas” do grupo. Contatado pela nossa equipe, o profissional afirmou ser apenas um dos responsáveis por reunir as informações médicas do Rio Grande do Sul e disse que a médica Vânia Brilhante, que atua no Pará, era uma das líderes. Consultada por telefone, Vânia negou a informação. O site também fornece depoimentos de pessoas que supostamente teriam obtido sucesso no tratamento da covid-19 seguindo o protocolo defendido pelos médicos. O Comprova conversou por telefone com o autor de um dos depoimentos, Fabricio Oliveira, prefeito de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. O depoimento do prefeito foi retirado do site após ele ter ficado temporariamente fora do ar. Também levantamos informações sobre as medicações citadas como eficazes no tratamento contra a covid-19. Utilizamos como base publicações científicas, informações da Organização Mundial de Saúde (OMS), do Ministério da Saúde, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária americana. Além disso, recorremos a outras investigações feitas pelo Comprova sobre medicamentos usados no combate à doença. Por fim, questionamos o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina, por e-mail, para saber se os órgãos sabiam da iniciativa. As respostas enviadas apontaram que ainda não há comprovação científica sobre a eficácia das medicações no tratamento da covid-19. O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de julho de 2020. Verificação Registro do site Na tentativa de localizar quem colocou o site no ar, com o Whois, o Comprova chegou ao nome de Maicom França. A ferramenta também forneceu o CPF e um endereço de e-mail de França. Fazendo uma busca no Google utilizando o e-mail registrado, o Comprova encontrou um registro de CNPJ no mesmo nome e endereço de e-mail, ligado à empresa “Maicom Fg Designer Gráfico”, localizada em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Consultamos o CNPJ no site da Receita Federal e encontramos o registro da empresa, de mesmo nome, e-mail e endereço, e um número de telefone para contato. O Comprova tentou entrar em contato com Maicom pelo telefone, mas não foi possível completar a ligação. Pesquisamos o nome completo registrado no CNPJ no Facebook e encontramos o perfil de um designer gráfico em Balneário Camboriú, com informações similares às da empresa pesquisada, incluindo o e-mail. Também encontramos um perfil no Instagram vinculado à conta e enviamos mensagens nas duas redes sociais. Maicom visualizou as mensagens, mas não respondeu até a publicação desta investigação. No registro do domínio também há o contato de uma empresa de nome Dívea. Fizemos uma busca pela empresa no Instagram e encontramos uma postagem em um perfil, datada de 2 de julho, em que a companhia anunciou que estava fazendo a hospedagem do site do projeto. O Comprova digitou o nome completo da empresa no Google e encontrou um número de CNPJ. Ao fazer a consulta no site da Receita Federal, os dados de e-mail do cadastro eram os mesmos informados no registro do domínio. O cadastro da Receita apresentava um telefone, mas ao ligar para o número, o Comprova foi atendido por um escritório de contabilidade que alegou não trabalhar mais com a Dívea há pelo menos três anos. De volta ao Instagram da empresa, o Comprova encontrou um número para contato e telefonou para perguntar quem teria contratado a companhia para colocar a página no ar. Fomos atendidos pelo CEO, Renan Corrêa, que afirmou só prestar “serviço para um grupo de empresários” e que não tinha certeza se poderia divulgar quem o contratou. Ele pediu alguns minutos para falar com o empregador, mas em outra ligação, Renan disse que “não tinha autorização para falar nada sobre isso”. Quem são os médicos citados? O site afirma que há 17 médicos “comprometidos com o tratamento precoce” de seus pacientes. Eles estariam distribuídos entre 12 unidades federativas: Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo. O Comprova conversou por telefone com uma das profissionais citadas, Alla Dolganova, médica russa especializada em pneumologia e com PhD em virologia que está há 20 anos no Brasil. Alla é integrante do comitê organizador de um estudo sobre a opção médica no tratamento precoce da covid-19, feito no Rio Grande do Sul, Estado onde trabalha. Defensora de que há comprovação em certos tratamentos de combate à doença, ela disse em entrevista ao Comprova, por telefone, que não recebeu nenhum convite para integrar o movimento, mas que seu interesse em se unir a outros médicos foi espontâneo. Alla disse ser parte do grupo central que discute as diretrizes nacionais do movimento. “Nossa ideia é criar um site com apoiadores de tratamento precoce. Somos um grupo de oito pessoas à frente desse movimento. Elaboramos orientações para os médicos que querem aderir. Temos quase 400 assinaturas de médicos nos apoiando”, declarou. Documento ESTUDO SOBRE A OPÇÃO MÉDICA NO TRATAMENTO PRECOCE DA COVID-19 PDF Alla também observou que o movimento foi dividido nas cinco regiões do País e que cada Estado tem um grupo próprio no WhatsApp: “Tem muitas lives saindo sobre este projeto, com médicos, empresários, jamais imaginávamos que iria crescer tanto esse movimento. Só no Rio Grande do Sul, somos oito.” Segundo ela, além dos grupos estaduais e regionais, há um grupo de WhatsApp nacional. Em 3 de julho, o site teve a maior parte do conteúdo removido, incluindo recomendações sobre o uso de determinados medicamentos no tratamento do novo coronavírus e a relação de médicos “comprometidos com o tratamento precoce” em cada Estado. “Avisei que não concordava em dar nome de medicações. O site saiu do ar porque vários colegas começaram a reclamar. A ideia não era divulgar remédios. Dar o remédio é decisão médica. O médico tem que analisar e descobrir que fase que está o tratamento e aí tratar. Somos a favor de tratamento precoce, como em qualquer doença viral. Cada vez mais há mais trabalhos sobre isso. Tem de começar o tratamento mais cedo possível para não chegar na UTI. Quando o paciente começa a sentir falta de ar, já está com 50% do pulmão acometido”, disse Alla. A fala da médica russa sobre a existência de um movimento e a divisão dele por Estados foi rebatida pela infectologista Vânia Brilhante, que atua no Pará. Vânia foi apontada por um dos médicos que integra as discussões, e preferiu não se identificar, como uma das “cabeças” do movimento no Estado – ela negou. “Não sei se tem algum movimento. Tem um grupo de médicos que acredita nisso, não sei se o nome disso é movimento”, disse ela ao Comprova em 3 de julho. Questionada sobre quem colocou o site no ar, disse não saber e não ter autorizado o uso de seu nome: “Não fui eu, nem sei também. Estou tentando entrar em contato com essa pessoa, que botou o meu nome lá, inclusive. Se descobrir você me conta”. Vânia afirmou que há grupos de médicos no WhatsApp discutindo essas questões, mas não respondeu se alguém havia tomado a frente e formalizado a iniciativa de lançar um site. Ela alegou que não tem tempo para ler todas as mensagens que chegam pelo aplicativo. Procurada novamente no dia 7 de julho para saber se havia descoberto quem colocou o site no ar, a médica disse que havia conversado sobre o assunto com o filho advogado. “Quero saber quem autorizou a fornecer meus dados para um site que não tenho ciência”. Questionada se tomaria alguma providência sobre o caso, Vânia se esquivou da resposta e disse que estava muito ocupada. Autoridades médicas O site apresenta seis “autoridades médicas”: Nise Yamaguchi, Roberto Zeballos, José Henrique Andrade Vila, Dante Senra, Paulo Porto, Cassio Prado. O Comprova falou com três delas. Nise Yamaguchi disse ser “participante voluntária” do “Covid Tem Tratamento Sim” e não soube dizer quem teve a ideia de colocar a página virtual no ar. “Ainda não vi o site”, disse ela, em entrevista por telefone no dia 3 de julho. Outro médico com quem o Comprova conversou foi o neurocirurgião Paulo Porto. Ele contou que os médicos do “Covid Tem Tratamento Sim” formam um “grupo apartidário, voluntário, sem interesse financeiro e com competências complementares na questão do combate à pandemia”. Porto diz que o colapso no sistema de saúde de Belém, no final de abril, fez com que médicos do País todo começassem a conversar sobre possíveis caminhos. “E, aí, a gente começou a tentar adaptar o que tinha de protocolo e montou um grupo, fez umas lives, umas reuniões no Zoom só para médicos para contar a experiência que o pessoal teve lá, falar um pouquinho de gestão de crise, e a coisa foi ganhando força.” Assim como Vânia Brilhante e Nise Yamaguchi, Porto também não soube informar quem criou o site. “Olha, não sei te dizer [quem criou a página]. Na verdade, eu fui informado que meu nome iria para esse site”, contou. “Não diria que eu sou um dos organizadores, eu sou um dos componentes desse grupo. Não vejo ali uma cabeça. As pessoas foram se agregando por acreditarem em princípios semelhantes e a coisa foi andando.” Resposta semelhante deu Roberto Zeballos, outra das “autoridades médicas” do site. “Não sei quem é o dono. Sei que foi iniciativa de gente que apoio, que quer que o tratamento saia, mas não sei exatamente quem soltou. Me ligaram e perguntaram se eu ajudaria em um site. E, se for para ajudar, estou à disposição”. E, depois, acrescentou: “É um projeto de uma comissão de cientistas que, no caso, me incluíram.” Zeballos não disse quem ligou para ele para informar do site e sugeriu contatar outros colegas para saber de quem era a propriedade da página. O médico já apareceu em duas verificações do Comprova. A primeira delas, de 22 de abril, era sobre um post viral que, com base em uma entrevista com ele, afirmava que infectologistas e imunologistas tinham descoberto a “cura oficial” da covid-19. Na gravação, Zeballos dizia ter resultados animadores, mas ele mesmo rejeitava a tese de que o método pudesse ser considerado uma cura. A segunda investigação, do dia 5 de maio, classificada como enganosa, era sobre o fato de Zeballos ter declarado que o novo coronavírus “veio de um laboratório de Wuhan”. Outra médica com quem o Comprova conversou foi a anestesiologista Luciana Cruz. Segundo Nise Yamaguchi, ela é uma das organizadoras dos médicos que se uniram e estavam listados no site. Questionado se conhecia Luciana, Paulo Porto afirmou que sim e que “ela faz parte do conselho desse grupo, e ela teve uma atuação bastante intensa nesse episódio do Pará”. Mas Luciana disse não ter “nada a ver com o site” e que deveria ter havido algum equívoco, pois seu nome sequer estaria no endereço virtual. O Comprova enviou, então, uma imagem captada antes de a página sair do ar, na qual aparecia o nome e uma foto dela. “Onde é isso? Eu não conheço. Isso é um site?”, perguntou. Luciana declarou não ter autorizado o uso de sua imagem e, depois de ter escrito que não sabia sobre o site, disse que havia visto a página quando foi lançada. Acrescentou que foi apenas moderadora de uma live no canal no YouTube do jornalista Alexandre Garcia, que reuniu vários médicos que aparecem no site e que sua participação na pandemia foi contar o que os profissionais viveram e aprenderam na situação de colapso no Pará. “Eu defendo duas coisas. Primeiro, o direito do médico de ter autonomia na sua prescrição. Segundo, o direito do paciente de receber ou não os tratamentos off label (quando o medicamento é utilizado para um tratamento diferente do recomendado na bula), de acordo com o que desejar”, ela escreveu. E acrescentou: “quanto ao site, não foi ideia minha. Sei, sim, de várias pessoas que queriam um site onde pudessem juntar todas [as medicações] em um único lugar. Essa era a ideia de várias pessoas, não de uma só. Como essa ideia nunca me agradou, eu procurei não me envolver e nunca quis saber muito sobre isso também”. Na tarde do dia 3 de julho, o site saiu do ar e exibia uma mensagem de que receberia atualizações de orientações médicas. Retirada do ar e retorno Na tarde do dia 3 de julho, o site saiu do ar. Ao clicar no link, surgia a mensagem: “A pedido dos médicos integrantes do CONSELHO CIENTÍFICO e todos médicos envolvidos de vários Estados no combate ao COVID-19, o site está temporariamente fora do ar para atualizações de orientações médicas”. De acordo com Roberto Zeballos, o site “foi lançado sem ciência dos médicos” e “retirado do ar para correções”. “A gente sabia que iam fazer, mas vamos fazer uma revisão. Será um site com as abordagens e protocolos que a gente tem, estudos científicos.” Questionado sobre quais informações precisavam ser revisadas, ele respondeu que “algumas”. Ele citou o fato de ter sido incluído o logo do hospital em que ele atua. “Não quero ter logotipo de hospital nenhum”, afirmou ao Comprova. “Os médicos foram pegos de surpresa com a data de lançamento.” A médica Luciana Cruz escreveu ter ficado sabendo que “o site incomodou muitas pessoas por ter muitas informações erradas, e por isso tiraram do ar. “Eu nem sabia que tinha a minha imagem, se não teria sido mais uma a reclamar. Confesso que nem sequer acessei e nem tinha visto isso. Você que acabou de me mostrar agora.” Questionada sobre se tomaria alguma medida legal por terem usado sua imagem sem autorização, afirmou: “Parece que o site não voltará, então talvez eu não precise fazer nada, mas vou até procurar saber”. No dia 7 de julho, o site voltou ao ar com parte do conteúdo modificada. O portal não apresentava mais a relação de médicos que aplicavam o tratamento precoce e nem a lista de medicamentos utilizados no combate à covid-19. O depoimento em vídeo do prefeito de Balneário Camboriú, Fabrício Oliveira, sobre o tratamento também foi removido. Depoimentos Uma das áreas do site trazia três depoimentos em vídeo de pessoas que foram infectadas pelo novo coronavírus e se curaram após tratamento com um dos medicamentos que o site recomendava ou uma combinação deles. O Comprova falou com o autor de um dos depoimentos, Fabricio Oliveira, prefeito de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Oliveira contou ter tomado azitromicina e ivermectina no estágio inicial da doença e não ter tido nenhum sintoma. Ele declarou ter gravado sete ou oito depoimentos em que contava sobre seu processo de cura e, inicialmente, disse ter cedido uma das gravações para o site. O Comprova pediu, então, para que ele fornecesse o contato da pessoa com quem falou sobre a inclusão do vídeo na página. Oliveira disse que buscaria o nome da pessoa em seu celular e pediu que a reportagem ligasse em seguida. No novo contato, Oliveira mudou a versão. Disse que gravou e publicou vídeos em redes sociais e compartilhou em grupos de conversa, mas que não deu nenhuma autorização para que a gravação fosse utilizada no site. “Todos os vídeos que eu publico, que eu mando, eu não tenho problema nenhum que eles sejam publicados. Agora (no caso do site “Covid Tem Tratamento Sim”), ninguém me pediu nada”, afirmou. Inicialmente o site contava com depoimentos de pessoas supostamente curadas pelo protocolo. O que se sabe sobre as medicações listadas? A Organização Mundial da Saúde já divulgou que não existe vacina ou medicamento específico para prevenir ou tratar a covid-19. Os tratamentos aplicados até o momento, explica o órgão, são para “aliviar os sintomas” dos infectados. Os cinco medicamentos listados pelo site são utilizados para tratamentos distintos. A cloroquina e a hidroxicloroquina são usadas no tratamento de malária e doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatóide. A ivermectina é usada em tratamentos de vermes e parasitas. A azitromicina é um antibiótico, utilizada contra bactérias. E a heparina é um anticoagulante. Em maio, o Ministério da Saúde publicou orientações a respeito do uso de medicamentos em pacientes infectados pelo novo coronavírus, ressaltando “que não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a covid-19”. Documento ORIENTAÇÕES DO MINISTÉRIO DA SAÚDE PARA MANUSEIO MEDICAMENTOSO PRECOCE PDF A pasta também recomenda que a aplicação da cloroquina seja evitada em associação com determinadas medicações, entre elas a heparina. Um informe da Sociedade Brasileira de Infectologia, publicado em 30 de junho, menciona todos os medicamentos citados acima e reitera que não há comprovação clínica da eficácia de qualquer um deles no tratamento contra a covid-19. O Comprova já realizou checagens envolvendo todas as medicações acima. Documento INFORME DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA PDF Cloroquina e Hidroxicloroquina Embora o Ministério da Saúde tenha publicado uma orientação, no início de maio, autorizando o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em casos leves de covid-19, a pasta assinalou que não há comprovação da eficácia dos medicamentos em pacientes com a doença. Em março, a falta de comprovação da eficácia já havia sido apontada pela Saúde ao orientar o uso da cloroquina em quadros graves. Documento USO DE CLOROQUINA E HIDROXICLOROQUINA EM CASOS LEVES DE COVID-19 PDF Após a publicação da orientação, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) emitiu uma nota em que “não recomenda o uso da cloroquina e hidroxicloroquina associada, ou não, a azitromicina, enquanto não houver evidências científicas definitivas acerca do seu emprego”. O texto também orienta que, para os pacientes que optarem pelo tratamento, “sejam realizados eletrocardiogramas”, de modo a acompanhar possíveis complicações cardíacas. A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac) também emitiu uma nota ressaltando a “ausência de evidências que apontem claramente o benefício do uso deste esquema terapêutico”. A Sobrac recomenda o monitoramento dos pacientes que usem o medicamento para “prevenir a manifestação de eventos arrítmicos potencialmente fatais que podem ocorrer devido a efeitos adversos de um destes fármacos ou da associação entre eles ou com outros fármacos que também possam predispor a distúrbios elétricos cardíacos”. Em abril, o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu um parecer com critérios e condições para a prescrição de cloroquina em pacientes com covid-19. O texto deixa claro que “não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença” e determina que médicos expliquem aos pacientes que a medicação não garante eficácia. “O documento do CFM ressalta que o profissional fica obrigado a explicar ao doente que não existe, até o momento, nenhum trabalho científico, com ensaio clínico adequado, feito por pesquisadores reconhecidos e publicado em revistas científicas de alto nível, que comprove qualquer benefício do uso das drogas para o tratamento da covid-19”, diz o CFM. A cloroquina já havia sido considerada para tratamento de infecções de coronavírus após as epidemias de SARS e MERS. No entanto, não haviam sido feitos testes clínicos em humanos para confirmar a eficácia da droga. Em março deste ano, após a OMS declarar a pandemia do novo coronavírus, um estudo conduzido por médicos do Sul da França sugeriu que a cloroquina poderia ser usada como tratamento para o SARS-CoV-2. Esse estudo foi alvo de diversas críticas e seus resultados foram questionados e considerados anedóticos, ou seja, se tratavam de casos isolados, sem comprovação científica. Mais tarde, em um comunicado, a International Society of Antimicrobial Chemotherapy e a Elsevier, responsáveis pela revista que publicou o artigo, reconheceram a existência de questionamentos quanto ao conteúdo e anunciaram um novo processo de revisão independente. Estudos divulgados por algumas das mais importantes revistas médicas do mundo questionaram a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a covid-19. Em maio, o Journal of the American Medical Association (Jama) e o British Medical Journal (BMJ) publicaram que pacientes tratados com as medicações, associadas ou não ao antibiótico azitromicina, não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os mesmos remédios. Em junho, pesquisadores do Recovery, estudo clínico conduzido no Reino Unido, afirmaram não haver benefício no uso da hidroxicloroquina em pessoas com covid-19. Dez dias depois, a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária americana, revogou a autorização para um uso emergencial da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da doença nos Estados Unidos. A organização alegou ser improvável que os medicamentos sejam efetivos contra a covid-19. A OMS também avaliou o uso da hidroxicloroquina como um dos medicamentos para o tratamento da covid-19 através do estudo clínico Solidariedade, que já recrutou pacientes em 35 países. Mas decidiu encerrar os testes com a hidroxicloroquina no dia 17 de junho por não ter sido capaz de identificar redução no número de óbitos entre os pacientes que fizeram uso da droga. Ivermectina Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a ivermectina está registrada como “medicamento contra infecções causadas por parasitas”. A FDA libera a ivermectina para humanos no tratamento de vermes intestinais e, também, de parasitas tópicos como piolho e rosácea. A droga também é usada para o tratamento de vermes em diversas espécies de animais. Em abril deste ano, a agência sanitária divulgou uma carta aberta alertando a população a não usar remédios à base de ivermectina como tratamento contra a covid-19. A FDA acrescentou que possíveis efeitos colaterais do uso da ivermectina incluem vômito, diarreia, dor estomacal, erupções cutâneas, eventos neurológicos (tais como convulsões, tontura e confusão), queda repentina da pressão arterial e danos ao fígado. A ivermectina foi testada como medicação em casos do novo coronavírus em estudo conduzido pelo médico Amit Patel, então ligado ao Departamento de Bioengenharia da Universidade de Utah (EUA). Os resultados mostraram que entre os pacientes que precisavam de ventilação mecânica, apenas 7,3% dos que tomaram a medicação morreram — contra 21,3% dos que não utilizaram o medicamento. No entanto, a pesquisa afirmava que os dados “não devem ser considerados conclusivos, pois fatores de confusão desconhecidos nem sempre podem ser contabilizados de maneira confiável, mesmo quando técnicas de correspondência de propensão são empregadas no desenvolvimento de grupos de controle.” Em junho a pesquisa foi retirada do ar, porque os dados foram coletados por empresa envolvida em polêmica sobre base de dados internacional usada em estudos sobre hidroxicloroquina. A companhia responsável é alvo de uma auditoria. Outro estudo sobre ivermectina, feito por pesquisadores da Monash University e do Hospital Royal Melbourne, na Austrália, demonstrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus in vitro em 48 horas. Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores pediram cautela e alertaram para a necessidade de realizar testes clínicos que avaliem a eficácia do remédio fora do laboratório. Azitromicina e heparina Por se tratar de um antibiótico, a azitromicina é utilizada no combate a bactérias —o que não é o caso do SARS-CoV-2, como explicado pela OMS. Segundo o órgão internacional, a covid-19 é uma “doença infecciosa causada por um coronavírus recém descoberto”. Em e-mail enviado ao Comprova, o Ministério da Saúde endossou o que disse a OMS e se referiu ao SARS-CoV-2 como o “vírus por trás da covid-19”. Já a heparina, por ser um anticoagulante, é indicada na prevenção de tromboses e embolias arteriais ou venosas, segundo a Anvisa. Também é utilizada no preparo de transfusões sanguíneas. Em entrevista ao Comprova, o Dr. Erich Vinícius de Paula, coordenador de hemostasia e trombose da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), explicou que “tromboses são complicações de quase todas as doenças infecciosas” e que o uso de anticoagulantes busca prevenir a ocorrência delas: “A maioria dos pacientes que está internado em uma UTI, [com um quadro da covid-19] grave ou qualquer outro problema como um AVC ou um infarto, usarão anticoagulantes para a prevenção da trombose”. No entanto, De Paula alerta que a recomendação da maioria das sociedades médicas de todo o mundo é que uma dose maior de anticoagulantes só deve ser ministrada aos pacientes no contexto de estudos clínicos. Em abril deste ano, a revista científica Science publicou um artigo sobre a evolução do tratamento de covid-19 com o uso de heparina. No Brasil, a pneumologista Elnara Marcia Negri, do Hospital Sírio Libanês e da Universidade de São Paulo (USP), administra a medicação em seus pacientes. No entanto, ainda não foram realizados estudos randomizados — ou seja, que ministram o medicamento em um grupo e oferecem um placebo a outro grupo — que comprovem a eficácia do tratamento. O uso de antibióticos, como o caso da azitromicina, foi mencionado pelo médico como um possível complemento a tratamentos de covid-19, já que é possível que o paciente apresente alguma infecção provocada por bactérias ao contrair o novo coronavírus. “Os antibióticos são usados na maioria dos casos graves porque é muito difícil excluir que junto com o vírus não haja uma infecção bacteriana associada, mas é muito importante entender que o antibiótico não é direcionado para tratar do vírus”, explicou. Autoridades não endossam iniciativa Procurado por e-mail, o Ministério da Saúde não respondeu se tinha conhecimento de que o site estava no ar e se limitou a responder sobre a eficácia dos medicamentos descritos no” CovidTemTratamentoSim”. Segundo a assessoria de imprensa da pasta, “até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus ou ser utilizado com 100% de eficácia no tratamento” e “a pasta acompanha o desenvolvimento de ensaios clínicos realizados no País para testar a eficácia e segurança do uso de alternativas no tratamento de pacientes com coronavírus (covid-19). Participam destes estudos mais de 100 centros de pesquisas, como universidades e hospitais, reunindo 5 mil pacientes com quadros leves, graves e moderados”. O Comprova consultou, também por e-mail, o Conselho Federal de Medicina (CFM). A respeito do uso dos remédios citados em tratamentos contra a covid-19, o órgão enviou um documento, já usado pelo Comprova em outras verificações, dizendo que o texto continua em vigor. De acordo com a publicação, não há “evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a covid-19” e “muitos medicamentos têm sido promissores em testes através de observação clínica, mas nenhum ainda foi aprovado em ensaios clínicos com desenho cientificamente adequado, não podendo, portanto, serem recomendados com segurança”. Questionado sobre um posicionamento frente ao site, o CFM respondeu que “não comenta casos específicos para não comprometer sua atuação prevista em lei”. Por que investigamos? O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais. Quando o material aborda assuntos relacionados à covid-19, a verificação se torna ainda mais importante, pois esses conteúdos podem colocar a saúde das pessoas em risco. Segundo a ferramenta Crowdtangle, a página tinha 38.760 interações no dia 7 de julho. O vídeo com a live feita pelo jornalista Alexandre Garcia tinha 1.751.644 visualizações na mesma data. O site é enganoso porque insinua que médicos do mundo todo chegaram a um consenso sobre o tratamento da covid-19, o que vai contra o que acreditam autoridades sanitárias e entidades médicas, segundo as quais ainda não há um tratamento reconhecidamente eficaz contra o novo coronavírus. Ele engana também ao reunir médicos que nem sabiam que seus nomes estavam na página, entre outros pontos. O Comprova já publicou verificações de boatos com uma lista de conselhos para a pandemia com dados corretos e informações falsas sobre o vírus, que desestimulam o uso de máscara, afirmam que a covid-19 é uma trombose causada por bactéria e que a hidroxicloroquina pode descartar a necessidade de UTI. Enganoso para o Comprova é quando um conteúdo é retirado de seu contexto original e utilizado de forma a modificar seu significado, induzindo a uma interpretação equivocada.