Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

UOL NOTÍCIAS - ÚLTIMAS NOTÍCIAS/SÃO PAULO
Data Veiculação: 03/04/2020 às 19h37

A suspensão ou cancelamento no envio de insumos e EPIs (equipamentos de proteção individual) por parte da China para os hospitais particulares do Brasil se tornou uma nova preocupação, diante da pandemia da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Segundo a Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados), que reúne 122 hospitais de todo o país, o problema passou a preocupar nos últimos dias. "Vários hospitais já receberam comunicações de seus fornecedores chineses de que seus pedidos, se não foram cancelados, foram postergados", afirma Henrique Neves, vice-presidente da Anahp. Na última quarta-feira, representantes dos hospitais privados fizeram uma reunião com integrantes do Ministério da Saúde e alertaram sobre o panorama, em relação à escassez de equipamentos e insumos prioritários. O problema não atinge só a rede privada. Hoje, a Folha de S. Paulo revelou que uma carga de 600 respiradores artificiais chineses comprada por estados do Nordeste ficou retida no aeroporto de Miami (EUA), onde fazia conexão aérea para ser enviada ao Brasil. Medo de "apagão" nos hospitais A China é considerada a maior fornecedora de produtos e equipamentos para hospitais privados brasileiros. Com a pandemia da covid-19, outros países estão demandando mais da China e pagando valores maiores, o que amplia a concorrência no setor. O medo dos hospitais é um "apagão" de equipamentos. "Com Europa e Estados Unidos com demandas sobre quase toda a capacidade deles [chineses], existe risco de faltar suprimento para o Brasil", alerta Neves. A principal preocupação está na proteção dos profissionais que atuam na linha de frente do combate ao coronavírus, visto que 75% dos hospitais filiados à Anahp já relatam redução nos estoques de EPIs. Outros 20% afirmam sequer ter estoques. "O pessoal que está na frente da assistência tem a necessidade de uma boa quantidade de EPIs. Estamos com uma demanda maior do que o normal, o que traz uma preocupação, a partir de agora, com o suprimento desses equipamentos para o período que se aproxima. A gente imagina que a demanda continue crescente, e há um desequilíbrio muito grande com a oferta, que não foi capaz de suprir a quantidade necessária", explica o vice-presidente da associação de hospitais privados. O pior cenário é que a falta desses equipamentos cause adoecimento em massa dos profissionais que vão atender os pacientes diagnosticados com covid-19. Isso já tem ocorrido em hospitais — até a última terça-feira, os hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein haviam afastado 452 profissionais da área de saúde. Além disso, um levantamento do Sindicato dos Servidores de São Paulo, com dados do Diário Oficial da Cidade, aponta que de 1º a 28 de março houve 1.080 afastamentos na rede pública por suspeita de contaminação. "Temos que nos atentar ao fato de que as pessoas que fazem esse atendimento são de uma cadeia muito especializada. Dependemos delas para conseguir fazer o atendimento desses pacientes. Perder essas equipes afetará também as condições de enfrentar o surto", pontua Neves. Importância da indústria nacional O vice-presidente da Anahp diz que existem duas formas de atender a essa demanda. Uma delas é por meio de importações — e muitas delas vêm da China. "A outra forma de suprir é com a indústria nacional, que já se mobiliza para a produção desses equipamentos. Estamos vendo nos últimos dias que está começando a subir essa oferta de equipamentos nacionais." Um outro problema enfrentado é o aumento dos preços desses materiais. "É natural que, nesses períodos de escassez, os preços subam, porque existe uma competição por eles, e também porque as próprias cadeias de produção desses equipamentos começam a ficar estressadas, já que passam a demandar insumos com mais intensidade, a mão-de-obra vai ter de rodar turnos contínuos, têm as horas excedentes", explica Neves. Para o líder dos hospitais privados, o cenário a curto e médio prazo ainda é incerto sobre a questão do desabastecimento. "É um processo dinâmico, que depende de alguns fatores: a velocidade com que vai crescer o número de casos [de covid-19], os estoques existentes hoje nos sistemas dos hospitais, a possibilidade das importações da China serem retomadas, a capacidade da indústria nacional. É uma situação com variáveis", finaliza.

O ANTAGONISTA
Data Veiculação: 03/04/2020 às 11h11

O diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, reforçou ao Estadão que a obrigação de manter o distanciamento é necessária para evitar o risco trazido pelo crescimento exponencial ao sistema de saúde, principalmente o público. “A mensagem clara é: não podemos relaxar. (…) É importante lembrar que há um período silencioso entre a contaminação e a doença, entre a doença e a necessidade de atendimento no hospital e do hospital para a curva de mortalidade. Esse período progressivo de silêncio não é de duas semanas. Esse efeito é maior, de três a cinco semanas. Na Itália, se relaxou no período de duas semanas.” Ele afirmou também: Covid-19: Mandetta vence uma batalha. Vencerá a guerra? “Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo. Por que isso? É quando a gente teria a tal imunidade de rebanho, uma quantidade de gente que já se recuperou da doença.”

TERRA/SÃO PAULO
Data Veiculação: 03/04/2020 às 10h56

SÃO PAULO - O diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, afirma que o pico dos casos do novo coronavírus na região metropolitana de São Paulo se dará, levando em consideração modelos de cálculos, na terceira semana de abril. A estabilidade na curva de crescimento dos casos se prolongará por três a cinco semanas. Só a partir daí, acontecerá o início da queda da curva de forma mais consistente, quando poderia começar gradualmente o relaxamento do distanciamento social. "Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo", diz. Em entrevista ao Estado, Chapchap diz que a obrigação de manter o distanciamento é necessária para evitar o risco trazido pelo crescimento exponencial ao sistema de saúde, principalmente o público. O Hospital Sírio Libanês, uma das referências no atendimento hospitalar privado no Brasil, triplicou sua capacidade de número de leitos em UTI de 60 para 170, abriu 100 vagas permanentes para médicos e especialistas em saúde, adiou cirurgias eletivas, diversificou sua cadeia de fornecedores de insumos e redirecionou o atendimento aos pacientes com covid-19. "Algumas doenças, como cardio-cérebro vasculares, câncer ou que causam dor, não podem esperar pois poderá piorar o prognóstico. O resto tem de ser adiado", diz Chachap. Hoje, dos quase 500 leitos em São Paulo, o Sírio tem cerca de 120 pacientes internados com a covid-19. A seguir, os principais trechos da entrevista. Qual é a taxa de ocupação hoje do Sírio-Libanês? Hoje, a taxa de internação é de 55% a 60% e da unidade ambulatorial é de 20%. Essa taxa de ocupação tende a crescer, caso os efeitos da epidemia não sejam mitigados. Temos tido crescimento diário da ocupação dos pacientes da covid-19 entre 10% e 20%, que é a curva contida de crescimento já vista em outros países que adotaram o distanciamento social. Isso já é possível ver nas classes menos vulneráveis. Quer dizer que já há um achatamento da curva nos pacientes das classes sociais AB? A gente vê sinais antecedentes, mas não se consegue ter certeza. A mensagem clara é: não podemos relaxar. Talvez seja efeito da mitigação. É importante lembrar que há um período silencioso entre a contaminação e a doença, entre a doença e a necessidade de atendimento no hospital e do hospital para a curva de mortalidade. Esse período progressivo de silêncio não é de duas semanas. Esse efeito é maior, de três a cinco semanas. Na Itália, se relaxou no período de duas semanas. Quando acontece o pico dos casos no Brasil? Trabalhamos com a terceira semana de abril. Não quer dizer, com isso, que vamos relaxar nessa ocasião. Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo. Por que isso? É quando a gente teria a tal imunidade de rebanho, uma quantidade de gente que já se recuperou da doença. E a proposta de isolamento vertical? É besteira. Primeiro, porque é impossível em qualquer lugar do mundo. Mais problemático ainda é quando você não testa todo mundo. Quando a gente poderia suspender as medidas de isolamento? A grande maioria já concordou com a ideia de isolamento total. Com base nos dados científicos, quando o número de doentes precisando ir ao hospital e o número de mortes começar a cair de forma consistente, aí atingimos o ponto em que o número de pessoas infectadas passa a diminuir. Esse será o momento de discutir a suspensão das medidas de isolamento e no qual vamos começar primeiramente a liberar. Primeiro, as pessoas de menor risco que já tiveram a infecção e estão imunes. Vamos liberando aos poucos. Quais os últimos grupos a serem liberados? As aglomerações coletivas. E de forma controlada. Os restaurantes, por exemplo, com distanciamento de mesas. Quem vai servir? A população mais jovem, de menor risco. Só depois, os bares, shoppings, de tal forma que num espaço de em três a cinco semanas poderemos liberar a todos de uma forma mais generalizada. Quando seria isso? É difícil e perigoso fazer tais inferências. Mas, se os modelos apontam um pico na terceira semana de abril, espera-se que o tal "achatamento" da curva - quando há a manutenção do número diário dos infectados - por duas a três semanas. Isso seria no meio de maio. A partir daí, começa o processo de decréscimo em duas a três semanas de forma consistente. Só então, poderia começar o relaxamento do distanciamento social. Isso vale para todo o Brasil? Há um complicador nesse raciocínio. Temos uma diferença das classes sociais. Poderá ter uma curva para a classe AB e outra para as classes mais vulneráveis. Esse efeito virá depois, com mais dificuldades de mitigação por causa das condições menos favoráveis. Como fazer a gestão disso? Estamos agindo na prevenção primária que é o isolamento das pessoas. Mas tem um segundo aspecto que é a prevenção de alguém em casa que testou positivo ou está com um quadro clínico compatível com a covid-19. O que se faz? Coloca em um quarto separado, usam-se utensílios separados e alguém cuida desta pessoa com relativo distanciamento físico. Na classe AB, dá para fazer assim. Como fazer nas classes mais vulneráveis? Temos estudado projetos em favelas para permitir o distanciamento físico de pessoas com sintomas e que não possam voltar à sua casa, na qual em um cômodo dormem 4 a 5 pessoas. A ideia é ter locais de convivência, como grandes dormitórios ou escolas públicas, com distanciamento adequado, padrões de higiene, cuidadores com máscaras, etc, ajudando a essas comunidades. E os hospitais de campanha? Temos ajudado a organizar. A ideia é que eles sejam centros de atendimento de baixa complexidade, deixando com os hospitais os casos mais complexos. Faltarão médicos? É uma hipótese. Mas é bom lembrar que no Brasil é muito provável que os picos ocorram em tempos diferentes e locais diferentes, pelo fato de o país ser grande e diverso. Do ponto de vista de pessoas, equipamentos e insumos, é provável que as necessidades sejam prementes em momentos diferentes e vamos ter, com uma liderança central do Ministério da Saúde, de suprir outros locais que venham a enfrentar o problema mais pra frente. Quando se olha para as cidades do interior de São Paulo, elas estão bem atrás na curva do desenvolvimento, em relação à capital e à região metropolitana. Toda a epidemia tem seu ciclo. Se os ciclos não acontecerem de forma sincronizada, será bom para o País. E os impactos econômicos deste isolamento? Os efeitos econômicos de uma mitigação são muito menores do que uma recuperação econômica, como na Itália. Ninguém vai aguenta ver corpos empilhados e sair nas ruas achando que não está acontecendo nada. Isso prolonga o período de lockdown. Se não foi feito antes, fazer depois vai ser tão contundente e por tanto tempo por causa do pânico que o efeito econômico vai ser pior do que prevenção. Toda vez que a humanidade se submeteu a decisão humanista à uma decisão puramente econômica, ela sofreu.

ESTADÃO/SÃO PAULO
Data Veiculação: 03/04/2020 às 10h45

SÃO PAULO - O diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, afirma que o pico dos casos do novo coronavírus na região metropolitana de São Paulo se dará, levando em consideração modelos de cálculos, na terceira semana de abril. A estabilidade na curva de crescimento dos casos se prolongará por três a cinco semanas. Só a partir daí, acontecerá o início da queda da curva de forma mais consistente, quando poderia começar gradualmente o relaxamento do distanciamento social. "Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo", diz. Em entrevista ao Estado, Chapchap diz que a obrigação de manter o distanciamento é necessária para evitar o risco trazido pelo crescimento exponencial ao sistema de saúde, principalmente o público. O Hospital Sírio Libanês, uma das referências no atendimento hospitalar privado no Brasil, triplicou sua capacidade de número de leitos em UTI de 60 para 170, abriu 100 vagas permanentes para médicos e especialistas em saúde, adiou cirurgias eletivas, diversificou sua cadeia de fornecedores de insumos e redirecionou o atendimento aos pacientes com covid-19. "Algumas doenças, como cardio-cérebro vasculares, câncer ou que causam dor, não podem esperar pois poderá piorar o prognóstico. O resto tem de ser adiado", diz Chachap. Hoje, dos quase 500 leitos em São Paulo, o Sírio tem cerca de 120 pacientes internados com a covid-19. A seguir, os principais trechos da entrevista. Qual é a taxa de ocupação hoje do Sírio-Libanês? Hoje, a taxa de internação é de 55% a 60% e da unidade ambulatorial é de 20%. Essa taxa de ocupação tende a crescer, caso os efeitos da epidemia não sejam mitigados. Temos tido crescimento diário da ocupação dos pacientes da covid-19 entre 10% e 20%, que é a curva contida de crescimento já vista em outros países que adotaram o distanciamento social. Isso já é possível ver nas classes menos vulneráveis. Quer dizer que já há um achatamento da curva nos pacientes das classes sociais AB? A gente vê sinais antecedentes, mas não se consegue ter certeza. A mensagem clara é: não podemos relaxar. Talvez seja efeito da mitigação. É importante lembrar que há um período silencioso entre a contaminação e a doença, entre a doença e a necessidade de atendimento no hospital e do hospital para a curva de mortalidade. Esse período progressivo de silêncio não é de duas semanas. Esse efeito é maior, de três a cinco semanas. Na Itália, se relaxou no período de duas semanas. Quando acontece o pico dos casos no Brasil? Trabalhamos com a terceira semana de abril. Não quer dizer, com isso, que vamos relaxar nessa ocasião. Só vamos relaxar com o isolamento social quando a curva tiver em franco decréscimo. Por que isso? É quando a gente teria a tal imunidade de rebanho, uma quantidade de gente que já se recuperou da doença. E a proposta de isolamento vertical? É besteira. Primeiro, porque é impossível em qualquer lugar do mundo. Mais problemático ainda é quando você não testa todo mundo. Quando a gente poderia suspender as medidas de isolamento? A grande maioria já concordou com a ideia de isolamento total. Com base nos dados científicos, quando o número de doentes precisando ir ao hospital e o número de mortes começar a cair de forma consistente, aí atingimos o ponto em que o número de pessoas infectadas passa a diminuir. Esse será o momento de discutir a suspensão das medidas de isolamento e no qual vamos começar primeiramente a liberar. Primeiro, as pessoas de menor risco que já tiveram a infecção e estão imunes. Vamos liberando aos poucos. Quais os últimos grupos a serem liberados? As aglomerações coletivas. E de forma controlada. Os restaurantes, por exemplo, com distanciamento de mesas. Quem vai servir? A população mais jovem, de menor risco. Só depois, os bares, shoppings, de tal forma que num espaço de em três a cinco semanas poderemos liberar a todos de uma forma mais generalizada. Quando seria isso? É difícil e perigoso fazer tais inferências. Mas, se os modelos apontam um pico na terceira semana de abril, espera-se que o tal “achatamento” da curva - quando há a manutenção do número diário dos infectados - por duas a três semanas. Isso seria no meio de maio. A partir daí, começa o processo de decréscimo em duas a três semanas de forma consistente. Só então, poderia começar o relaxamento do distanciamento social. Isso vale para todo o Brasil? Há um complicador nesse raciocínio. Temos uma diferença das classes sociais. Poderá ter uma curva para a classe AB e outra para as classes mais vulneráveis. Esse efeito virá depois, com mais dificuldades de mitigação por causa das condições menos favoráveis. Como fazer a gestão disso? Estamos agindo na prevenção primária que é o isolamento das pessoas. Mas tem um segundo aspecto que é a prevenção de alguém em casa que testou positivo ou está com um quadro clínico compatível com a covid-19. O que se faz? Coloca em um quarto separado, usam-se utensílios separados e alguém cuida desta pessoa com relativo distanciamento físico. Na classe AB, dá para fazer assim. Como fazer nas classes mais vulneráveis? Temos estudado projetos em favelas para permitir o distanciamento físico de pessoas com sintomas e que não possam voltar à sua casa, na qual em um cômodo dormem 4 a 5 pessoas. A ideia é ter locais de convivência, como grandes dormitórios ou escolas públicas, com distanciamento adequado, padrões de higiene, cuidadores com máscaras, etc, ajudando a essas comunidades. E os hospitais de campanha? Temos ajudado a organizar. A ideia é que eles sejam centros de atendimento de baixa complexidade, deixando com os hospitais os casos mais complexos. Faltarão médicos? É uma hipótese. Mas é bom lembrar que no Brasil é muito provável que os picos ocorram em tempos diferentes e locais diferentes, pelo fato de o país ser grande e diverso. Do ponto de vista de pessoas, equipamentos e insumos, é provável que as necessidades sejam prementes em momentos diferentes e vamos ter, com uma liderança central do Ministério da Saúde, de suprir outros locais que venham a enfrentar o problema mais pra frente. Quando se olha para as cidades do interior de São Paulo, elas estão bem atrás na curva do desenvolvimento, em relação à capital e à região metropolitana. Toda a epidemia tem seu ciclo. Se os ciclos não acontecerem de forma sincronizada, será bom para o País. E os impactos econômicos deste isolamento? Os efeitos econômicos de uma mitigação são muito menores do que uma recuperação econômica, como na Itália. Ninguém vai aguenta ver corpos empilhados e sair nas ruas achando que não está acontecendo nada. Isso prolonga o período de lockdown. Se não foi feito antes, fazer depois vai ser tão contundente e por tanto tempo por causa do pânico que o efeito econômico vai ser pior do que prevenção. Toda vez que a humanidade se submeteu a decisão humanista à uma decisão puramente econômica, ela sofreu.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
Data Veiculação: 03/04/2020 às 09h58

Objetivo da plataforma é atualizar as pessoas e profissionais de saúde Em tempos de pandemia, o Hospital Sírio-Libanês elaborou um pacote de cursos gratuitos, à distância, focados em Covid-19. Com intuito de capacitar e atualizar profissionais de saúde, tornando clara e eficaz a atuação nesse momento pandêmico. No total, são quatro cursos disponíveis para serem assistidos a qualquer hora do dia: Manejo de Síndrome Gripal e suas Complicações (incluindo Covid-19), Introdução à Ventilação Mecânica, Cuidador de Idosos e o Programa Experiência Sírio-Libanês. Para se inscrever acesse este link. A plataforma é de ensino a distância, com curso gratuitos focados na pandemia mundial, e foi desenvolvida pela equipe do Hospital Sírio-Libanês que se divide entre o cuidado e o compartilhamento de conhecimento. A série tem como principal objetivo atingir o público em geral e os profissionais da saúde. Brasão Ufal branco UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

ISTOÉ DINHEIRO/SÃO PAULO | Outros
Data Veiculação: 03/04/2020 às 09h30

NEGÓCIOS A EQUAÇÃO PARA SIDNEY KLAJNER, PRESIDENTE DO EINSTEIN "Por meio da liderança do nosso instituto de pesquisas clínicas, conseguimos realizar forma rápida a configu com outros hospitais, até levando em conta nossa expertise em outras epidemia^UP®" Concorrentes históricos, os hospitais paulistas Albert Einstein, Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz, HCor e Beneficência Portuguesa criam estratégias conjuntas de combate à Covid-19 Sérgio VIEIRA e Hugo CILO Rd Wí :im l >7‘W Amais complexa das proposições científicas tem uma expressão matemática bem simples: E=mc2 (energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado). A equação resume a teoria da relatividade criada pelo físico alemão Albert Einstein (1879-1955). Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, outra equação simples, mas de resultados importantes, passou a vigorar no País. Ela se chama Coalizão Covid Brasil e contraria a matemática ao provar que um mais um pode ser maior que dois. Na prática, significa que esforços individuais produzem menos que os coletivos. Por isso. uma força-tarefa inédita reúne polos de excelência na medicina: o Hospital Israeli ta Albert Einslein, o Sírio-libanês, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a Beneficência Portuguesa e o HCor (todos em São Paulo), além do Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul. e a Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet). 0 objetivo c criar uma estratégia unificada de ação contra a pandemia, além de desenvolver, em conjunto, estudos médicos com pacientes em vários estágios da doença no Brasil. “Por meio da liderança do nosso instituto de pesquisas clínicas, conseguimos realizar de forma rápida a configuração desse grupo com outros hospitais, até levando em conta nossa expertise em outras epidemias", afirmouà DINHEIRO o presidente do hospital Albert Einstein, Sidney Klajner. Foi no Einstein que o primeiro paciente confirmado com a doença no Brasil recebeu tratamento, em fevereiro. “Começamos a nos preparar para a chegada da doença em dezembro, quando surgiram os primeiros casos na China com grupos de trabalho de diversas áreas, que se reúnem frequente- CENTRO DE OPERAÇÕES No Hospital Albert Einstein o primeiro a tratar paciente com Covid-19 no Brasil, o plano de ação contra a pandemia tem ajudado outros centros de saúde pelo País mente e, combase 11a proteção individual, organizamos rapidamente nosso fluxo, com ambiente em que houvesse leitos de isolamento c criamos diversas diretrizes.” O antigo rivalSírio-Libanês criou um centro de operações em Brasília, chamado de linha de emergência, para unificar os números de 100 hospitais no Brasil. A sala de comando, embora exista desde 2016 e estivesse ociosa, está totalmente dedicada às ações de combate à Covid-19 e estabelece padrões de ação para hospitais desde Itapecerica da Serra (SP) até São Leopoldo (RS). “Tivemos de instituir um gabinete de crise e um plano de catástrofe porque 0 sistema hospitalar no País não está preparado para situações de calamidade como esta”, afirma a superintendente de responsabilidade social do Sírio, Vânia Bezerra uma das coordenadoras na nova estrutura. “Como não lemos guerra, furacão ou terremoto, percebemos que faltava uma direção única, uma coordenação.” Com esse diagnóstico, os seis maiores hospitais privados da coalização também farão, de imediato, as análises em seus centros de pesquisas clínicas. Serão testados 1.354 pacientes de 77hospitais (40 deles também possuem laboratórios de estudos clínicos) no Brasil. A gigante farmacêutica EMS será responsável pelo fornecimento de 20.640 comprimidos dehidroxicloroquina (normalmente usado para tratamento de lúpus, artrite reumatóide e malária) e 5.160 de azitromicina (antibiótico produzido na fábrica emHortolàndia, no interior de São Paulo), além de doar R$ 1 milhão para a realização dos estudos. O plano de ação coordenada inclui três séries de pesquisas. A primeira, chamada de Coalização 1, vai analisar, em 630 pacientes, se a hidroxicloroquina vai ajudar a melhorar o quadro respiratório de pacientes que tenham sintomas leves. Nessafase também será estudado se a ação pode ser potencializada com a adição da azitromicina. A Coalizão II vai focar 440 pacientes com infecção moderada, que também receberão FOTOS: EDUARDOKNAPP/FOLHAPRESS I DIVULGAÇÀO Dinheiro 08,'04/2020 NEGOCIOS hidroxicloroquina e azitromicina. Na Coalização III vão ser estudados 284 pacientes com insuficiência respiratória grave, com necessidade de uso do respirador, e que serão testados com dexametasona o nome comercial 6 dccadron, para tratamentos de alergias e inflamações. Aaprovação para implementação das duas primeiras fases foi publicada no Diário Oficial da União do dia 27 de março. A terceira deve sair nos próximos dias, ainda sem data definida. O diretor médico-científico da EMS, Roberto Amazonas, afirma que a proposta de realizar estudos com os medicamentos veio antes de o presidente americano Donald Trump anunciar, no dia 19 de março, que oFDAa Anvisa dos Estados Unidos estava prestes a aprovar a utilização da hidroxicloroquina em pacientes graves com a Covid-19, após bons resultados em testes. "Fizemos todo o trabalho para implementação do projeto em tempo recorde. O prazo entre a formatação da pesquisa clínica e a aprovação por parte do Conselho Nacional de Etica cm Pesquisa (Conep), do Conselho Nacional de Saúde e da Anvisa foi de apenas uma semana”, diz o executivo da EMS. "Os recursos que doaremos serão utilizados para enviar os medicamentos aos hospitais, já que é necessário que o transporte seja feito de forma correta e também para contratar seguro que possa resguardar os envolvidos, alcm de remunerar parte dos pesquisadores”, afirma Amazonas. Outra ação do Albert Einstein, que compõe a tática de combate àpandemia dentro da Coalizão Covid Brasil, prevê o fortalecimento de iniciativas da porta para fora. Na quarta-feira Io, a Prefeitura de São Paulo concluiu a montagem do hospital REMÉDIO O laboratório EMS iniciou estudes com hidroxicloroquina antes mesmo dos EUA de campanha construído no gramado do Estádio do Pacaembu, que terá 200 leitos (192 de baixa complexidade e oito de semi-intensivo) e que será administrado pelo Instiluto de Responsabilidade Social do Einstein. Para esse trabalho, o hospital irá contratar 509 profissionais de Saúde. ‘‘Serão, ao todo, cerca de 1,5 mil contratações temporárias pelo período de três meses, por conta dessas novas ações”, afirma Klajncr. Na quarta-feira 1, o hospital informou que,dos 15 mil colaboradores,348 haviam sido diagnosticados com a Covid-19, dos quais 15 estavam internados. Desse total, 169 eram de técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos e 36já haviam retornado ao trabalho. Hoje o hospital tem 637 leitos de atendimento. “No hospital municipal de M'Boi Mirim (Zona Leste de São Paulo), está sendo construída, pela iniciativa privada (Ambev e Gerdau) uma ala anexa que terá, até o fim de abril, 100 novos leitos, e tirar os casos de baixa complexidade de dentro do hospital”, afirma o dirigente do Albert Einstein. EXPANSÃO Com 58% dos pacientes com idade acima de 60 anos o grupo de risco parao coronavirus-, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz ampliou em 150 o número de leitos, chegando a 582 (entre internação e UT1) e contratou 200 pessoas, que se somaram aos 2.700 colaboradores da unidade hospitalar. “Até o fim de março, tínhamos 66 funcionários afastados, dos quais 38 com teste positivo para a Covid19 e 28 aguardando resultados dos testes. Tivemos aumento, nos últimos três dias, de pacientes i ntemados por conta do coronavírus”, diz o presidente Paulo Bastian. "Cada hospital vai atuaipor intermédio de seus pesquisadores na coalizão, como se fosse u ma equipe única. Esse comi tê, com pelo menos um representante de cada centro medico, se reúne praticamcntc todos os dias pai a discutir os passos do trabalho. No nosso caso, temos mais 52pesquisadores naretaguarda”, afirma o presidente da instituição, que registrou o primeiro caso da doença no dia 10 de março. Bastian acredita que o pico do coronavírusno Brasil deve se estenderde segunda-feira 6 até o final de abril. II Houve ansiedade nos primeiros estudos, mas é importante que o remédio só seja usado com a prescrição” ROBERTO AMAZONAS DIRETOR DA EMS II Por meio desso processo colaborativo, vamos poder dar uma grande contribuição para o Brasil” DENISE SANTOS, CEO DA BP 36 Dinheiro 08/04/1020 rOTOSiREGISFILHO/VALCW I DIVULGAÇÃO UNIDOS PELA CAUSA Os hospitais Oswaldo Cruz e Srio-Libanês, en São Paula integram a coalizão de combate ã pandemia em todo o Brasil Entre os grandes hospitais, o plano tem sido mais prevenir do que remediar. Segundo a CEO da Beneficência Portuguesa de São Paulo (que recentemente passou a se chamar apenas BP), Denise Santos, o assunto coronavírus começou a entrar em pauta nas reuniões dos dirigentes a partir de janeiro. “Naquele momento já havíamos tomado a decisão de suspender qualquer viagem internacional e, de forma rápida, colocamos cerca dc 750 colaboradores cm sistema home office",afirma a executiva. “Além disso, separamos (luxos de entrada e criamos tendas de pré-triagem, antes mesmo dc entrar no hospital, para pacientes c funcionários, quando passamos a checar a temperatura de todos que entram naBP”, acrescenta O hospital hoje tem 7.2 mil funcionários, além dc 3,2 mil médicos. Do quadro total, 40 foram afastados por conta da doença e dois seguem estáveis dentro da unidade. Para manter um número razoável de leitos para possível e esperado aumento de casos-, a instituição cancelou, há 10 dias, todas as cirurgias eletivas. “Temos cerca FÓRMULA floroquina lidera pesquisas pela cura de 1 mil leitos, dos quais 162 são de UTI. E hoje Lemos ocupação de 60%, j ustamenle para as vagas abertas a novos atendimentos dc pacientes com a doença”, afirma Denise. Sobre a coalização, a presidente da Beneficência Portuguesa acredita que,por conta das atuais 120 pesquisas clínicas hoje realizadas, será possível disponibilizar para esse novo grupo boa parle dos profissionais das áreas de pesquisa e ensino. “Por meio desse processo colaborativo, tenho certeza que vamos poder dar uma grande contribuição para o Brasil.” Defendido por todos os dirigentes das redes hospitalares, o isolamento social tem sido, na avaliação dos profissionais, adotado de maneira eficaz, seguindo os protocolos das principais autoridades sanitárias, além de governos estaduais. Os profissionais também apontam um possível crescimento de notificações nos próximos dias porconta do aumento significativo dos testes realizados no Brasil. Otimista com o resultado das pesquisas da coalização, Roberto Amazonas, da EMS, afirma que, por enquanto, não há comprovação científicaquejágaranlao uso da hidroxicloroquina como tratamento eficaz. “O uso dessa medicação só deve ser feito com acompanhamento médico, jáque ainda não há dado que respalde o uso proíilático. Houve, inicialmente, muita ansiedade a partirdos primeiros estudos, até por falta de conhecimento, mas é importante que o remédio só seja usado com a prescrição. E tenho certeza que a populaçãojá começa a entender isso”, afirma o diretor da EMS. H Cada hospital vai atuar por intermédio de seus pesquisadores na coalizão, como se fosse uma equipe única” PAULO BASTIAN. PRESIDENTE DO HOSPITAL OSWALDO CRUZ Tivemos de instituir um gabinete de crise porque o País não está preparado para calamidade” VÂNIA BEZERRA SUPERINTENDENTE NO SÍRI0-LIBANÊS fOTOS: SILVIA ZAMBONI/VALOR I MOSTYRAKISEN | CIVULGAÇÃ0 DinhelrO O8.'O4/2O20

VEJA.COM/SÃO PAULO
Data Veiculação: 03/04/2020 às 06h00

Eu perguntei umas vinte vezes aos médicos: “Estou curada, mesmo?”. Era algo surreal para mim: poderia voltar a beijar minha neta e abraçar meus familiares. Essa doença, a Covid-19, é muito maluca. As pessoas que ficam em isolamento domiciliar enfrentam uma situação bem difícil, porque elas não estão com problemas suficientemente graves para ir ao hospital, mas têm sintomas desagradáveis o suficiente para se desesperar em casa sozinhas. Foi uma vitória passar por isso. Tudo começou quando fui me apresentar em um casamento na Bahia, em 7 de março*. Apesar de ter amigos entre os convidados, eu estava lá para trabalhar. Entrei no evento pelos fundos, cantei e fui embora. Tinha uma agenda de trabalhos em São Paulo — para onde parti logo em seguida. Não fiquei preocupada, pois não circulei pela festa. Não tive contato com ninguém, a não ser com a família da noiva. Pensava que a doença era uma coisa bem distante de mim. Mas, quatro dias depois, os sintomas apareceram. Acordei muito mal. Uma dor no corpo insuportável e uma dor de cabeça que não me deixava abrir os olhos. Fui para o hospital. Ao chegar à recepção do Sírio-Libanês, vi muita gente que tinha estado no casamento. Quando fazia o exame, veio a confirmação de que a Pugliesi havia testado positivo para o coronavírus. Ali caiu a minha ficha: eu tinha certeza de que estava com o vírus. Meu médico, David Uip (coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, também diagnosticado com o coronavírus dias depois), não esperou o resultado: mandou que eu e meu marido voltássemos para o apart hotel em que estávamos hospedados e nos pediu que não saíssemos de lá. No dia seguinte, veio o resultado: positivo. Fiquei com muito medo. As dores de cabeça e os calafrios continuaram. Meu paladar e olfato sumiram. Tive uma dor forte no ouvido e uma moleza bem grande. Quase desmaiei arrumando a cama do quarto durante o isolamento. Meu marido queria me levar para o hospital, mas eu não queria ir. Coloquei na cabeça que, se eu fosse para o Sírio, poderia ficar lá entubada e não sair mais. Eu tive dúvidas se sairia dessa. A gente se sente muito frágil. A vida é um sopro. Procurei ocupar a mente com pensamentos positivos. Tentei pensar na minha família. Tive sorte de ter meu marido comigo — apesar de respeitarmos a distância de 2 metros: dormíamos em camas separadas, eu tinha meus talheres, lavava e esterilizava tudo. Foi tudo feito para ele não pegar o vírus (felizmente, deu certo!). Neste momento, o que importa é praticar a empatia com o próximo. É um isolamento social, não afetivo. Não isole emocionalmente seus entes queridos, amigos, vizinhos. Tome as medidas de precaução, mas não os isole de atenção. Deixe um bilhete na porta, ligue, pergunte se está tudo bem. Acima de tudo, não aja com preconceito contra quem está infectado. Os moradores do apart hotel não me queriam lá nos primeiros dias. Cheguei a receber uma ligação da gerência me perguntando até que dia eu pretendia ficar, pois os hóspedes estavam incomodados. Meu médico precisou telefonar para o hotel e ensinar como deveriam lidar com um infectado. Aos poucos a relação foi melhorando. Os vizinhos começaram a me ligar, mandavam bilhetes, flores, comida. Ser amoroso não vai contaminar você. Eu tive sequelas: meus brônquios ainda estão inflamados, não tenho olfato nem paladar e a dor no ouvido persiste. Faço fisioterapia respiratória todos os dias. Mas sou uma nova pessoa. A maneira como encaro a vida, meu tempo de respiração, tudo mudou. Esse vírus mostrou que a gente tem de reavaliar nossos valores, nossas prioridades. Deus me deu uma segunda chance. Quero aproveitar de forma mais responsável minha existência. * Ela se refere ao casamento de Marcelo Bezerra de Menezes e Marcella Minelli, irmã da influenciadora Gabriela Pugliesi. Depoimento dado a Eduardo F. Filho Publicado em VEJA de 8 de abril de 2020, edição nº 2681

METRÓPOLES/BRASÍLIA
Data Veiculação: 03/04/2020 às 05h22

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem reforçado em suas coletivas de imprensa a preocupação com a situação do Distrito Federal na crise do coronavírus. Apesar de estar no quarto lugar em números absolutos, a unidade da federação tem a maior a taxa de incidência da Covid-19 no Brasil. No indicador que relaciona o número de casos confirmados com o tamanho da população, o DF apresenta 11,6 casos de pessoas infectadas para cada grupo de 100 mil habitantes. O Distrito Federal assumiu o primeiro lugar em 13 de maio, caiu de novo e alguns dias depois disparou na frente das outras UF. Em segundo lugar, está São Paulo, com taxa de 6,4 casos confirmados para cada grupo de 100 mil e, em seguida, Ceará, Acre, Amazonas e Rio de Janeiro, com 4,8 óbitos para cada grupo de 100 mil. “Estes números são muito importantes porque assim conseguimos enxergar como a doença está se espalhando pela população”, afirmou Mandetta, durante atualização do estado da pandemia no Brasil. Para conter o rápido avanço do coronavírus na capital, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), prorrogou até 3 de maio as medidas de isolamento social. A decisão foi publicada em edição extra do Diário Oficial na quarta-feira (01/04). O governo também estendeu o fechamento dos estabelecimentos educacionais (escolas e faculdades) até 31 de maio. Devido as peculiaridades de Brasília, Ibaneis foi o primeiro governador a adotar o isolamento social no país. A cidade tem uma grade comunidade diplomática, além de receber pessoas que chegam de todos os lugares do país para assuntos políctico. Mas segundo especialistas, é preciso também considerar que os sistemas de vigilância sanitária são muito diferentes entre os estados. “Não se pode olhar da mesma forma para a capacidade de rastreamento de São Paulo com a de uma cidade no interior do nordeste”, explica Alexandre Cunha, infectologista do Sírio Libanês, do Hospital Brasília e dos laboratórios Sabin. Alexandre Cunha ainda ressalta que a capacidade de testagem no Distrito Federal em um primeiro momento foi superior ao de outras unidades da federação. “É muito mais fácil fazer o controle aqui por conta do tamanho do DF”, diz.

PIAUÍ/RIO DE JANEIRO | GERAL
Data Veiculação: 03/04/2020 às 03h00

Tempos da peste_diário_CHRIS GALLAFRIO NOVAES NÃO TENHO RESPOSTA PARA TUDO A vida de uma médica entre seis hospitais e três filhos durante a pandemia CHRIS GALLAFRIO NOVAES. 45 anos, é médica infectologista. Em março, quando o novo coronavírus passou a ser transmitido de forma comunitária no Brasil, ela recebeu seus primeiros pacientes contaminados. Foi obrigada a adaptar a rotina no trabalho (com rituais de paramentação e corridas incessantes de um local a outro) e em casa (com regras para evitar o contato com o marido e os três filhos). No diário abaixo, ela conta sobre os dias iniciais da pandemia em seis dos hospitais em que trabalha em São Paulo. 15 DE MARÇO, D0MING0_as pessoas não estão se dando conta da gravidade da epidemia. Não percebem qne o vírus já está circulando abertamente entre nós, com transmissão comunitária. Hoje é aniversário do André, meu marido, e minha sogra, que adora cozinhar, vinha preparando uma festa já fazia algumas semanas. Na sexta-feira, quando o vírus começou a mostrar sinais de transmissão comunitária, conversamos sobre cancelar. Foi um estresse (entendo, tudo já tinha sido comprado, mesas e cadeiras alugadas etc.). Decidimos seguir em treute com um número reduzido de pessoas. Pelo menos a festa foi ao ar livre. Ver os amigos e familiares, todos juntos, gerou certa angústia em mim, por saber que essas reuniões passariam a ser cada vez mais arriscadas, talvez proibitivas durante alguns meses. O bebê mais fofo da festa minha sobrinha, xodó da família andou entre todos com eoriza (chegou a subir no colo dos quatro avós). Provavelmente era um resfriado comum, mas fiquei tensa: em crianças o coronavírus se manifesta com sintomas discretos, por vezes apenas uma eoriza. 16 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA_E xausta, já passa de meia-noite e meia. Ontem, enquanto dormia, tive um pesadelo daqueles de criança. Estava numa praia tranquila, parecia até uma lagoa, as pessoas brincavam, pegavam sol, até que surgia uma onda gigante engolindo todo mundo. Faço parte de uma equipe de três infeetologistas: Marcelo, Bruno e eu. Visitei nossos pacientes internados no Hospital Sírio-Libanês e fui a uma reunião do comitê de crise da escola dos meus filhos. I lavia cerca de dez pessoas, todas juntas, sentadas ao redor de uma mesa. Ficamos ali cerca de duas horas, quase encostadas umas nas outras. A ficha ainda não caiu quando se trata de ações no dia a dia. De lá fui para o Alber! Finstein visitar outro paciente. O pronto-socorro estava relativamente vazio. Não era uma coincidência: um enfermeiro me disse que o hospital havia montado outro pronto-socorro no segundo andar, só para atender suspeitos de coronavírus (e sim, esse andar estava lotado). Cheguei em casa por volta de oito e meia da noite. Antes de descer do carro, atendi à ligação da esposa de um paciente. Ele tem 65 anos, havia ido a um evento com a comitiva do Bolsonaro em Miami, e agora está com febre (por ora, a comitiva já tem catorze casos comprovados). Resolveram ir ao pronto-socorro. Entro em casa pela porta dos fundos, higienizo as mãos com álcool gel. Tiro a roupa na lavanderia, coloco direto na máquina de lavar. Sigo para o banho. Agora essa é minha rotina. A pior parte é a de não chegar perto das crianças. Saindo do banho, vejo que há duas ligações não atendidas. Retorno a primeira: uma amiga, cardiologista, conta que não vai conseguir voltar ao hospital para atender um paciente. Ela já vinha apresentando um quadro de moleza desde sábado, mas como nós, médicos, estamos habituados a fazer, ignorou os sintomas por serem leves. Tirou um cochilo hoje à tarde e acordou com febre. Ela me contou que atendeu um paciente, quatro dias atrás, que estava com febre depois de voltar de uma viagem (ele fez o teste e hoje recebeu o resultado: positivo). Até perceber o risco, o contato já havia acontecido. Pedi para ela fazer exame para Covid-19 e ficar em isolamento domiciliar. A segunda ligação era do Raul, amigo querido da faculdade, ortopedista que operou minha mãe. Sua esposa estava sendo internada no Oswaldo Cruz com suspeita de coronavírus. Ela vinha com sintomas muito leves tosse seca, sonolência -, também ignorados desde sexta-feira. I hoje, após reunião no hospital onde ela trabalha como enfermeira, apresentou febre de 38,5"C e falta de ar. O pior é que nesse período ela teve contato com a mãe e com o sogro. Ela fez tomografia computadorizada do tórax. Resultado: lesões muito sugestivas de coronavírus em ambos os pulmões, principalmente nas periferias e nas bases. Foi colocada em um andar reservado para esses casos, onde já há seis pacientes confirmados e onze com exames em andamento. Coloquei o Raul e as duas filhas pequenas em quarentena; eles não poderão visitá-la. Só que uma das filhas não conseguia dormir enquanto a mãe não ligasse para desejar boa-noite (o celular dela estava sem bateria, e o Raul perguntou se eu não conseguiria fazer esse pedido chegar ao quarto em que ela estava). Que dó. Chris Novaes, em um de seus plantões: “0 mais difícil está sendo com a minha filha mais nova, Marina, de 12 anos, que sempre vem correndo me dar um abraço quando chego em casa" Ao deitar, sinto o rosto quente, o coração um pouco mais acelerado e uma le\ e dispnéia. Deve ser ansiedade. 17 DE MARÇO, TERÇA-FEIRAJ hoje cedo tio tranquilo no ambulatório de hiv do Hospital das Clínicas, onde trabalho. Os pacientes estavam preocupados sobre a forma como o novo vírus se manifestaria no caso deles. Pelas informações publicadas até o momento, parece não haver diferença entre portadores ou não de hiv. Tratei de tranquilizá-los. No Hospital das Clínicas, por enquanto, faço só ambulatório de hiv. Mas pode ser que sejamos deslocados, a depender da evolução da epidemia. Após o almoço e até agora, meia-noite, não parei por um minuto. Segui do hc para o hospital do Butantã, onde atendo pacientes picados por animais peçonhentos, como escorpiões, aranhas, cobras, lagartas. E minha noite de plantão, que vai até a manhã seguinte. Apesar do coronavírus, as outras doenças continuam a existir. Fora daqui o dia toi tenso c triste, por causa da primeira morte ocorrida pela Covid-19 no Brasil: um paciente de São Paulo. A situação epidemiológica hoje, segundo o site do Centro de Vigilância Epidemiológica do estado de São Paulo é a seguinte: 167 515 pacientes contaminados no mundo, SI 290 na China, 290 no Brasil, 165 em São Paulo. Mas os números brasileiros estão subestimados. Sabemos, por informações internas, que os três principais laboratórios do estado somam 821 exames positivos, que ainda não foram computados (leva-se um tempo entre a notificação de um resultado positivo e sua computação pelo Ministério da Saúde). Além disso, só em um dos maiores laboratórios há mais de 3 mil exames cm andamento. A onda já é maior do que conseguimos enxergar. Minha cunhada está em isolamento desde domingo (ela vinha apresentando um quadro de tosse, achei melhor que ficasse em casa). Hoje ela me conta que o seu marido, ortopedista, também está com suspeita de ter contraído o vírus. Ele passou o dia de ontem trabalhando com um residente e esse residente acordou hoje com febre e falta de ar (ele fez tomografia, vi as imagens: as lesões são típicas da Covid-19). Sei que nós, profissionais da saúde, temos mais chance de serem infectados. Meu único receio, caso isso ocorra, é o de ficar afastada dos atendimentos por duas semanas, em um período em que os médicos serão cada vez mais necessários. Na minha faixa etária tenho 45 anos -, o risco de óbito ainda é relativamente baixo (0,4%), pelo menos de acordo com os dados da China. Ele cresce após os 60 anos (3,6%), os 70 (8%) e os 80 (14,8%). Sou feliz com o que fiz e vivi até agora. Meus três filhos-eles têm 12, 13e 15 anos são responsáveis, maduros, se importam com o outro. Me tranquiliza ter essa certeza de que irão bem mesmo se eu não estiver mais aqui. Além disso, eles já passaram por perdas desde cedo, de pessoas muito próximas: crianças, adultos, idosos. Foram aprendendo a lidar com a morte. Entre meus colegas, o receio maior é o de sofrer em um uri, com intubação e chance de pneumonia hospitalar, caso a doença evolua de maneira grave. E um receio que também tenho; pensar nisso não é agradável. Outra preocupação frequente é a de que aqui se repita o que tem ocorrido em alguns países europeus, como a Itália, com um número avassalador de óbitos de idosos, lámbém há preocupação com a capacidade do sus de atender a população, além da provável piora dos indicadores sociais. Discute-se também sobre o risco de aumento de suicídios em função do isolamento forçado. Muitos não sabem, mas as visitas a todos os pacientes internados, mesmo àqueles com outras doenças, serão cada vez mais restritas. Isso é necessário para que menos gente circule nos hospitais, reduzindo o risco de disseminação. Por outro lado, privará doentes graves de outras doenças, que estão em cuidados paliativos (do qual um dos principais pilares é o conforto propiciado pela família) de receberem seus entes queridos. Sempre me consolou pensar no tipo de morte que tiveram minha avó, minha tia e minha tia-avó, em suas casas, com suporte da família. Acho que todo mundo merecia uma morte assim. 1 lá pouco foi divulgado o segundo óbito, dessa vez em Niterói: um homem de 69 anos. Soube que na Itália não permitem visitas a esses pacientes nem quando caminham para a morte. Isso me arrepia. 18 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_ _Saí do plantão de manhã e fui direto para o consultório que divido com o Marcelo no bairro da Bela Vista. Eu precisava atender dois pacientes idosos. O primeiro havia sido operado recentemente. O segundo havia tido tuberculose. Pedi que ele não viesse piauí_ abril 53 EGBERTO N0GULIKA_2020 nosso anxinonH ao consultório, disse que ficaria mais protegido em casa, até porque tem apresentado um quadro de melhora. Mas, couro ele precisava estar na região por causa de outra consulta, acabou vindo. Os outros pacientes, mais jovens, também em situação de controle, concordaram com a consulta de retorno a distância. Reccbi ligação de um paciente que tinha recebido confirmação do coronavírus na noite anterior. F,le relatou uma falta de ar intensa de fato parecia ofegante ao telefone. Pedi que fosse ao pronto-socorro do Sírio Libanês, e eu o atendería lá, porque precisaria de um exame de imagem. Perguntei como ele iria. Ele me disse que pretendia pegar um Uber, sem máscara (ele não tinha), mas eu proibi. Dei a ele duas opções: ir em carro próprio ou pedir que algum vizinho lhe providenciasse uma máscara. No pronto-socorro, vi que ele estava bem, com bom nível de oxigenação sanguínea, embora um pouco taquicárdico. Pedi os marcadores sanguíneos e uma tomografia, depois voltei ao consultório para atender outro paciente. Dali eorri para um segundo hospital, o bf Mirante, que fica a dez minutos de carro. Outra paciente com coronavírus, pouco menos de 60 anos, diabética. Correría. Feito o atendimento, retornei ao Sírio. Os exames do paciente taquicárdico estavam prontos: a tomografia mostrava um pulmão limpíssimo, o exame de sangue também estava ótimo. Assim como laço antes de todo atendimento a pacientes com suspeita ou diagnóstico firmado de Covid-19, eu vesti avental, máscara, óculos, higienizei novamente as mãos com álcool gel c coloquci as luvas. Tranquilizei o paciente: provavelmente sua sensação de falta de ar tinha sido reflexo não do e o coronavírus, mas da notícia de que seu exame tivera resultado positivo. Ele entendeu e foi para casa de máscara. Findo o atendimento, o ritual de desparamentação: retirar ainda no prontosocorro as luvas e o avental com todo o cuidado, segurando pela parte interna; sair do quarto; higienizar as mãos; retirar os óculos pelas hastes laterais; retirar a máscara pela parte dos elásticos; higienizar novamente as mãos com álcool gel; higienizar os óculos antes de guardá-los; e novamente gel nas mãos. Ainda preciso pensar antes de cada passo; sempre tenho receio de estar fazendo de maneira errada. Visitei mais dois pacientes no Sírio e segui para um terceiro hospital, o Oswaldo Cruz (mais dez minutos de carro), onde está internada a mulher do meu colega Raul. Ela vinha passando muito bem até que voltou a apresentar febre. Dali segui para um quarto hospital, o Einstein, que fica mais distante. No caminho, aproveitei que o carro tem viva-voz e retornei as ligações de vários pacientes, a maioria idosos. “Não, melhor não sair de casa.” “Não, não pode cuidar da neta de 8 anos, e nem do neto de 3 anos que está resfriado.” “Sim, entendo que ela vai chorar porque é muito apegada.” Colegas também ligam, alguns mais velhos pedem que eu atenda seus pacientes; acho prudente. Outros colegas ligam para tirar pequenas dúvidas. “Não estão mais fazendo teste-diagnóstico, o que faço?” Devido ao rápido consumo dos primeiros dias, os estoques acabaram e os hospitais e laboratórios forar 11 obrigados a mudar de estratégia, reservando os exames para os pacientes graves. Recomendo então já deixar o paciente em isolamento -1 nelhor pecar pelo excesso. “Atendi um paciente com diarréia, e depois o resultado da Covid-19 veio positivo, acredita?” Aos poucos vamos percebendo que o vírus pode se manifestar de forma atípica. “Que máscara usar? Corno usar? A manga do avental sobe expondo parte do meu punho, o que faço?” Não tenho resposta para tudo, mas às vezes dividir a angústia já alivia. No Einstein, atendi um paciente internado há um mês (nada a ver com o eoronavírus). Mal eu termino, o Marcelo me avisa que a mulher de um colega pneumologista está no pronto-socorro do Oswaldo Cruz. Ela havia chegado do Canadá, onde foi fazer um curso de inglês. Só que a escola havia sido fechada depois que um aluno teve diagnóstico de Covid-19 confirmado. Dias depois cia começou a sentir um leve mal-estar. Vinha fazendo uso de ibuprofeno para cólicas menstruais, o que pode ter mascarado os sintomas, até que eles vieram com torça: febre, uma sensação de aperto no peito e falta de ar. Ela então adiantou seu voo para o Brasil (veio de máscara N95 no avião). Aqui chegando, foi direto para o hospital. Expliquei a ela como deve ser o isolamento. A pessoa com diagnóstico confirmado ou mesmo provável deve ficar em um quarto, de preferência com banheiro próprio. Uma pessoa da família deve ser designada para ter o contato mínimo necessário: levar comida, dar suporte, fazer a limpeza sempre usando máscara e higienizando as mãos antes e depois de entrar no quarto. Animais de estimação não podem entrar. Se possível, pessoas idosas devem se mudar para outra casa. Talheres, copos c pratos devem ser de uso exclusivo do paciente, que deverá permanecer com máscara o tempo todo, e de janelas abertas. Não é simples. Ouando retornei para casa, à noite, cumpri o ritual de me despir na área de serviço, colocar a roupa para lavar e seguir direto para o banho. Conversei com as crianças de longe. Luis Henrique, de 1? anos. conseguiu finalmente se adaptar aos estudos online. Isabela, de B, não para de falar maravilhada sobre o livro que acabou de ler, Razão e Sensibilidade, da Jane Austen (virou sua nova diva, colocada no pedestal ao lado da Emilv Bronté). O mais difícil está sendo com a mais nova, Marina, de 12 anos, que sempre vem correndo me dar um abraço quando chego em casa. “Não pode, lilha. Não pode, fofa”, lento explicar. Além dos pacientes de Covid-19 que atendo, frequento muito o pronto-socorro. um ambiente potencialmente contaminado. O André está trabalhando em casa desde ontem. Tem sido puxado para ele, que tem se encarregado dc ajudaras crianças na nova dinâmica de estudos, cuidar da casa, cozinhar além de tocar seu trabalho com seguidas reuniões por videoconferência (ele é executivo). Orientamos a senhora que trabalha conosco a ficar na casa dela desde segundafeira, dia 16, de torma a evitar que pegue transporte público (mantivemos seu salário. claro). As crianças fizeram uma tabela, por iniciativa própria, com a divisão dos afazeres domésticos (regra maravilhosa: quem esquecer de limpar seu banheiro terá que limpar o da mamãe também). São quase onze da noite. Me esparramo no sofá exausta, após mais de 36 horas trabalhando, e começo a checar as centenas não é linguagem figurada de mensagens de WhatsApp, enquanto o André prepara o jantar. Comemos na varanda. Depois tento vencer o sono enquanto checo algumas publicações científicas recentes sobre o eoronavírus. Infelizmente, o antirretroviral usado até pouco tempo atrás para pacientes de hty uma associação de lopinavir com ritonavir não se mostrou eficaz contra o eoronavírus, segundo o New England Journal of Medicine. Leio também uma análise publicada no Morbidity and Mortality Weekly Report sobre faixa etária de pacientes mortos nos Estados Tinidos. Tento manter certa distância do André, mas é difícil. Acordo várias vezes à noite preocupada em não virar o rosto para o lado dele na cama. Acho que não conseguiremos manter essa regra por muito tempo, nem com relação a ele nem com os meus filhos. A Marina vive tentando me abraçar de surpresa. Talvez o dano provocado pelo afastamento seja maior que o do eoronavírus... 19 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_Manhã no ambulatório de mv do Hospital das Clínicas. Ligamos para os pacientes, para dispensar de consulta aqueles cujos exames estivessem com carga viral indetectável. Os que apresentavam algum tipo de alteração sanguínea continuaram com as consultas presenciais agendadas. A tarde, o Marcelo ficou encarregado de visitar todos os nossos pacientes internados. Fu queria aproveitar o tempo para estudar as novas publicações científicas sobre o eoronavírus, mas acabei me dedicando à enxurrada de mensagens que havia recebido de pacientes e colegas provocada pela circulação de uma notícia sobre a “cura" da Covid-19 com um remédio chamado cloroquina. Resolví ler um dos artigos acadêmicos responsáveis por essa euforia. Me animei: ele vinha com um gráfico mostrando resultados supostamente superiores de pacientes que haviam usado a hidroxicloroquina associado à azitromicina. Mas o entusiasmo foi por terra assim que comecei a ler o trabalho: a pesquisa era pequena, não tinha os dados de quem melhorou e de quem foi a óbito. Além disso, o grupo tratado com cloroquina tinha idade inferior à do grupo não tratado e a gente sabe que essa doença castiga mais os idosos. Eventualmente pode ser que a hidroxicloroquina-que é um derivado menos tóxico da cloroquina venha a ser útil, mas por ora não temos base para usá-la. O problema é que o togo pegou em campo seco, e ficou difícil apagá-lo. Houve paciente me enviando foto da caixinha do remédio —que ele já havia comprado, por conta própria -, perguntando como 54 deveria tomar. O mais triste disso tudo é que os pacientes que realmente tem indicações de tomar a hidroxicloroquina pessoas com artrite rcumatoide, por exemplo ficarão sem a droga, já que cia se esgotou nas farmácias. A noite, reunião de classe da Isabela por videoconferência coisa inédita, ainda mais considerando a escola de pedagogia Waldorf onde as crianças estudam. 20 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA_Ambulató- rio vazio de manhã. Continuei o processo de checar os exames e telefonar para os pacientes: c estranho não lê-los aqui, a sala de espera virou um vazio, só se ouve a televisão ligada para ninguém. Ao meio-dia fui do hc para o BP Mirante, onde a paciente diabética com Covid-19 está internada (o quadro estava mais estável, sem febre). De lá segui para o Oswaldo Cruz indo \ isitar a esposa do Raul. Ida apresentou melhora, sem febre por 48 horas, embora esteja com o intestino um pouco solto. Sente muita falta das filhas. Está abalada também porque um paciente do seu andar onde só há internados com Covid-19 foi a óbito. Normalmente a essa hora, por volta de meio-dia e meia, eu busco cinco crianças na escola meus três filhos e mais dois colegas (me revezo no transporte com a mãe das outras crianças). Costumo demorar uma hora para ir e outra para voltar, já que a escola fica em Santo Amaro. Mas como as escolas estão fechadas, volto para casa e ajudo o André a fazer a comida; ele está exausto. Meu primeiro paciente de Covid-19 está em seu nono dia de quarentena, já muito bem. Ele me ligou para saber se após ler pego o vírus ficaria protegido contra reinfecção. Aparentemente sim, respondí, embora haja relatos raros, e ainda não comprovados de pacientes que teriam contraído a doença duas vezes. I rata-se de uma enfermidade nova, ainda estamos aprendendo. Ele me explicou o motivo da pergunta: quer se inserir em algum projeto como voluntário caso de fato esteja protegido. Isso me tez feliz por um ano inteiro. 21 DE MARÇO, SÁBADO. .Ontem à noite uma nova paciente com suspeita de coronavírus me mandou uma mensagem: estava começando a sentir falta de ar. Como ela não tem doença crônica e não está na faixa et,iria de risco, a orientei a observar e me telefonar caso os sintomas se intensificassem (sempre peço que me telefonem durante a noite, porque nem sempre acordo com o barulhinho da mensagem). Ela não ligou, mas mandou mensagem às 5h30 porque estava pior. Milagrosamente acordei com o bip, e a orientei a ir de máscara para o pronto-socorro do Sírio enquanto eu tomava um banho rápido. Lá chegando, subi direto para o décimo andar, onde foi montado um pronto-socorro para atender casos suspeitos de coronavírus (separaram também um elevador exclusivo, que não para em nenhum outro andar). Me paramento, entro no local onde está a paciente, converso com ela, peço exames de sangue e tomografia. Enquanto ela os faz, aproveito para passar visita na paciente que está no bp Mirante. Ela ainda cansa quando tira o cateter de oxigênio, mas está visivelmente melhor. Depois vou para o Oswaldo Cruz ver a mulher do Raul. Ela também melhorou, hoje é o terceiro dia sem febre. Converso com o pneumologisla que também a acompanha, c concordamos que ela está apta a receber alta. A noite recebo uma mensagem dela agradecendo; tinha sentido muito medo de morrer. “Quando cheguei em casa, eu e o Raul ficamos chorando muito". cia diz. “E ainda estou assustada com o que está por vir." Não vai ser fácil. 22 DE MARÇO, D0MING0_\o total, agora, tenho uma paciente com eoronavírus internada e outros doze em acompanhamento a distância (o Marcelo tem mais dezoito). Por volta de meio-dia, vou ver essa paciente no bp Mirante. Ela está melhor: pela primeira vez. conseguiu ficar algumas horas sem oxigênio. Percebo que agora meu processo de paramentação e desparamentaçâo colocar e tirar máscara, óculos, avental, luvas e muito álcool gel já está automatizado. Enquanto descrevo a evolução da paciente no sistema de computadores, percebo que a auxiliar de enfermagem do meu lado está um pouco desconfortável. Ela me conta qne trabalha no ambulatório de saúde da mulher, e que foi deslocada para o andar dos pacientes com Covid-19. Hoje é seu primeiro dia. Está preocupada com o filho pequeno; tem medo de levar a infecção para casa. Essa preocupação não é infundada. Um editorial do periódico The I .ancet citou mais dc 3 300 profissionais de saúde infectados na China e pelo menos 22 mortes. Na Lombardia, principal área afetada da Itália, a infecção dc profissionais de saúde está em 20%, com alguns óbitos. Quando penso nisso, os casos de agressão contra enfermeiras em transporte público me deixam ainda mais revoltada. Um colega anestesista relatou que uma enfermeira do Einstein chegou ao hospital chorando após quase ser expulsa do vagão do trem (os passageiros acharam que ela poderia infectá-los depois dc verem sua maliuha com a logomarca do hospital). No meu prédio mesmo, onde moram muitos médicos, um vizinho sugeriu que nós, médicos, não usássemos mais o elevador. Concordei, não só porque desse modo gero menos insegurança para os outros moradores, mas também porque assim faço um pouco de atividade tísica. A tarde uma colega que não estava se sentindo bem pediu para cpie eu visse um paciente dela internado por infecção intestinal. Rumei para o Einstein. Cidade vazia e silenciosa, boa para pensar. O artigo recente do jornalista Jamil Chade ocupa minha mente durante o caminho. O título diz tudo: A Crise que Definira Nossa Geração.

O GLOBO/RIO DE JANEIRO | Geral
Data Veiculação: 03/04/2020 às 03h00

MINISTÉRIO TEM ESTOQUE ZERADO COM TODOS OS INSUMOS DISTRIBUÍDOS, FALTA PODE OCORRER NO PICO DOS CASOS Exposição ao risco. Entidades que representam médicos e enfermeiros chamam atenção para a gravidade da falta de equipamentos de proteção individual. Estados tentam atenuar o problema ANA LETÍCIA LEÃO, ELISA MARTINS E RENATA MARIZ sociedade@oglobo.com.br SÃO PAULO E BRASÍLIA 0 Ministério da Saúde está com estoque zerado de equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde. A pasta distribuiu 40 milhões de itens a estados e municípios e tenta comprar cerca de 720 milhões de produtos, sendo 200 milhões de máscaras. Fornecedores chineses de parte da encomenda alegaram não poder entregar conforme combinado devido à alta demanda. Uma compra robusta dos EUA, segundo o ministro Luiz Henrique Mandetta, fez com que alguns contratos brasileiros “caíssem”. A pasta confirmou ao GLOBO que não tem mais estoque de equipamentos de proteção, essenciais para a segurança dos profissionais de saúde. Diante do problema, o Ministério da Saúde recorreu a outras empresas e espera receber. Mandetta destacou, porém, que por enquanto as secretarias ocais de Saúde estão abastecidas. No entanto, o pico da epidemia é previsto para este e os próximos dois meses. O ministro fez um apelo a gestores estaduais e municipais para que também comprem equipamentos de proteção individual. Ele voltou a falar que será preciso normatizar o uso de máscaras N-95, consideradas mais modernas para filtrar o ar. O equipamento terá o nome de cada profissional de saúde e será esterilizado para ser usado diversas vezes: —A gente espera que os países que exercem seu poder muito forte de compra já tenham saciado suas necessidades para que o Brasil possa proteger nosso povo. O Conselho Lederal de Enfermagem expressou sua preocupação. Para o presidente Manoel Neri, a so ução pode estar no redirecionamento da produção brasileira. “Cada dia de atraso representa um risco adicional. E preciso redirecionar a produção de setores da indústria nacional para atender a demanda. O governo não pode se eximir de seu papel como controlador da produção de insumos estratégicos”, diz, em nota. Em São Paulo, reclamações sobre a falta de equipamentos de proteção individual lideram a lista de denúncias recebidas nos últimos 15 dias pelo Simesp (sindicato dos médicos local). Elas representam 59% das queixas feitas por profissionais das redes pública e privada contabilizadas até l9 de abril e chegam a 66% quando somadas a relatos de falta de materiais de higiene. A Associação Nacional de Hospitais Privados divulgou ontem que os estoques estão se reduzindo de forma acelerada no país. Segundo a entidade, 61 dos 122 associados relatam que as reservas que durariam em média 47 dias alcançarão menos de 30. Além disso, denuncia que 20% das instituições associadas nem sequer têm estoques. No desafio de garantir o básico na luta contra o novo coronavírus, também chamam atenção do Simesp relatos anônimos de fluxo inadequado de atendimento nos hospitais e negativa de realocação de médicos do grupo de risco. PRISIONEIROS MOBILIZADOS Hospitais têm apelado a alternativas e soluções criativas para driblar a falta de insumos. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP lançou ontem uma plataforma própria para captação de doações que contribuam para o enfrentamento da epidemia, e residentes se mobilizaram nas redes e lançaram o movimento #vempraguerra, buscando doações para serem usadas nos próximos meses. Já o governador João Doria anunciou um incremento na confecção de máscaras por )resos nas cadeias de São Pauo. O plano é que sejam confeccionadas mais de 50 mil unidades por dia. A Secretaria de Saúde de São Paulo não admite escassez de equipamentos e afirma que foram adquiridos mais de 42 milhões de unidades. O Albert Einstein afirma que não falta nenhum dos materiais necessários. Na mesma linha, o Sírio-Libanês e a Rede D’Or dizem que “têm insumos suficientes”. No Rio, a escassez é motivo de preocupação para o governador Wilson Witzel: — A doença está avançando, e nós não vemos, a nível do governo federal, a mesma velocidade que se esperava para fazer frente às necessidades da saúde —disse, em entrevista coletiva ontem.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 03/04/2020 às 03h00

Mesmo em cenário mais otimista, vão faltar leitos O avanço do coronavírus submeterá hospitais brasileiros a pressões significativas mesmo se o contágio da população evoluir de forma lenta nos próximos meses, projetam estudos. No pior cenário, haverá déficit de UTIs neste mês. Sâo Paulo prevê a rede municipal saturada em dua ssemanas. saúdeB2eB3 Brasil terá falta de leitos mesmo em cenário mais otimista Como o avanço do coronavírus pode afetar o sistema de saúde pública Simulações para demanda e oferta de leitos de UTI. Taxas de ocupação superiores a 100% indicam falta de leitos para atendimento no cenário descrito Grau de comprometimento da estrutura disponível no SUS e na rede privada em cada região, de acordo com a taxa de ocupação dos leitos de UTI, em% ■ 0 a 20 ■ 20 a 40 ■ 40 a 60 ■ 60 a 80 80 a 100 100 a 120 ■ 120 a 140 ■ 140 a 160 ■ 160 a 180 ■ 180 a 200 ■ Mais de 200 Estudos de diferentes grupos de pesquisa projetam lotação de UTIs pelo país; pior cenário vê déficit em abril Ricardo Balthazar são paulo O avanço do coronavírus submeterá os hospitais brasileiros a pressões significativas mesmo se o contágio da população evoluir de forma lenta nos próximos meses, sugerem projeções de pesquisadores que estudam o impacto potencial da doença no sistema de saúde pública. Como a epidemia ainda está em estágio inicial no Brasil, é cedo para previsões seguras sobre sua evolução, dizem os especialistas. Mas os estudos em andamento podem ajudar a identificar áreas despreparadas para lidar com a disseminação do vírus e a acelerada multiplicação de casos. Cálculos de um grupo ligado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indicam que grande parte dos municípios teria dificuldades mesmo com taxas de infecção relativamente baixas se a contaminação aumentar muito rapidamente. Num cenário em que o,i% da população contrairia o vírus em um mês, os pesquisadores mineiros preveem que faltariam leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para o atendimento dos casos mais graves em 44% das regiões em que o Sistema Único de Saúde (SUS) agrupa os municípios do país. Uma taxa de infecção de 04% será alcançada no Brasil quando 210 mil pessoas tiverem contraído o novo coronavíras. As estatísticas do Ministério da Saúde apontam 7.910 casos confirmados até esta quinta (2), mas há evidências de que muitos casos não têm sido no identificados por falta de testes. Com base na experiência de países atingidos antes pela pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que 14% das pessoas infectadas pelo coronavírus precisarão de internação hospitalar e ao menos 5% precisarão de atenção maior e de equipamentos das UTIs. Num cenário mais pessimista, em que o contágio atingiria 1% da população em um mês, os hospitais de 95% das regiões ficariam sobrecarregados, sem leitos para os casos mais graves, diz o grupo da UFMG. Em 51% das regiões, também não haveria aparelhos de ventilação pulmonar suficientes para auxiliar os doentes. O Brasil tem pelo menos 33 mil leitos de UTI disponíveis para pacientes adultos no SUS e nos hospitais particulares, sem contar leitos para recém-nascidos e crianças, mas a distribuição é desigual. As maiores carências estão na rede pública e nas regiões mais pobres do país, Norte e Nordeste. Muitos municípios que ficaram sem condições de atender os pacientes mais graves com o avanço da Covid-19 poderão recorrer à estrutura disponível em cidades maiores de suas regiões, mas essa opção também dependerá da intensidade com que elas forem atingidas pela epidemia, dizem os especialistas. “Em muitos desses lugares, é possível que a oferta de ambulâncias equipadas e profissionais preparados para o transporte dos doentes que necessitarão de maiores cuidados seja mais decisiva do que a disponibilidade de leitos’’, afirma o demógrafo Gilvan Guedes, um dos pesquisadores do grupo da UFMG. Simulações feitas por outro grupo, liderado pela professora Mareia Castro, da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, nos EUA, sugerem que haverá problemas em poucas semanas no Brasil se a doença evoluir no mesmo ritmo observado na China, epicentro da pandemia. Na cidade de São Paulo, faltariam leitos comuns e leitos de UTI a partir da segunda quinzena deste mês, de acordo com a maioria dos cenários estudados pelo grupo —a Prefeitura de São Paulo anunciou essa mesma previsão nesta quinta. Se 12% dos infectados precisarem de cuidados especiais, como aconteceu na Itália, os recursos dos hospitais se esgotariam em poucos dias. Segundo o Ministério da Saúde, a oferta de um leito de UTI para cada 10 mil habitantes é o mínimo necessário para atender a população, mas esse parâmetro é adequado para um ano típico, não para uma situação excepcional como a que o país enfrenta com a pandemia do coronavírus. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), a oferta de leitos de UTI nos hospitais do SUS é inferior ao mínimo necessário em 72% das regiões definidas pelos gestores do sistema, onde vive 56% da população brasileira e 61% das pessoas sem cobertura de planos de saúde privados. As simulações feitas pelos grupos da UFMG e de Harvard indicam que as dificuldades serão menores se os leitos de UTI e outros recursos disponíveis nos hospitais privados também puderem ser usados por doentes sem plano de saúde, que dependem exclusivamente da rede pública. Mas o ganho seria limitado mesmo assim. De acordo com os cálculos do grupo liderado por Mareia Castro, se os u Em muitos lugares, é possível que a oferta de ambulâncias equipadas e profissionais preparados para o transporte dos doentes que necessitarão de maiores cuidados seja mais decisiva do que a disponibilidade de leitos Gilvan Guedes pesquisador e coautor de estudo da UFMG u Os hospitais continuarão tendo que atender outros doentes na epidemia, mas muitas cirurgias poderiam ser suspensas, abrindo uma janela para aliviar o sistema Gonzalo Vecina Neto orientador de pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo governos assumissem o controle dos hospitais privados no Brasil para enfrentar a epidemia, como ocorreu na Espanha, o esgotamento da oferta de leitos seria adiado por apenas uma semana. Estimativas de outro grupo de pesquisadores, orientado pelo professor Gonzalo Vecina Neto, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, indicam que medidas de gestão nos hospitais e investimentos para ampliar a oferta de leitos contribuiriam mais para evitar o colapso. “Os hospitais continuarão tendo que atender outros doentes na epidemia, mas muitas cirurgias poderiam ser suspensas, abrindo uma janela para aliviar o sistema", diz Veeina, que chefiou a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária e foi superintendente do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Num cenário em que a contaminação evoluísse no ritmo observado em Wuhan, cidade chinesa onde os primeiros casos foram registrados, e a taxa de infecção da população atingisse 0,5% em 79 dias, faltariam 3 mil leitos de UTI no país para atender os casos mais graves, calcula o grupo. Se cirurgias eletivas fossem suspensas, o que poderia liberar 30% dos leitos existentes nas UTIs, segundo Veeina, as necessidades cairíam para 16,7 mil leitos. Com investimentos para ampliar em 10% a capacidade dos hospitais, o número cairia para 12,7 mil —ou seja, uma redução de 57%. Em São Paulo, estado com o maior número de casos registrados até agora, esse efeito seria maior. Segundo os cálculos do grupo de Veeina, a suspensão de cirurgias eletivas e o investimento nas UTIs reduziriam de 6.400 para apenas 147 a necessidade de novos leitos para tratamento da Covid-19 nesse cenário. Em todos esses estudos, os pesquisadores usaram estatísticas sobre a incidência da doença na China, nos EUA e na Europa para calcular seu impacto no Brasil, sem considerar os efeitos que providências dotadas por prefeitos e governadores nas últimas semanas podem ter no controle da contaminação. Medidas drásticas de isolamento social como as que vigoram na maioria dos estados tendem a reduzir o ritmo de transmissão do coronavíras, evitando que idosos e outros grupos mais vulneráveis sejam infectados e atenuando a pressão sobre o sistema. Outras medidas teriam efeito semelhante. “Fortalecer profissionais da atenção primária para que sejam capazes de identificar casos de contaminação e acompanhar sua evolução ajudaria a ganhar tempo, garantindo o encaminhamento só dos casos mais graves aos hospitais”, afirma Guedes, da UFMG. Hospitais de campanha estão sendo construídos em São Paulo e no Rio para atender casos mais leves, o que aliviaria as UTIs. Ainda assim, especialistas defendem maior coordenação entre as várias esferas de governo para evitar desperdício de recursos. “Há muitos leitos desativados nos hospitais que poderiam ser reativados com custo menor para os governos”, diz Adriano Massuda, ex-secretário de Saúde de Curitiba e hoje na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Cenário 1 • 1% da população brasileira teria contraído o coronavírus • Seis meses após o início da epidemia Cenário 2 ■ 1% da população brasileira teria contraído o coronavírus ■ um mês após o início da epidemia A sobrecarga do sistema seria maior. Faltariam leitos de UTI em 95% das regiões e respiradores em 51% Cenário 3 ■ 10% da população brasileira teria contraído 0 coronavírus ■ 12 meses após 0 início da epidemia Não haveria leitos de UTI suficientes em 88% das regiões e faltariam aparelhos em 39% Cenário 4 ■ 10% da população brasileira teria contraído o coronavírus • Seis meses após o início da epidemia Faltariam leitos de UTI em 99% das regiões e não haveria aparelhos suficientes em 64%. Também não haveria leitos para casos menos graves em 28% das regiões Fonte: Nota Técnica 'Análise de demanda e oferta de leitos hospitalares gerais, UTI e equipamentos de ventilação assistida no Brasil em função da pandemia do COVID-19', de Kenya Noronha, Gilvan Guedes, CássioTurra, Mònica Víegas Andrade, Laura Botega, Daniel Nogueira, Juiía Cala rans, Lucas Carvalho, Luciana Servo e Pedro Amaral, publicada pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais

FOLHA DE S.PAULO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 03/04/2020 às 01h00

Nada de ouro, dólar, joias ou bitcoin. O bem mais desejado dos próximos dias será um leito hospitalar. Num cada vez mais raro momento de convergência, os governos federal e de São Paulo preveem que o pico de contaminações pelo coronavírus será entre 45 e 90 dias. O que significa que o sistema de saúde será testado e chacoalhado. De acordo com o que se viu em outros países, já podemos esperar hospitais abarrotados, fazendo com que as empresas do setor, principalmente as donas de redes hospitalares, sintam os efeitos na pele, ou melhor, no bolso. Até agora, o que aconteceu foi que a demanda foi represada, com a suspensão de cirurgias eletivas, por exemplo. Quem teve que ir para um hospital nos últimos dias espantou-se com a falta de circulação nos corredores. Mas o silêncio não deve se manter por muito tempo. Para companhias como de planos de saúde a Notre Dame Intermédica e Hapvida, que possuem a própria rede de atendimento, o momento de incertezas levou os preços ao chão. Em comparação com o início do ano, as ações ordinárias das duas caíram 41%, enquanto o Ibovespa registrou queda de 40%. Os preços levam em conta que inclusive a falta de certezas sobre quais serão as ações do(s) governo(s) em casos mais drásticos. Recentemente, assistimos à entrada da Polícia Militar de São Paulo em uma fábrica da 3M para confiscar 500 mil máscaras de proteção. A ideia da federalização de leitos hospitalares já tem sido ventilada, também. Quem conhece bem o mercado aponta que, no longo prazo, são justamente as empresas de planos com ação em bolsa (há ainda SulAmérica e Qualiccorp) que devem se dar bem. Isso porque a provável depressão econômica deve diminuir o acesso da população aos planos, que hoje são para pouco menos de 25% da das famílias. Isso levaria à quebra das pequenas empresas do setor, ampliando o poder das maiores. Ainda assim, prevenir segue o melhor remédio, também para a economia. Pesquisa recente do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que cada internação pela Covid-19 custa R$ 11,3 mil. Com isso, encontraram um custo de quase R$ 1 bilhão para cada 1 ponto percentual de infectados na população brasileira não coberta por planos de saúde. Mas ainda são poucas as atitudes para prevenir infecções, mortes e gastos bilionários entre as empresas do setor de saúde que negociam suas ações em bolsa. Entre as mais de 20 companhias da área, de laboratórios de imagem a farmácias, é mais fácil encontrar comunicados informando sobre o adiamento de pagamento de dividendos a seus acionistas do que desembolsos para evitar o contágio para além de seus próprios escritórios e fábricas. E não se trata de bondade, como podem parecer as iniciativas da Raia Drogasil de não repassar o aumento anual dos remédios ao consumidor (antes de o governo adiar o reajuste) e aplicar a vacina de gripe do SUS gratuitamente em suas lojas. É lógica de mercado também: se a população estiver bem medicada e vacinada, menos casos, menos mortes, mais clientes e mais rápido retorno da economia. Apesar do impacto financeiro negativo no curto prazo, essas são atitudes bem recebidas por investidores. Levam valor à marca e podem acelerar a volta da circulação das pessoas às lojas, comprando itens além de remédios, como os de perfumaria, que são quase ¼ das vendas rede. Vale registrar que as ações da Raia Drogasil caíram apenas 7% em relação ao primeiro pregão do ano A Dasa, dona de laboratórios, parou de cobrar por coletas de exames em casa, para pacientes com mais de 60 anos. Qualicorp e Intermédica criaram canais para tirar dúvidas sobre o coronavírus. Mas, infelizmente, enquanto os Estados Unidos viram uma alta das ações puxada por empresas da área de saúde, depois de a Johnson & Johnson anunciar a possibilidade de testar a vacina para Covid-19 em humanos em setembro, aqui, assistimos o diretor da gigante farmacêutica Hypera tentando manter a produtividade de seus vendedores, espalhando que profissionais da indústria são “cascudos” e têm a imunidade reforçada. A companhia rebate que essa não é sua posição oficial. Em seu site, quem quiser informações sobre coronavírus, deve procurá-las em uma página do hospital Sírio-Libanês.